Se você já participou de algum debate sobre racismo nas redes sociais, certamente você já reparou que, para a maioria das pessoas, a definição de racismo que consta no dicionário é mais do que satisfatória. Então, como na realidade o assunto vai muito além de “atitudes discriminatórias”, “sentimento de superioridade” e desejos de “segregação e extermínio”, ainda vale a pena dizer que, como tudo na vida, nada é tão simples como nos ensinam na escola… A seguir, uma lista de conceitos introdutórios que todo mundo deveria aprender urgentemente.

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Falar sobre racismo não é defender distinção de raça

Quase sempre algum comentarista online diz que não faz distinção de cor. Mesmo não sofrendo de daltonismo. Como se séculos de escravidão e opressão tivessem sidos justificados inteiramente nesse critério e não no fato de que todas as instituições europeias da época se dedicaram a defender o tratamento desumano a todos os povos não-brancos através do argumento de que a Europa seria uma civilização superior e predestinada a aperfeiçoar e explorar o resto do mundo e seus habitantes. Apesar da ciência ter superado esse passado lamentável e hoje atestar que seres humanos não podem ser classificados biologicamente em raças, quando se fala em racismo nos dias de hoje, não se pretende reafirmar essa catalogação desumana, mas sim debater as consequências de um dia se ter acreditado que sim.

A culpa (quase) nunca é só do indivíduo

Uma das maiores dificuldades em se debater o tema com pessoas brancas, é que raramente elas tem a compreensão de que individualmente, ninguém é capaz de oprimir ninguém. Essa falha na percepção, faz com que brancos – e embranquecidos – frequentemente levem as problematizações/acusações pro lado pessoal, ao invés de reconhecerem que não estão familiarizados com o assunto. Demonstrando, assim, como o entendem superficialmente um problema profundamente enraizado nas nossas cultura e sociedade. Revelando que nunca dedicaram muito do seu tempo para se informarem sobre a complexidade de um mal que não terminou com a abolição, nem com a eleição de Obama, nem muito menos com a nomeação do Joaquim Barbosa. Ou seja, sempre que alguém leva pro pessoal alguma contestação sobre racismo, essa pessoa acaba expondo a sua ignorância sobre a realidade desse conceito. Porém, toda vez que essa mesma pessoa contestada reincide no erro apontado anteriormente, é possível identificar uma adesão voluntária a uma prática racista.

Nenhum negro é atacado isoladamente e nenhum branco é racista sozinho

Quando uma pessoa negra é atacada pelo tom de sua pele, não somente ela é agredida, mas todas as pessoas que compartilham desse traço fenotípico. Seus pais, avós, familiares, amigos, ídolos etc. Da mesma forma, um ato ou fala racistas não surgem do nada, são descendentes dos séculos da ultrapassada convicção de uma superioridade branca. Portanto, ter atitudes ou reproduzir discursos racistas não se trata meramente de uma falha moral ou restrita a nazistas, mas sim da eficácia do contexto histórico que doutrinou o mundo sobre a, suposta, inferioridade dos povos não-brancos. Por isso que até mesmo pessoas tidas como boas podem, involuntariamente, agir de acordo com essa contribuição cultural europeia que se mantém viva graças aos poucos esforços em educar a sociedade sobre as consequências históricas e atuais dessa falsa supremacia.

Pessoas negras não podem ser racistas

Sem sombra de dúvidas, pessoas negras podem ter preconceitos com pessoas brancas, indígenas, asiáticas, aborígenes etc., porém, nem toda ofensa é opressão. Muito provavelmente o que acontece nesses casos é um mecanismo de auto-preservação à ataques racistas. Pessoas negras no Brasil – e no mundo – não têm condições de virar o jogo e oprimirem nem uma pessoa branca sequer. Grande parte da cultura mundial foi construída com o sangue de povos indígenas e africanos escravizados com o único objetivo de beneficiar pessoas brancas, então, a não ser que possamos voltar na história e colonizarmos a Europa, xingamentos como “branquelo” e “leite azedo” permanecerão sendo só brincadeiras infantis e de mau gosto. Atitudes como estas podem e devem ser condenadas, mas elas jamais poderão ser racistas, pois nenhuma pessoa branca é prejudicada – de qualquer maneira – unicamente por ser branca. E não, compartilhar privilégios com segmentos historicamente menosprezados – para dizer o mínimo – não é prejuízo. É uma tentativa de se fazer justiça!

Racismo é uma questão de poder, não apenas de sentimentos

Diferente  do que muitas pessoas acreditam, racismo não se trata apenas de ofensas a pessoas negras, mas também da exclusão de pessoas não-brancas das esferas de poder. Não é somente uma questão de segregar locais públicos como fizeram durante o Apartheid e nos EUA – antes dos movimentos sociais. O racismo se faz presente, principalmente, no conjunto de leis e instituições que tornam naturais a prevalência de rostos brancos em cargos de destaque social – até mesmo em países na África; e também na predominância de negros em presídios e favelas. Isso sem mencionar a síndrome de Cabral que faz com que tantas pessoas brancas encontrem justificativas para se apropriarem de qualquer símbolo de outras  culturas. Como se descendentes de europeus tivessem algum direito inato a tudo que acharem conveniente. Incluindo nossos direitos, reivindicações, gêneros  musicais, indumentárias e o que mais for lucrativo e benéfico para o status de cidadãos colonizadores do mundo. O racismo magoa, mas também mata, desemprega, encarcera, criminaliza, tortura, isola, deprecia, sequestra identidades culturais, coisifica, animaliza,… E outra infinidade de coisas que nenhum texto seria capaz de dar conta.

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