Sem ironia, deve ser difícil ser um “boy padrão” hoje em dia. Não que alguma coisa tenha mudado nos modelos estéticos estampados nas capas de revista ou que o tsunami de curtidas e seguidores nas redes sociais esteja menor, mas definitivamente há algo de diferente. Aqui e ali, algumas pessoas chamam a beleza de “privilégio” e essa galerinha militante – especialmente no movimento LGBT – parece achar que cor de pele ou masculinidade salvam alguém da homofobia. É, não está sendo fácil mesmo!

DandoPintaSloganJuro que não estou sendo irônico. Entendo que para quem nunca pensou – ou nunca foi forçado a pensar – sobre essas questões, exista esse estranhamento. Todo mundo tem suas dificuldades na vida e quando se é gay, independente de padrões, o preconceito é um problema concreto. De certa forma, é o que nos une com as lésbicas, os bissexuais e as pessoas transvestigêneres. A violência da intolerância transforma qualquer LGBT em alvo, o que é motivo mais do que suficiente para a união política das diversas sexualidades e identidades, só que não apaga as diferenças entre nós.

Não existe preconceito contra padrão porque – tcharam! – o padrão é padrão. Essa é uma impossibilidade essencial. A norma só é possível pela definição daquilo que é considerado como “desviante”, então estar dentro de algum padrão aceito é estar em posição privilegiada em relação a quem está de fora. E isso é um fato social, não é concurso de miséria, “vitimismo”, mimimi, recalque, disputa, separação… Nada disso. É apenas uma análise óbvia de como operam as lógicas sociais de exclusão, elegendo “bons” e “maus”, “bonitos” e “feios”, “certos” e “errados”, “normais” e “anormais”, heterossexuais e o resto.

Ah, mas hoje em dia tem bicha afeminada excluindo boy masculinizado e chamando de “heteronormativo”; negro dizendo que branco faz branquice, mulher dizendo que homem faz “omice”. E daí? Onde isso está acontecendo? Em meia dúzia de grupos do Facebook? Por acaso algum homem branco com jeito de macho está SOFRENDO algum ataque na rua? Algum magro está sequer sendo preterido em relação a um gordo no Grindr? Não, né? Todo mundo sabe que não. Eu juro que entendo quando alguém que nunca pensou sobre essas coisas acha estranho ter seus privilégios apontados e reconheço que em certas discussões tem gente que é grosseira ou não está disposta a ser sempre didática. Rede social é isso mesmo, uma grande arena de discussão onde entra gente de todas as idades e com todo tipo de formação, em estágios particulares de suas jornadas políticas e sociais. É bem verdade que as informações sobre o que é bem aceito ou não estão ao alcance de qualquer um, até porque na internet dá para estudar qualquer coisa, mas também entendo que algumas pessoas cheguem “verdes” e com boa vontade e sintam-se assustadas com o que enxergam como raiva ou violência. Algumas vezes, é mesmo. Afinal, se estamos falando de grupos que são violentados diariamente, nada mais justo do que os sentimentos negativos saírem sem pedir licença.

Mas por favor, não duvidem da nossa inteligência!

Tudo bem pedir calma, querer aprender, etc. Movimento político é isso aí, é debate, é repensar estratégias, é conquistar apoio. O que não dá é para alguém que é “padrão” fingir que não enxerga isso e tentar fazer malabarismo argumentativo para chamar os militantes de opressores! E falo isso do meu lugar, que é privilegiado em relação a muitas pessoas e oprimido por tantas outras. Sou um homem cisgênero branco, magro, frequentemente barbado, com curso superior, que “fala e escreve bem” e é considerado relativamente bonito. Isso não impede que eu seja chamado de viadinho na rua, que tentem desqualificar o meu trabalho por causa da minha homossexualidade, que ela seja usada como justificativa para me fechar portas, que eu não tenha medo de sofrer agressões físicas ou sexuais por ser quem sou. É uma barra super pesada sim. Só que não é nem de longe o que enfrentam as minhas amigas transexuais ou mesmo os meus amigos negros. E de novo, não é fazer concurso de miséria não. É simplesmente atestar o óbvio. É não ser estúpido ou maldoso a ponto de ignorar que uma coisa não exclui a outra e que alguns indivíduos podem cruzar várias dessas marcas de estigma e precisar lidar com coisas que eu não enfrentarei.

E outra, muitas vezes ninguém nem está com raiva de nada, até porque esse tipo de postura nem surpreende mais. Estamos rindo, trocando memes, escutando música E AO MESMO TEMPO apontando discursos problemáticos, pensando sobre tópicos expostos, concordando ou discordando de alguém dentro de um grupo, aproveitando o botão curtir para dar uma paquerada de leve, sei lá. Então vamos nos unir sim, lutar juntinhos contra os LGBTfóbicos que sem dúvida são nossos piores inimigos, mas sem deixar de olhar para o nosso próprio rabo. Paz e amor, mas sem negar o racismo, a transfobia, e a valorização irrefletida de valores estéticos excludentes. Okay, guys?

CONTRA PADRÃO, NÃO HÁ OPRESSÃO!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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