* TW – Trigger Warning – é o “aviso de gatilho” usado antes da abordagem de temas traumáticos. É a forma respeitosa de prevenir as vítimas de violência acerca da natureza delicada de textos ou imagens que tratam de temas como fobias, violência e opressão. É o caso do estupro masculino e de todas as formas de agressão sexual e assédio.

DandoPintaSloganO assunto é tabu. Não existe uma “cultura do estupro masculino”, que faz os homens se sentirem alvos de cantadas inapropriadas e de encoxadas nas ruas, ou para temerem a possibilidade de uma violência sexual quando são vítimas de um assalto, por exemplo. É um privilégio masculino, já que não vivenciamos essa opressão como as mulheres, mas também é uma das causas para o silêncio sobre esse assunto.

Até 2009, o estupro masculino sequer era reconhecido pela lei brasileira. A ideia de que um “homem de verdade” é capaz de se defender e de proteger sua identidade física e mental está no alicerce da construção da masculinidade, que é uma coisa frágil por natureza.

É tanta negação que fica muito fácil “deixar de ser homem”. Não pode rir demais, não pode chorar, não pode demonstrar afeto, não pode ter curiosidade sobre o corpo masculino, não pode ter práticas ou desejos homossexuais, não pode andar assim, não pode falar assado, não pode exercer certas profissões ou demonstrar interesse por coisas interditadas. É tudo azul, e sobre isso paira o fantasma da afeminação, como uma sentença de morte em vida que tira os indivíduos de um pedestal de macheza para nivelá-los por baixo. Afinal, se a mulher é vista como fraca, o que dizer do homem que “abre mão” de sua posição dominante? Quem é mais abjeto do que a figura da “bicha”?

É nessa articulação de machismo e homofobia que o estupro masculino vira um mal invisível.

Nessa semana, circulou a notícia de que uma gangue de estupradores da cidade de Washington, nos Estados Unidos, fez mais uma vítima. Aparentemente, os agressores usam uma van para circular pela cidade e escolher suas vítimas, que então são violentadas dentro do veículo. A polícia está investigando o caso, e ainda não está claro que haja alguma motivação política por trás dos ataques, já que a orientação sexual das vítimas não foi revelada. Entretanto, o caso vem sendo comentado principalmente por sites LGBT, e com um resultado alarmante…

Embora seja triste, não é espantosa essa associação. De acordo com as regras da masculinidade e com a demonização de homens gays, a sociedade tende a presumir que em casos assim alguém TEM que ser gay, seja a vítima ou o agressor.  Existe uma certa tolerância aos casos “extremos” das prisões e de outros locais onde não existam mulheres, porque aí se aciona a justificativa de que a “natureza sexual predatória” do homem o faria caçar qualquer buraco. Mas a rigor, qualquer coisa que envolva o sexo anal entre homens é vista como gay, o que é um erro porque essa identidade não é definida de maneira tão fechada. Além do mais, os componentes de dominação e violência desses crimes vão além do contexto do desejo sexual, de forma que o ato isolado não pode servir para classificar a sexualidade de nenhum dos envolvidos.

Entretanto, o mais preocupante é a forma fetichista e glamourizada como a notícia vem sendo compartilhada e comentada – particularmente por gays. Entre fotos de filmes pornô e títulos duvidosos, o que se lê são comentários dizendo “quero”, “onde pega a van?”, “partiu Washington” e “que delícia”. Sério, é muita falta de sensibilidade!

O fetiche de dominação é muito presente na sexualidade masculina, independente da orientação sexual. No caso dos gays, o estigma e um sexualização exacerbada ainda vão colocar mais elementos em jogo, de forma que dor, submissão e proibições se fazem presentes nos filmes pornô e nos espaços de pegação. Tudo lindo, tudo muito prazeroso – quando é consensual.

O consentimento é a regra de ouro do sexo, já que falamos de uma relação com outra pessoa. Encenar uma situação ou brincar com os estímulos físicos da dor pode ser delicioso, mas apenas se todas as partes estiverem de acordo. Qualquer coisa diferente disso é abuso, é violência. Um crime.

O estupro masculino não faz a vítima ser menos homem. Só prova que o estuprador não é humano.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos. Não esqueça de curtir a nossa página.

Comentários

Comentários