O dia internacional da mulher simboliza o reconhecimento da importância em se dissolverem as diferenças socialmente construídas entre os gêneros. Esse reconhecimento é o que impulsiona a história do feminismo, que está diretamente relacionado à história da luta de classes. No entanto, e ironicamente, a origem do dia internacional da mulher tem sido atribuída pelos movimentos feministas a uma história fictícia que encobre o papel marcante de mulheres militantes fundamentais para a história do feminismo.

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O feminismo é uma das correntes que se opõem à ordem legitimada, e essa oposição inclui estar-se sempre vigilante sobre a história que essa ordem conta. No caso do dia internacional da mulher, o que se vem transmitindo é que a data foi escolhida como marco por conta de uma suposta greve de operárias de uma fábrica em Nova Iorque, em 1857, que teria sido reprimida por um incêndio criminoso, planejado pelo próprio dono da fábrica, em que as operárias em greve teriam morrido. Essa versão se disseminou no ocidente, durante a Guerra Fria, entre os movimentos feministas americanos, e se estabeleceu sem que os dados históricos fossem averiguados, gerando uma versão mitológica a respeito do dia da mulher.

Mas, a professora Naumi Vasconcelos descobriu, através de uma pesquisa que durou 12 anos (para saber mais leia aqui), que essa greve nunca aconteceu e que, na verdade, a versão oficial não passa de uma confusão de datas e eventos. A principal fonte de estudo de Naumi Vasconcelos é o livro de Renée Cote, O dia internacional da mulher: os verdadeiros fatos e datas das misteriosas origens do 8 de março, de 1984, que desmistifica a origem da data. Na verdade, o dia da mulher que nasce em Nova Iorque foi criado em 1910, pelo Partido Socialista Americano, e marcado no último domingo de fevereiro. As mulheres operárias foram conclamadas pelo partido e entraram em greve, mas ninguém morreu em um incêndio. Já a greve promovida por tecelãs no dia 8 de março aconteceu no ano de 1917, na Rússia, e também não vitimou ninguém.

A greve das tecelãs russas foi um movimento espontâneo de operárias que contrariaram a decisão do Partido Comunista, pressionado pelo Czar, a não fazer greve, e saem às ruas exigindo melhores condições de trabalho e ajudando a desencadear a Revolução Bolchevique. Se lermos a versão oficial sobre a origem do dia da mulher como um conto de fadas, a lição que tiramos da história é que a mulher que se levanta contra o mundo que a cerceia será sempre combatida pelo fogo, numa repetição histórica constante, indo das fogueiras da Inquisição cristã ao incêndio burguês. No entanto, a leitura da História cientificamente averiguável nos prova que, na verdade, a mulher é auto-inflamável, que ela tem potência criadora suficiente para se manter firme e incendiar o mundo. Sua atuação política – na qual se inclui a atuação intelectual, como a de Naumi Vasconcelos e Renée Cote, num exemplo claro de práxis – não a condenará à morte, mas à pavimentação dos caminhos da Revolução. Portanto, que hoje seja o dia da vitória da mulher e não do seu mito.

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