Meu último texto tratou da conversa entre Bolsonaro e Ellen Page, e da forma como ela simboliza as relações intergêneros definidas pela sociedade atual: esta que autoriza o homem a tratar a mulher como sua propriedade. Há quem diga que um texto só é escrito quando ele é lido, e isso pôde ser visto nas reações a esse texto. Uma horda se manifestou – mais em forma de ecos do que de ideias, é verdade – no que parecia menos a necessidade urgente de defender Bolsonaro do que atacar uma mulher, no caso, eu.

venusNisso já se confirma que não se tratava de um debate político, mas simplesmente de um ataque regressivo e bárbaro. O propósito das pessoas não era vir expor ideias, mesmo que em discordância comigo, o que é o movimento fundamental de um debate; era confrontar o texto com número, com uma quantidade bastante incomum de frases repetidas. As pessoas não adicionavam ideias novas ou complementares a outras, mas se resumiam a delirar sobre uma suposta tentativa de se manchar a reputação – segundo elas ilibada – do deputado em questão. Em uma democracia, é prerrogativa de qualquer cidadão o questionamento sobre posições e propostas de um político, uma vez que ele é um representante do povo, entendendo-se, portanto, como um dever de cada cidadão acompanhar esses que trabalham em prol de interesses coletivos. Eu, como mulher, me proponho a estar atenta ao que possa atentar contra os direitos das mulheres, e apontar os posicionamentos de Bolsonaro, a meu ver, é parte dessa responsabilidade.

A urgência em poluir nossa caixa de comentários, ao não trazer ideias novas, apenas a multiplicação de ofensas e máximas repetidas, resume-se em ataque. Em um feroz ataque, na verdade, já que os comentários quase chegaram aos 300, compondo a fisionomia da reação, da manifestação reacionária. Todos os símbolos anticulturais, e portanto, antifálicos: mulheres, gays, negros, apátrios, comunistas, etc, são impedidos de se manifestar, porque sua manifestação constitui, por si só, uma afronta à cultura, ao que a história estabeleceu como certo. Quando o anticultural se manifesta, a cultura se vê ameaçada. As reações regressivas à minha crítica a um símbolo fálico só conseguiram comunicar um grunhido que pode ser traduzido como: “não abale a minha segurança protegida pelas instituições estabelecidas”. Bolsonaro não é uma promessa de honestidade na política; ele é a promessa de assegurar à sociedade a garantia de continuar sendo a mesma coisa.

No meio disso tudo, pudemos encontrar também o ataque de mulheres. Suas palavras deixaram evidente a completa ruptura com sua natureza, o matriarcado, a sociedade ancestral gerida por mães. O tempo em que ainda se vivia um sentido de comunidade. As mulheres que aqui apareceram só tinham agressividade a oferecer a outra mulher, numa reprodução grosseira do comportamento fálico e bruto daquele cuja única tarefa no mundo antigo era caçar, cuja única experiência era a morte e o cheiro de sangue. São as mulheres que desaprenderam a ser mulheres. Que, ao serem introduzidas em sociedade, foram mumificadas por uma camada exterior de pedra moldada em forma de homem. São as mulheres que precisam ser ressocializadas, assim como todos os homens precisam. Precisam ler e interpretar Simone de Beauvoir quando diz que não se nasce mulher, torna-se.

Por outro lado, a agressividade também pode ser necessária a qualquer um de nós. Ou, mais propriamente, a virilidade. Não que tenhamos, nós mulheres, que nos transformar em homens, mas, é possível que cada uma de nós precise desenvolver sua dose de reatividade, sua capacidade de ação, em oposição à receptividade exclusivamente exigida ao papel da mulher nas sociedades ancestrais. Talvez, saber mediar os pólos masculino e feminino seja um passo importante na evolução. E aí agora, posso citar um homem revolucionário que soube desenvolver seu lado feminino: “Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás.” (Che Guevara). Fica a lição que aprendi com os ataques do último post: não vou me permitir ser bélica com as minhas irmãs; mas vou derrubar pedra por pedra do homem bárbaro que eventualmente estiver cobrindo a pele delas, como uma autêntica amazona, para que a mulher embalsamada em seu interior possa se tornar a mulher que realmente é. Sem ataques. Cada ideia é uma flecha de amazona, lançada não para ferir o homem que as cobre, mas para libertar a mulher petrificada.

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