A história se repete com alguma frequência: só uma garota começa a namorar, e começam as preocupações com “as amiguinhas”, i.e., toda “puta” mulher que conheça seu namorado e que magicamente dá em cima dele. É absurdo a quantidade de memes, de vídeos engraçadinhos e de piadinhas a respeito do tema. Olha, todo esse papo de “amiguinhas” serve adivinha para quê? Estimular mais ainda a rivalidade feminina, mesmo que seja de “brincadeirinha”.

Há quem abomine todas as “amiguinhas” do namorado. Há aquelas que foquem em “amiguinhas” específicas. Entretanto, pela minha experiência/observação (tanto na vida quanto na clínica), as que incomodam são exatamente aquelas que são consideradas mais bonitas,  mais interessantes. Aquelas que acreditamos ser uma ameaça. Acreditamos. Muitas vezes, a ameaça está só em nossa cabeça. Seja porque o namorado está nem aí para outra mulher seja porque, PASMEM, a outra não está nem aí para seu namorado.

venus

Pois é. Você acha seu namorado o melhor, o carinhoso, o perfeito, o lindo, o gostoso. Um partidão. Entretanto, se você não achasse não o namoraria. Aqui entra nossa tendência a avaliar as coisas a partir de nossos referenciais, como se por eu achar tudo isso dele, todas as outras mulheres compartilham da mesma opinião. Algumas inclusive podem pensar como uma menina tão legal como você, namora um cara como ele, meio “babaca”.

OK, existem pessoas que não entendem o compromisso alheio como um impedimento para o flerte. E não é porque alguém flerta/dá mole/se joga em cima de nós que somos obrigados a corresponder. Só que aqui entra em ação aquela crença que aprendemos ao longo da vida sobre homens: ELES SÃO HOMENS e não sabem se controlar diante de alguém que os queira. Quantas vezes não usamos essa frase “ah, mas ele é homem” pra justificar uma pulada de cerca do cara, enquanto giramos a metralhadora para a mulher e aí sim, fazemos todo julgamento moral a respeito do seu comportamento: “vadia, puta, não se dá o respeito”.

A verdade é que traição não é comportamento exclusivo de um gênero ou de uma orientação sexual específica. Todos os seres humanos podem trair. O que diferencia muitas vezes o comportamento são as crenças que cada um tem a respeito desse tipo de comportamento. Se você acredita que traição é algo abominável, possivelmente vai evitar trair, além de provavelmente não perdoar quem lhe traia. Se você acredita que ser traído é ruim, mas trair o outro pode ser justificável em certos casos, é possível que você traia e não perdoe ser traído. Mas isso pensando de uma maneira super simplista, sem levar outros aspectos da situação em consideração.

Até mesmo o que é traição varia de pessoa pra pessoa. Há quem considere que sexo sem envolvimento não é traição. Há quem pense que envolvimento, mesmo sem sexo, é trair. Há quem considere que flertar ou corresponder ao flerte de alguém é traição. Depende do referencial da pessoa.

O problema ao alimentar o mito da “amiguinha” é que parece que ao iniciar uma relação, todas as outras mulheres não tem nada melhor para fazer a não ser interferir nela. Imagine como é ver qualquer mulher como potencial ameaça. Dá pra se sentir segura? Não. Não dá. E então começam os questionamentos, os stalkings e uma série de comportamentos que reforçam a ideia que mulher é tudo neurótica, insegura e estão sempre competindo uma com as outras. Comportamentos esses que podem, sim, vir a afetar sua relação.

É irracional pensar ou acreditar que todas as pessoas do sexo feminino que se aproximam do seu parceiro tem intenções românticas ou sexuais com ele. Mas pensar sobre isso pode ter um efeito devastador sobre seu comportamento e saúde mental, tornando uma experiência gratificante como amar e ser amado, em algo não prazeroso e angustiante. O tempo gasto com essas preocupações, em “stalkiar” as redes sociais e se possível qualquer outra forma de comunicação do parceiro com o mundo pode atrapalhar a vida da pessoa, prejudicando diversas áreas de sua vida.

Pessoas muito ciumentas tendem a ver coisas que não existem ou aumentar a importância de outras. “Quem procura acha”, é o que dizem. E sim, é verdade. O problema é que quando encontramos pistas neutras, elas acabam sendo avaliadas a partir de um viés e se tornam evidência de uma ameaça real. Mesmo quando é uma pista contrária, o cérebro pode distorcê-la até encaixá-la naquilo que queremos acreditar.

Somos seres sociais e aprendemos muitas coisas em nossa interação com os outros. Ao reproduzirmos essas falas como as de que “amiguinhas são tudo puta”, estamos apenas perpetuando estereótipos a respeito das mulheres, que acabam muitas vezes nos atingindo também, mesmo que não tenhamos esse tipo de comportamento. Quantos amigos já não se afastaram de você por causa das namoradas, mesmo quando você não tinha nenhum interesse por eles? Não é estranho que não exista um correspondente masculino para as “amiguinhas”? Não é estranho pensar que somente mulheres tem essa “falta de respeito” pela relação alheia? Não é estranho que os homens sejam super cobiçados? Essas aprendizagens tem uma influência no nosso comportamento. Desconstruímos isso internamente ou vamos passar a vida nos defendendo de inimigos que talvez nem existam.

Comentários

Comentários