Texto original em inglês por Nakia Fire Angelou Brown.

Convivi por seis meses com um cara branco que tinha uma namorada negra. Eles cozinhavam, viajavam e dormiam juntos. Ela temperava os vegetais favoritos dele numa panela de ferro e abria os braços para recebê-lo quando ele chegava em casa. Eles bebiam cerveja alegremente juntos, gargalhavam ouvindo metal e trocavam histórias de viagem. Do lado de fora, tudo parecia um romance feliz e apaixonado. Eles compartilhavam um laço de conexão humana, segredos e noites de carícias. Só havia um único problema com esse conto de fadas pós-Jim Crow [conjunto de leis segregacionaistas dos EUA]: o namorado dela era filiado a uma organização de supremacia branca.

Relacionamentos interraciais comumente são vendidos glamourosamente como liberais e revolucionários. O tipo de envolvimento digno só de quem consegue ver além da cor de pele das pessoas. Mas, diferente do que se pensa, esse tipo de pareamento pode sim envolver racismo. A velha desculpa “Eu não posso ser racista, amo uma pessoa negra” volta e meia é usada para validar comportamentos racistas. Em que partes raça e romance se entrecortam? Sair com uma pessoa negra por anos não cura séculos de ódio. É possível ter amor por um corpo negro sem amar realmente a negritude desse corpo. Nossas crenças e valores nos seguem até a comodidade dos nossos quartos. Contudo, apesar de uma xota preta1 curar muitas coisas, micro-agressões, privilégio branco e supremacia branca são o tipo de coisas que escapam a esse poder.

Quando amamos, abrimos a parte mais sagrada de nós mesmos. Para muitas pessoas negras, esses espaços são repletos de traumas, racismo internalizado e conflitos com o amor-próprio. É impossível alguém amar o meu corpo sem se unir a luta para protegê-lo. A fetichização do corpo de mulheres negras restrige nossos corpos ao plano do meramente erótico. Corpos negros não devem ser vistos como motivo para protesto, ativismo ou luta. As pessoas não desejam proteger nossos corpos tanto quanto demonstram desejar penetrá-los.

Imagine que você está se divertindo em um café com uma pessoa amada e alguém a ataca. Você  a vê sendo brutalmente espancada e sofrendo. O que você faz? Você fica parado(a) e assiste a pessoa que você ama sendo agredida ou parte pro ataque? Talvez você dirá: “Mas isso é diferente! É claro que eu protegeria a pessoa que amo de ataques físicos”. Então o que é embate racial? Não seria um ataque físico contra corpos negros do racismo institucional? Se amamos nossos parceiros como podemos lutar conta quem os odeia?

O embate racial geralmente é invisível. Sendo assim, a importância de tratar desses embates — seja através de ativismo ou auto-cuidado —também é invisível. As vezes, dormir agarrado é como uma pessoa negra sobrevive a uma noite de depressão. Quando dizemos que #VidasNegrasTêmValor costuma ser para reconhecer uma vida já perdida. Para nos lembrar da vida após a morte. #VidasNegrasTêmValor é como falamos sobre nossos mortos, mas e os vivos? Para nós o amor não é casual. É um contra-ataque. É como, apesar da opressão sistêmica, dizemos: hoje eu não vou morrer! O amor nos ajuda a continuar vivos e viver é uma poderosa ferramenta política.

Se queremos nos relacionar afetivo-sexualmente com alguém de um grupo oprimido é nosso dever compreender a sua dor. Foi através da dor que eles aprenderam a viver e a amar. Se escolhemos ignorar essa luta jamais entenderemos suas ações, sua cultura, sua língua e o que os torna quem são. Conjugar-se com um corpo negro não significa que você sabe como é viver sob nossa pele e nem tampouco que você se esforça para manter a vida dentro dele.

O silêncio é uma postura política. O amor também.

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