Texto original em inglês por Aaron Barksdale.

Enquanto eu rapidamente me aproximo do meu 25° aniversário, percebo que nunca estive em um relacionamento Sério.  E não foi por falta de tentativas. De fato isso não é incomum entre pessoas da minha geração — millenials —, mas, como um homem gay negro, comecei a me perguntar como minha raça afetou minhas chances de encontrar amor.

Gosto de pensar sobre mim mesmo como alguém que se permite viver aventuras quando se trata de sexo e afetividade, alguém que jamais descartaria potenciais parceiros ou novas experiências. Porém, depois de conversar com alguns amigos, outros homens queer não-brancos, todos me disseram que eu tenho um tipo: homens brancos. Tentei negar, mas enquanto lembrava do meu histórico entendi que meus amigos estavam certos. Embora eu flerte e desenvolva amizades com outros homens negros, nunca investi seriamente num relacionamento com nenhum.

Quando estou no Tinder, os caras que me fazem deslizar a tela para a direita geralmente são homens brancos atléticos entre 21 e 30 anos. E quando vasculho a grade de torsos sem cabeça do Grindr, acabo por trocar mensagens com caras com a pele bem mais clara que um saco de pão. Mesmo pessoalmente, quando estou juntando coragem para falar com um carinha me pergunto se ele “curte caras negros”. É terrível ter me deparado com esses questionamentos. Agora fico me perguntando: por que não me atraio por outros homens não-brancos? E, quanto mais eu penso sobre isso, mais complicadas ficam as respostas.

Fui criado numa comunidade religiosa bastante rígida. A maioria das pessoas gays que eu tive acesso pela mídia eram brancas, e as poucas negras que eu conheci, como Wanda Skyes e Michael Sam, estavam em relacionamentos interraciais. Minha infância na congregação me fez acreditar que pessoas negras seriam inerentemente homofóbicas — um mito — e os únicos homens negros que eram gays estavam ou no “sigilo”, ou infectados com HIV — outro mito.

Tive dois tios gays que morreram de doenças relacionadas a AIDS antes de eu completar 10 anos. Eles foram afastados da nossa família parcialmente pela doença e pela orientação sexual.  Nunca tive a oportunidade de falar com nenhum deles enquanto vivos, mas frequentemente me pergunto que tipo de conselhos eles poderiam ter me dado enquanto crescia negro e gay no mesmo tipo de ambiente social conservador no qual eles cresceram.

Quando eu finalmente me assumi na faculdade, eu estava num meio predominantemente branco. Das muitas pessoas queers que estavam no armário, as poucas que saíram de lá, em sua maioria, eram brancas. Depois de formado me mudei para Nova Iorque e embora tenha feito vários amigos queer não-brancos por aqui, não passamos de um poucos gatos pingados nas boates e bares gays.

Um amigo meu, latino, uma vez me perguntou porque eu não chegava nos caras negros nos bares. Respondi: “Olhe ao redor, sou um dos três caras negros aqui”. Há uma notável falta de espaços queer em comunidades não-brancas, e isso definitivamente afeta as possibilidades de homens não-brancos se conhecerem. No entanto, embora a ausência desses espaços seja realmente um problema, a maioria dos caras negros que encontro pelos bares de Manhattan só tem olhos para homens brancos também. Será que estamos internamente perpetuando racismo ao excluir consciente, ou até mesmo inconscientemente, possibilidades de envolvimento romântico com outros homens negros? Caso sim, será que estamos meramente reforçando a política do desejo que condena pessoas negras como não-atraentes?

Depois de ter lido recentemente um artigo do Michael Arceneaux fiquei chocado com o que ele tinha para dizer sobre o assunto. Em seu texto ele questiona porque homens negros, mais especificamente, desejam tão desesperadamente serem reconhecidos como desejáveis por homens brancos que não tem interesse algum de se envolver com alguém fora de seu grupo racial. Ele disse: “Como homens negros, precisamos valorizar uns aos outros tão fortemente que nenhum preconceito — nem mesmo um disfarçado de preferência — possa nos fazer nos sentir indignos”. Sem sombra de dúvidas esse questionamento não estava acontecendo somente na minha cabeça.

Uma discussão maior sobre a linguagem racista, gordofóbica e misógina em aplicativos de pegação gay também começou, e através dela pude perceber que meu gosto afetivo-sexual também pode ser resultado de mensagens sociais bastante problemáticas. Descrições como “não curto gordos nem afeminados” ou “sem negro ou asiáticos” estão por toda parte nesses aplicativos e plataformas. Felizmente, setores marginalizados da comunidade queer começaram a denunciar esses comentários danosos como atos de discriminação invés de meras preferências. Nisso tudo comecei a refletir sobre meus conflitos internos.

Há mais ou menos um ano me deparei com um texto chamado: 28 Questões Para Negros que só se relacionam com Brancos [já traduzido aqui]. Cada um dessas questões me fez aceitar que as minhas escolhas românticas não eram tão inocentes assim. “Você se sente mais atraente saindo com caras brancos”? “Como você se vê”? Essas perguntas me forçaram a pensar criticamente sobre minhas reais intenções no campo afetivo.

A verdade é que eu sou inseguro sobre minha negritude — que por sua vez é tão doloroso quanto embaraçoso admitir. Como um escritor negro, que escreve sobre raça e cultura, é impossível não sentir um tanto da hipocrisia que isso significa quando me deparo com esse problema nos meus hábitos afetivo-sexuais.

Sendo um homem negro de pele escura eu já me deparei com instâncias sutis e nem tão-sutis de racismo vindo de homens gays brancos. As diversas maneiras pelas quais eles me objetificaram e fetichizaram fizeram com que eu me sentisse como se eu fosse bom apenas para sexo e não para um relacionamento. Cansei de receber mensagens como: “Adoro p*cona preta” ou “Nunca fiquei com um cara negro antes”, e, na direção oposta dos que simplesmente alegam “não curto pretos”, já vi caras brancos dizendo que “não curto caras brancos”.

Das vezes que me relacionei com homens brancos, frequentemente tive a sensação de que era necessário confrontar o quanto antes a questão racial para que pudéssemos estabelecer que eu e meu parceiro tivemos experiências de vida bastante diferentes. Pode ser frustrante, mas é profundamente enriquecedor ensinar a alguém sobre meu contexto cultural. Mas ao passar dos anos noto que cresce em mim a vontade de encontrar alguém que não exija que eu ensine a ter empatia comigo. Cada dia mais me interesso pelo conceito de amor negro — que celebra casais negros e afirma o orgulho negro dentro dos relacionamentos. E, eventualmente, gostaria de viver isso.

Também sinto que, as vezes, meus parceiros brancos estão tentando compensar a própria branquitude. Eles começam falando sobre justiça social, debatem sobre racismo e homofobia quase como se tentassem provar o quão desconstruídos seriam. Esse tipo de situação me faz duvidar de quais os reais interesses deles comigo. Fico constantemente com a impressão de que estão apenas experimentando saber como seria namorar com alguém como eu.  Que o nosso relacionamento os faz se sentirem superiores moralmente diante de outras pessoas brancas, como se isso os tornasse mais evoluídos. Outras vezes acho que isso os faz se sentirem menos culpados por gentrificar nossos bairros.

O meu entendimento sobre relacionamentos está em desenvolvimento, assim como meu conhecimento sobre raça. Eu apenas comecei a me debruçar sobre como a minha sexualidade se relaciona com a minha negritude. Ao longo dessa jornada de auto-descoberta e aceitação, volta e meia penso nos meus tios gays que morreram e penso no quão bom seria se eles pudessem ter me acompanhado nessa trajetória.

Agora que estou ciente do meu padrão, fui obrigado a confrontar meus próprios sentimentos de anti-negritude e racismo internalizado que tanto dificultam a minha disposição para amar homens como eu e a mim mesmo. Esse sentimento de auto-ódio não apenas afetou a minha habilidade de desenvolver relações íntimas com outros homens negros, como também amizades. Minhas inseguranças sobre minha identidade são bastante difíceis de expressar — principalmente através da escrita. E é ainda mais exaustivo ter que dialogar com homens negros que não enxergam o problema e com homens brancos que não entendem também.

Não tenho vergonha de ter namorado apenas homens brancos e imagino que nunca terei. A pessoa com quem eu me relacionar não vai resolver o problema do racismo, mas se eu sou tão consciente quanto gosto de dizer que sou, preciso lidar com sexualidade e negritude influenciam a maneira como me vejo e meus potenciais parceiros. Pretendo ser capaz de esperar pacientemente pelo parceiro que tanto desejo e mereço e recebê-lo da maneira que ele for, mas sei que a vida não é tão simples assim. Talvez eu precise ser solteiro por um bom tempo até que eu tenha um melhor entendimento de mim mesmo — e estou passando a aceitar de que não há problema nenhum nisso também.

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