Sei que o carnaval já passou, mas não poderia deixar de escrever um texto sobre o evento. Não escrevi nada durante a festa porque estava tentando absorver tudo que vi e ouvi em relação a HIV/Aids durante a semana mais animada do ano. Felizmente, o carnaval é um evento bastante interessante, pois diversas camadas sociais que são vistas e tratadas com invisibilidade finalmente alcançam o “status” e a liberdade de transitarem nas telas e pelas ruas.
LadoPositivo2No entanto, sabemos que diversas questões que dizem respeito às agruras de nossa sociedade preconceituosa se fazem presentes nesses quatro dias, e com o HIV não é diferente. Em sua quarta década, o vírus ainda é vendido como grande terror pós-folia, já que “a vida continua depois do carnaval”. De forma quase criminal somos acusados de intensificarmos a proliferação da Aids durante esse evento, já que é esperado que todo mundo saia para os blocos à caça de sexo.

Infelizmente, temos um jogo de relações sociais que cada vez mais nega a sexualidade. As pessoas fazem sexo sem preservativo gratuitamente durante o ano inteiro. O ano inteiro a idade, a feminilidade, a cor da pele são marcadores sociais da diferença que muita das vezes dificultam o “sexo seguro”, sem falar no fetiche e na vontade de conhecer essa “pele na pele”. Portanto, afirmar “só faço sexo seguro” requer uma posição social bastante privilegiada, fazendo com que a ideia do uso de preservativos perca de goleada para atributos e questões de práticas, bem como noções fundamentalistas que afastam cada vez mais a palavra “sexo” do cotidiano.

O Ministério da Saúde fez uma campanha com o slogan “deixe a camisinha entrar na festa” para o carnaval 2016. Infelizmente, deixar a camisinha entrar na festa não vai ser (e nesse caso, não foi) tão fácil, já que por todas essas questões as pessoas acabam transando sem preservativo o ano inteiro. A grande diferença, eu diria, é que no carnaval tudo é muito positivado. A gente positiva as cantadas machistas, as brincadeiras LGBTfóbicas e, consequentemente, a gente admite a maneira como a transa o ano inteiro, como se fosse coisa de apenas quatro dias. Não é no carnaval que o HIV tem o seu maior índice ou que as pessoas fazem mais sexo desprotegido. Na verdade, isso é o reflexo do nosso cotidiano. São demonstrações das nossas relações sociais mais explícitas, ou até mesmo a simples “cara de pau” de fazer aquilo que se tem vontade de fazer sempre.

Enquanto se investe em campanhas de prevenção durante o carnaval, as pessoas vão se contaminando semana após semana. Por que será? Sinceramente, não tenho respostas precisas para isso. De repente para além do carnaval o HIV não seja um problema. Realmente eu não tenho respostas para isso, apenas analiso essas questões criticamente e penso em como estamos na verdade atirando contra nós mesmos. Nem tenho certeza se o investimento em campanhas durante todos os dias do ano vai diminuir a taxa de infecção e “combater” o HIV. O que sei é que temos uma estrutura que trata o sexo como algo a ser reprimido e isso aumenta ainda mais a vontade de sair dessas amarras.

Nesse momento, estou encerrando o texto e me lembrando de um ocorrido durante o carnaval. Uma criança de aproximadamente 5 anos de idade fala para a mãe: “Olha a camisinha”. Era exatamente a campanha do Ministério da saúde, e a mãe correu para brigar com um “que feio, menina”. Realmente, estamos desnaturalizando a camisinha e naturalizando estruturas e fetiches na tentativa de reprimir cada vez mais a sexualidade.

Leia a Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos. Para falar comigo, você pode escrever para poz@osentendidos.com.

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