Perto de completar 30 anos, o primeiro disco de Xuxa, enquanto apresentadora do “Xou” na Rede Globo, revela o momento em que sua carreira como cantora (mesmo sem dote para sê-lo), despontou no cenário musical antenado com o som da época, batendo recordes de venda junto a Roberto Carlos e a banda RPM, revelando ser a estrela máxima na gravadora Somlivre. Um verdadeiro fenômeno.

Xuxa já havia dado passos incertos no mercado fonográfico, desde quando participou do disco coletivo “Clube da Criança” em 1984 pela RCA-Victor. Atuando como convidada por incentivo dos produtores Michael Sullivan e Paulo Massadas, “Lápis de Cor” foi o seu primeiro registro como cantora. Mesmo estando à frente do programa de mesmo título na extinta Rede Manchete, os dirigentes da gravadora não tiveram interesse em obter o seu passe, mesmo sabendo que a televisão era um grande veículo de divulgação para promover as canções. A chance foi dada então no ano seguinte por Roberto Menescal, diretor artístico na Polygram, o que não foi bem compreendido na companhia. Por contenção de gastos, as músicas incluídas no disco “Xuxa e Seus Amigos”, em sua maioria, já existiam nas vozes de Caetano Veloso, Marina Lima e Zizi Possi, sendo todas reaproveitadas a custo zero em duetos “fakes”. A divulgação pouco satisfatória fez com que o disco tivesse baixa repercussão e Xuxa teve seu passe liberado antes mesmo de fazer um ano como contratada na gravadora.

Sua ida para a Rede Globo, aos 23 anos, ocasionou em uma melhora significativa para a sua carreira e lá pôde ter sua imagem melhor trabalhada junto ao público infantil. Dirigido por Marlene Mattos, o programa “Xou da Xuxa” unia elementos lúdicos para o entretenimento infantil com brincadeiras, música e desenhos animados. Logo a necessidade de se gravar um disco se fez presente. O produtor Guto Graça Mello selecionou um repertório que aliou o som techno-pop em voga na década de 80, tornando a audição condizente para o público comprador.

O rock nacional estava a pleno vapor e diversas bandas desfrutavam de enorme prestígio com o estilo: Metrô, Kid Abelha, Sempre Livre e Paralamas do Sucesso. Por este motivo, é possível encontrar na ficha técnica do disco “Xou da Xuxa” tantos músicos e compositores da área: Nico Rezende, Roberto Frejat e Guto Goffi (ambos do Barão Vermelho), Robson Jorge, Sérgio Dias (do Mutantes), Evandro Mesquita (Blitz), Joe Euthanázia, Tavinho Paes, Jamil Joanes, Rita Lee e Roberto de Carvalho. Cercada pelos melhores profissionais, o resultado saiu acima do esperado. Foi na Somlivre que Xuxa cometeu a façanha de emplacar 4 títulos entre os dez discos mais vendidos do Brasil. Só o “Xou” de 1986 vendeu cerca de 2 milhões e meio de cópias, com o Plano Cruzado facilitando a compra do produto nos formatos de vinil e cassete, num tempo em que a pirataria fonográfica não era uma realidade tão nociva.

xuxa_1986_diamante

Pop 80’s – O tema de abertura do programa é ainda uma das canções mais memoráveis do repertório do disco. Composta por Claudio Rabello e Renato Corrêa (integrante dos Golden Boys), a impactante introdução de “Doce Mel” muito remete à hits como “The Final Countdown” do Europe ou “Jump” do Van Halen, pelo contorno rock da faixa, envolta por sintetizadores com solos de guitarra executados por Robson Jorge. A letra serve como um convite aos baixinhos a adentrarem em um mundo em que a fantasia é permitida. Por isso logo se associa a música ao programa. Foi inclusive esta música a primeira a ganhar vídeo-clipe exclusivo para o “Fantástico”, onde a personagem central (uma boneca) ganha vida. Ao descer as escadas de sua nave espacial cor-de-rosa, a contagem regressiva para o começo da brincadeira com saudação matinal em “Amiguinha Xuxa” (Rogério Enoé/Messias Correa). Incentivando as crianças a terem uma alimentação saudável, uma bandeja com muitas frutas e sucos naturais era servida por seu assistente Samuca Ácimo ao som de “Quem Qué Pão” (Tuza/J.Correia). “Turma da Xuxa” (Reinaldo Waisman e Robson Stipancovich) apresenta seus amigos com características distintas em forma de fofoca também foi escolhida para ganhar vídeo-clipe.

Os desenhos animados que alavancam a audiência do programa ganharam temas próprios em território brasileiro. O grupo infantil “Trem da Alegria” (do qual Xuxa era madrinha e sempre fazia participação especial em seus discos) ficou com “He-Man” (Michael Sullivan/Paulo Massadas) e ela com “She-Ra” (Joe Euthanázia/Tavinho Paes), posteriormente resgatada pela banda de rock “Textículos de Mary” em 2002 no álbum “Cheque Girls”, numa versão gay, bem escrachada, rebatizada por “Todinha Sua”.

xoudaxuxa_1987

No fim das contas, tanto o disco quanto o programa foram um sucesso, a ponto da Somlivre se desfazer de todo o seu elenco de artistas para investir tão somente nas trilhas de suas novelas e em sua nova mina de ouro. Um marco para quem estava começando a fazer parte da trilha sonora da infância e do imaginário de milhares de crianças de todo o Brasil.

Um documentário celebrando os 30 anos do disco foi feito pela equipe do “Põe Pra Rodar”.

Comentários

Comentários