Sala de reuniões da maior fabricante de brinquedos do mundo. Na pauta em discussão, as estratégias de marketing para o lançamento dos produtos de um dos filmes mais aguardados do próximo verão americano. O filme é de uma heroína, ícone feminista e maior personagem feminina da indústria de quadrinhos. É um blockbuster de herói, com muita ação e cenário de guerra. Espadas, tiros… e uma mulher no centro de tudo. Entre bonecas e figuras de ação, como fazer alguma coisa com saia e cabelo que não seja rejeitada pelos pais de meninos ou vender arco e flecha para meninas? Tudo isso, claro, sem correr o risco de polêmicas e publicidade negativa sobre o machismo na indústria? Oh, drama!

DandoPintaSloganNessa semana foram reveladas as primeiras imagens da nova linha de bonecas da Mulher Maravilha, baseada no filme estrelado por Gal Gadot que terá sua estreia mundial em Junho. As bonecas são da Mattel, que fabrica a Barbie, e por isso elas tem sido chamadas de “Barbies da Mulher Maravilha”. O que acontece é que Barbie não é um tipo de brinquedo e sim uma marca. Essas bonecas, embora possam lembrar e tenham praticamente o mesmo tamanho (são pouco menores, na verdade), NÃO terão a marca BARBIE estampada em suas embalagens. Aliás, as Barbies desse filme ainda serão anunciadas pela empresa (pelo menos três, segundo soube). E o parágrafo de introdução desse texto dá uma ideia do porquê.

Quem me acompanha sabe da minha ligação com esse assunto, é a quarta vez em que ele é abordado na coluna. Basta ler a minha descrição no site para saber que eu vou comprar qualquer coisa desse filme independente do nome, mas o que quero discutir é o potencial desses brinquedos em relação à verdadeira “Ideologia de Gênero”. Não, não estou falando do ataque sensacionalista ao debate queer, mas sim das normas sociais que postulam que algumas coisas são femininas ou masculinas, “de menino” e “de menina”. Regras que PRODUZEM essas supostas verdades e, obviamente, os problemas enfrentados por quem não está encaixado nelas.

A divisão de brinquedos por gênero é anterior à criação da Barbie, mas a história dela como ícone é questão de timing. Lançada em 1959, ela foi pioneira em comerciais veiculados na TV, às portas da década em que essa forma de entretenimento começaria a dominar o mundo. Assim, a Barbie foi transformada na primeira imagem associada à palavra “doll” (boneca), e ainda que existissem bonecos sem um público alvo definido ou especificamente para meninos, o machismo passou a condenar meninos que brincassem com dolls. Foi então que a HASBRO – empresa que hoje tem a licença para fabricar os brinquedos Disney/Marvel e que, portanto, é culpada pelas bonecas horrorosas de A Bela e a Fera – criou o G.I.Joe como uma resposta à Barbie. E mais, precisou pensar em um jeito de chamar aquele boneco de mesmo tamanho e com roupinhas de tecido (e tema militar) que o distanciasse da “Casa dos Sonhos”. Assim, nasceu o termo action figure, que define as figuras de ação hoje colecionadas em versões luxuosas na cultura Nerd/Geek e que também continuam a ser produzidas para o mercado infantil.

Quando foram lançadas as bonecas da She-Ra, nos anos 1980, a imprensa noticiou que os lojistas não sabiam onde colocar os produtos, se no departamento de meninas porque elas tinham cabelo para pentear ou no de meninos porque ela é uma guerreira irmã do He-Man. Que desespero, não? Imagina só que horror se um menino tem que procurar alguma coisa no corredor rosa! Vai que ele fica preso lá pra sempre em alguma dimensão muito louca de purpurina e pôneis, sei lá! Uma história inesquecível para mim aconteceu nas Lojas Americanas, quando ouvi um pai dizer para o filho que compraria todos os bonecos dos Power Rangers menos as rangers amarelo e rosa por serem – tcharam – bonecas. E olha que era tudo da mesma linha, não tinha nenhum pterodáctilo rosa de paetê não! Triste.

Atualmente, a voz das redes sociais em assuntos como feminismo, LGBTfobia e racismo influenciam  decisões de marketing, então ninguém quer enfrentar certas polêmicas. Lembram quando os produtos de Os Vingadores não mostravam a Viúva Negra? Cês sabem, aquela mina ruiva que está nos filmes desde Homem de Ferro 2 e nunca teve nada solo, uma que foi chamada de vadia pelos atores que interpretam seus amigos. Teve também aquela vez em que a Rey, que era apenas a protagonista do filme, ficou fora do merchandising do último Star Wars, estão lembrados? Então, amiguinhos, como empresas só são legais para ganhar (ou evitar perder) dinheiro, imaginem a pressão em cima dos responsáveis por vender qualquer coisa da Mulher Maravilha!

Quem vai ganhar essa parada? Uma deusa guerreira ou o Patriarcado que ela foi criada para combater? Infelizmente, não vai ser agora que meia dúzia de brinquedos vão acabar com o machismo. Entretanto, a Mulher Maravilha escolheu ficar no mundo dos homens para lutar por igualdade e agora essa mensagem terá mais exposição do que nunca. Além dos brinquedos, ela estará em cadernos, mochilas, jogos, revistas e brindes de lanchonete. E apesar de alguns pais que ainda insistirão no erro, certamente muitos outros conseguirão entender que a felicidade de seus filhos não tem gênero. Se esses brinquedos não mudarem nada, pelo menos darão o que falar.

Um dia, talvez, bolas, bonecas e carrinhos deixem de ser vistos como ameaças à norma e possam ser apenas aquilo que são: brinquedos. Até a Barbie!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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