Sungas importadas com cortes que valorizam a bunda e projetam a mala, festas temáticas com drogas sintéticas e drinques coloridos. Corpos esculpidos na academia, faculdade de design de qualquer coisa, etiquetas famosas em ternos, óculos e sapatos. Café extravagante antes do filminho francês, um pão de queijo gourmet entre os livros bacanas da bookstore cult. Paris, Ibiza, Míkonos… Tem rolê melhor que Manhattan? O show da Madonna em Barcelona foi incrível. Money, money, money! Afinal, quanto custa ser gay?

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Atualmente, quando cada vez mais demandas identitárias ganham voz no “mundo da problematização”, uma crítica comum ao G em LGBT é a de que homens gays estão pouco preocupados com as lésbicas, com os bissexuais e com as pessoas trans. Para alguns, a reclamação é outra das mazelas do nosso “mundo chato”, mas a verdade é que nas modernas sociedades capitalistas o culto ao EU está cada vez mais forte e a filosofia do “farinha pouca, meu pirão primeiro” explica o problema. Como falar em união se as poucas conquistas LGBT são apenas para os que podem pagar?

Na cultura ocidental, o pensamento de que os nossos valores são absolutos é comum e que a NOSSA visão imperialista é a correta, até porque o conhecimento se construiu com o entrelace de dados científicos diversos. O problema disso, logicamente, é a imposição de modelos à culturas diferentes, quando o ideal seria compreender que o entendimento de certas coisas por outros povos afeta as coisas em si, especialmente quando estamos falando de pessoas.

Além do desejo ou da prática do sexo entre iguais, a experiência básica de uma identidade sexual divergente – como, por exemplo, a gay – é a de exclusão. Se o comportamento heterossexual é tomado como padrão, a homossexualidade vira fenômeno e surge a necessidade de se entender as razões por trás dela. Não importa que práticas afetivas e sexuais entre pessoas do mesmo sexo sejam documentadas em toda a nossa história. O que importa, na busca pelo conhecimento, é entender a “mecânica do desvio”, consequentemente definindo o que é “certo” e o que é “errado”. Daí é só deixar as pedras voarem contra os pecadores. Por mais que a ideia de identidade sexual misture as coisas, é importante pensar em “gay” e em “homossexual” como definições distintas. Homossexual – que a rigor refere-se apenas à prática do sexo entre iguais – é ressignificado para definir uma essência, como se o desejo fosse parte fundamental do indivíduo. Isso faz sentido na visão moderna de sexualidade, mas quando deixamos o vocabulário da biologia de lado e focamos no peso social dos rótulos, é necessário entendê-los também como identidades políticas a pleitear direitos. É quando “gay” entra na história.

Entender-se gay é se entender como parte de um segmento social específico. O desejo proibido, a cobrança para sair do armário, as “coisas de menino” e as “coisas de menina”, a sexualização precoce, os artistas… O rótulo diz o que podemos ou não fazer. Sonhos e projetos são pautados por ele e dependendo do contexto familiar e social, as necessidades do indivíduo podem variar entre comprar o ingresso do show da Gaga, catar um corpo sem cabeça no aplicativo, ser capaz de não dar pinta no ambiente de trabalho ou conseguir chegar em casa sem ser espancado ou morto.

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Nesse contexto, a imagem de um “gay ideal” branco e com renda acima de média emerge como “pôster social” das conquistas de um movimento civil. O casamento e as leis trabalhistas antidiscriminação são obviamente vitórias – e escolhas – legítimas, mas assim como a representação cultural em filmes e novelas, também definem “como é” um gay. Uma definição que evidentemente não representa todos os que se identificam como gays e nem todos que tem práticas homossexuais, criando lacunas identitárias que podem se transformar em outras siglas políticas ou descambar para tensões que fragmentam ainda mais um segmento fragilizado.

Será que os homossexuais que moram nas ruas – tendo algumas vezes indo parar lá por causa disso – se identificam como “gays”? E nas favelas? As demandas são as mesmas do movimento político que hoje se desenrola na militância virtual e nas páginas de monografias e dissertações de mestrado da academia? As políticas públicas para a comunidade LGBT estão atentas a esses abismos?

Vivemos na época do imediatismo, na dos memes que duram dois dias, dos smartphones com prazo de validade. Sabemos que o EI está atirando homossexuais de edifícios, mas temos pouco entendimento do significado da homossexualidade para os islâmicos. Sabemos dos números alarmantes de violência transfóbica em nosso país, mas não estamos nas ruas em protesto. A violência continua, mas o verniz de sociabilidade parece esmorecer qualquer tipo de articulação política. A epidemia de AIDS é tratada como assunto secundário, como se o acesso ao tratamento tivesse resolvido o problema e ele não fosse mais algo tão caro à bandeira do arco-íris. E seguimos, mais e mais imersos no sistema, ainda que ele nos chame de indesejáveis. Todo dia acordando, trabalhando, servindo, seguindo um modelo, consumindo lugares de gay, produtos de gay, música de gay… A que custo?

Ser gay custa caro. Para conquistar segurança e conforto em um mundo hostil, além de dinheiro é necessário que se faça o jogo de quem manda. O problema disso é que a imagem comprada pode custar a nossa humanidade.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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