Não faz muito tempo, eu era questionado com frases do tipo “Lúcio, quando você vai casar?”. ou ” você precisa arrumar uma namorada” ou coisas do tipo… Isso me esmagava! Assisti meus amigo(a)s casarem e terem filhos e pensava: “isso nunca vai acontecer comigo.”

Não olhava as pessoas diretamente nos olhos…
Tinha quase 30 e nunca tinha beijado na boca.

Minha desculpa era a timidez, mas o buraco era muito mais embaixo.
Achava que nunca iria beijar ninguém, que não saberia.Tinha um medo enorme disso.

Ia pra igreja e recebi o apelido (dado pelo pastor) de “tá fundo, tá raso” (tenho uma perna menor que a outra).Mas não me importava, minhas orações giravam em torno de me livrar da homossexualidade.
Ninguém parecia me achar bonito, ao contrário, eu era aquele cara feio mas cheio de “virtudes”, aquele “respeito” que sacraliza e ao mesmo tempo distancia ( uma espécie de cultura da evitação). Não podia falar abertamente o que sentia, o(a)s amigo(a)s foram todos “aceitando a jesus também.

Era o último a dormir lá em casa. Frequentemente tinha pesadelos onde era humilhado por amigos e parentes. Onde misturavam-se nudez e templo, gozo e condenação.

Culpava-me cada vez que desejava alguém, cada pensamento… toda vez que me masturbava sentia como se fosse espionado. De vez em quando rolava uma daquelas pregações a respeito dessas coisas, era horrível…
Eu andava por ai, até minhas pernas doerem, indo pra lugar nenhum, com a cabeça cheia de pensamentos opressores e muitas vezes chorando.

Vivia assim, mas para os meus amigos, eu era só alguém que não ligava “pra essas coisas”.

Poucas vezes perguntavam sobre a minha vida intima e quando faziam… eu mentia.

Raramente saia mas quando acontecia, isso já nos primeiros semestres da faculdade, eu pensava: “todo mundo aqui é hétero (apesar e não serem)” ou “ele não vai querer ficar comigo” ou ” ele é bonito de mais para mim” ou “eu nunca beijei, não vou saber beijar, etc, etc.
Quando se leva uma vida assim, fica muito difícil falar de empoderamento.E você  pensa nessas coisas o tempo todo… fato.E não é futilidade saca?É complicado.

Consumia (escondido) filmes LGBT em que o temática versava entre o drama de ter de se assumir e enredos românticos em que no final 2 homossexuais brancos se beijavam e eram felizes para sempre  ou não… no melhor estilo Romeu e Julieta. rsrs

Não ajudava muito. Na vida real a gente lida com os padrões sociais na nossa cabeças e na dos outros.Racismos, capacitismos, exotificaões, hipersexualização…Com “relações afetivas que parecem seguir uma lógica de mercado, isso é, maior benefício com menor(ou nenhum) custo.Estamos comprometidos de mais com a possibilidade de uma nova oferta, então… deixemos as coisas eternamente em aberto.

Não estou aqui falando de títulos, monogamia ou de posse mas da qualidade das relações.Tenho me perguntado até que ponto uma pessoa negra realmente pode se beneficiar dessa fluidez toda.O quanto isso pode ajudar a comunidade como um todo.Principalmente quando muitos de nós passou e ainda passa por processos tão violentos de negação das nossas afetividades. E isso a várias gerações,  desde o processo de diáspora…

Quem de nós nunca se sentiu sozinho no rolê ou que é difícil estabelecer contatos e interesses que durem mais de 2 semanas…

Nesse intuito de tentar ser alguém para outro alguém, as vezes a gente revive situações de auto- punição, vergonha dos próprios sentimentos… repressão… pode ser bem doloroso… não há garantias de nada!

Acho que muito do que tenho feito de uns 3 anos pra cá vai no sentido de sair desse lugar e não é nada fácil.Não é fácil porque, não depende só da sua atitude pessoal.De fato existe esse lugar social para nós, o lugar da culpa, da baixa autoestima, “bolhas de solidão” em meio a possibilidades propagandeadas, as migalhas oferecidas e a expectativas frustradas.

Escrevi, porque sei que não dá pra pegar uma vivencia e generalizar mas… o oposto também é verdadeiro… não dá pra pensar que sou ou fui o único(a) a passar por esses processos.Então saiba, você não está só.

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