Ser uma pessoa branca numa cultura racista é poder ser tudo e ninguém ao mesmo tempo. É ser criada desde pequena para achar que o mundo lhe pertence. Sem fronteiras ou obstáculos traçados pelo opressor destino. É saber que sempre se será vista com bons olhos por todos e que os erros de outras pessoas brancas não pesarão sobre você. Afinal, pessoas brancas conquistaram o mundo e a globalização mantém viva a ideia de que a branquitude é o parâmetro universal.

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Ser uma pessoa branca numa sociedade racista significa que tudo é construído a sua imagem e semelhança. É ser o padrão de fábrica. O default. O exemplo maior. A representação de todos os seres humanos. Porém, como tudo na vida, privilégios tem seu preço. E como não poderia deixar de ser, encarnar a identidade ideal tem um custo: o anonimato — o pior pesadelo de uma época obcecada por individualidade.

Não deve ser nada fácil se tornar um indivíduo único e singular quando toda a cultura foi estruturada para te espelhar e enaltecer. Quando a branquitude é o referencial exigido tanto para brancos como para negros, índios, asiáticos, árabes etc., destacar-se do todo requer um esforço dobrado. Pruma pessoa branca não ser engolida pelo projeto de homogeneização ela precisa recorrer às subculturas. Pruma pessoa branca se diferenciar do reflexo hegemônico ela precisa evitar visivelmente o mainstream. Piercings, tatuagens, estampas e inúmeras outras coisas servem para distinguir as diversas tribos urbanas. Mais especificamente: servem para que pessoas brancas sejam reconhecidas e reconheçam seus iguais. Digo pessoas brancas porque um negro metaleiro será sempre lido como negro antes de metaleiro, uma gamer negra sempre será lida como negra antes de gamer, assim por diante

Nessa busca de pessoas brancas por algo que as torne únicas, muitas vezes elas acabam repetindo o erro de seus antepassados: reivindicando propriedade de um aspecto de uma cultura que subjulgaram subjulgam; passando a incorporar elementos que historicamente condenaram por pura conveniência; e removendo todo o contexto em que esses elementos foram criados para agregar valor a si mesmas enquanto nada contribuem para a desestigmatização dos mesmos.

Recentemente isso vem acontecendo com o uso desmedido de dreads — que em pessoas negras continuam sendo vistos como indício de pouca higiene e marginalidade —, de turbantes — que ainda hoje faz com que até mesmo crianças levem pedradas na rua —, e diversos outros exemplos de aspectos culturais que, magicamente, se tornam mais aceitáveis quando usados por branques. Ou seja, na busca por likes e status, as pessoas brancas de hoje colombizam a América alheia. Sem jamais deixarem de depreciar os nativos.

Nos últimos dias foi publicado um texto de uma africana que contesta o uso de tecidos e pinturas corporais africanas por pessoas negras em Diáspora de maneira aleatória. Um questionamento mais do que válido e necessário, afinal custa muito perceber como isso virou tendência entre nós, afro-Americanos. No entanto, em momento nenhum a autora pretende ser a juíza-representante de um continente inteiro, assim como também não reconhece que o nosso desligamento com a terra-Mãe atualmente é produto de um processo secular de apagamento da negritude por parte dos nossos raptores colonizadores. Um projeto de anulação ainda observável na maioria das mídias contemporâneas.

Diferente dos nossos colegas brancos pessoas negras não têm como traçar suas linhagens. Eu mesmo adoraria saber exatamente de quais povos descendo, mas os rastros documentais foram covardemente queimados. Impossibilitando, assim, qualquer certeza que eu poderia ter nesse sentido. Logo, quando nos apegamos a referencias étnicos ancestrais, tentamos nos aproximar de uma origem que nos foi roubada, ao mesmo tempo em que lembramos o mundo desse crime e rejeitamos a supremacia cultural do colonizador. O que em nada significa que por sermos  negros temos acesso irrestrito a toda cultura de um continente. Vestimentas, penteados e marcações tribais são atributos com contextos e finalidades específicas. Conhecer esses propósitos e respeitá-los são princípios indispensáveis a qualquer usuário que se pretenda digno. Em outras palavras: usar pintura iorubá sem saber localizar no mapa nem a história dessa etnia é um ato de banalização e esvaziamento. #PartiuBomSenso

Dito isso, julgar descendentes de africanos sequestrados e escravizados de apropriação soa bastante desonesto – pra dizer o mínimo. Principalmente quando se sabe que a adoção desses símbolos por pessoas negras ainda é encarada como subversão — com severas consequências no mercado de trabalho, por exemplo —, e não representa qualquer exercício de privilégio. Então, por favor, não confunda.

Por fim, vale lembrar que quando se problematiza o uso indevido de elementos de outras culturas por pessoas brancas não se pretende proibir alguém de usá-las — até porque minorias não têm poder para reprimir nada. Quando não-brancos apontamos apropriação fazemos valer a nossa memória. Identificando um padrão recorrente nas interações entre europeus — e seus descendentes — e o resto do mundo: a erradicação dos proprietários originais em benefício ($) exclusivo da branquitude dominante. Logo, se você é uma pessoa branca descontente com alguma acusação do tipo, a melhor defesa sempre será alegar que além do extermínio, a usurpação faz parte do “honroso” legado europeu. #ObrigadoDeNada

Leia a coluna Enegrecendo toda segunda, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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