Apesar de ter minhas reticências sobre a importância dada a premiações tradicionalmente racistas brancas como o Oscar e o Grammy, confesso que fiquei bastante feliz com o prêmio de melhor filme, assim como não me surpreendi com a esnobada que a academia deu à magistral performance do Denzel. Mesmo assim, acho difícil não perceber como positiva a vitória de uma produção negra onde as personagens não estão subservientes a “senhores” e “senhoras” brancos e nem tampouco dependem da caridade destes para algum tipo de salvação ou superação. Afinal, não é todo dia em que uma narrativa focada na vida afetiva de um protagonista não-hétero, homem e preto ganha destaque, quanto mais reconhecimento. Talvez seja por isso que em alguns dos comentários ao filme não souberam lidar com a multiplicidade das questões levantadas por ele acabaram recortando tanto a trajetória da maneira mais conveniente. [Contém Spoilers] 

“O que é uma bixa?”

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Se alguém me perguntasse aos 9 anos o que seria um “viadinho” muito provavelmente eu ficaria sem graça e evitaria responder. Nem que pra isso tivesse que sair correndo. Todas as informações que recebia nesse sentido eram bastante imprecisas. “Viados” seriam meninos que não gostam de jogar bola, que têm nojo de barata e não evitam “coisas de menina” – tal qual “sentimentos”, combinar roupa e pensar no futuro – como eu? Brincar de bonecas (e bonecos) não me fazia uma “quase mulher”, o legal era imaginar situações, encenar coisas que via nas novelas e saber como era ter cabelo liso. Contudo, ainda que eu não compreendesse muito bem como preferir qualquer outra brincadeira a futebol me transformava automaticamente em “menininha”, nunca tive dúvidas de que essa era uma categoria na qual eu não gostaria de ser associado. Minha irmã não era fã de brincar de Barbie e nem por isso achavam que ela era menos menina por isso.

Ainda que nunca nem tenha presenciado nada do tipo durante minha infância, foi difícil não me identificar quando o Pequeno (Chiron) entra em cena sendo perseguido por “coleguinhas” afoitos em “ensinar uma lição a esse viadinho”. O medo de ser taxado com um rótulo vocalizado com tanto nojo/reprimenda pode até ser uma constante pra qualquer garoto nessa fase, mas certamente esse terror é pior para alguns mais do que para outros. Contudo, a incessante suspeita de encarnar algo tão abominável que ninguém sequer explica direito o que significa não paralisa todo “boiolinha” da mesma forma. Muitos carregam pro resto da vida a angústia de ter de se policiar em seus gestos e modos de expressar para que seu “jeitinho” não corrobore com o escárnio ou suspeita dos outros. Ainda que meninos negros já tenham ainda mais motivos para acreditar que expressar-se livremente não é uma boa ideia, o silêncio do protagonista demonstra como esse tipo de perseguição engessa, isola e emudece.

“Que tipo de cara sai por aí apelidando outros caras”

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Se durante a infância o desafio era permanecer mais associado ao masculino que ao feminino – embora nenhum desses extremos seja lá muito reconfortante –, com a chegada da puberdade a coisa se complica. Reprimir sensações e reações (físicas e emocionais) totalmente novas, intensas e raramente voluntárias, enquanto seus hormônios transformam todo o seu corpo, requer sacrifício. Surge então o dilema: enganar a si e aos outros ou apenas si mesmo na torcida/oração para que essa “fase” evapore? De certo essas não são as únicas possibilidades, mas quando assumir-se exigir aceitação tem um custo muito alto, essas são as mais óbvias e recorrentes.

Nesse sentido, a contraposição do Chiron com seu crush, Kevin, orna muito o conflito. De um lado acompanhamos a trajetória de quem se fechou em si mesmo diante de uma realidade hostil a qualquer lapso de singularidade, e do outro somos apresentados a um rapaz charmoso e sorridente disposto a mentir e até ferir uma pessoa de quem gosta para manter o pouco respeito conquistado entre seus iguais, munidos de um pênis, por atender bem às expectativas sociais implicadas em possuir um pênis – sendo que respeito só foi ofertado ao nosso protagonista pelos estranhos que o adotaram. Ainda que o foco do filme seja o custo de se privar de tudo em busca desse apreço, Kevin, ao final da narrativa nos mostra que ceder ao arbitrário roteiro da masculinidade não é uma opção tão melhor assim.

“Eu sou eu. Não tô tentando ser nada além disso”

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Talvez a parte mais dolorosa do desfecho do segundo ato é perceber que a rebelião contra a heteronormatividade de Chiron recebe a punição tradicionalmente dirigida a qualquer homem negro que transgride qualquer norma social: o encarceramento  o lugar ideal para pessoas que ocupam mais o lugar de ameaça do que o de objeto de afeição nas sociedades americanas. O retiro ideal para garotos que resolvem endurecer de vez. O habitat perfeito para quem sempre viveu – e terá que viver –  em modo de sobrivência.

Há algo de familiar em perceber como aquele pequeno garoto – percebido como delicado –  acaba encontrando um escudo no engrossar da voz para, então, materializar aquilo que se idealiza para todo homem negro desde a escravização: um físico de tirar o chapéu diretamente proporcional à fragilidade de seu senso de autovalor e de poucas palavras. Há algo de fascinante em notar como ele acabou reproduzindo a mesma fortaleza que murava Juan, seu grande referencial masculino –  que por sua vez morre para o choque de ninguém.

Confesso que por isso que me decepcionei com o final do filme da primeira vez que assisti. Como um Preto daqueles pode ser celibatário se todas as referências culturais nos levam a acreditar que seu corpo foi “feito para o sexo”?! Porém, após muito refletir, acabei abrindo mão do meu gran finale customizado – no qual o brutamonte chocaria o senso comum ao ca-val-gar no cafajeste arrependido. Acabei entendendo que não seria condizente com o Chiron se permitir qualquer momento de vulnerabilidade depois de todo seu empenho em se tornar inabalável, indecifrável e impenetrável. Tanto no campo afetivo quanto no carnal. Embora a fragilidade esteja ali exposta e pungente. Basta desviar das categorias pré-prontas.

Há algo de inusitado quando, ao subir dos créditos, nos deparamos com a ruptura do estigma da hipermasculinidade negra –  ou seria bestialidade? –  pela revelação de que Chiron esperou tanto tempo por uma segunda demonstração de afeto. Há algo de maravilhoso quando se percebe que o que apontam como gay no filme não é exatamente o ato sexual, mas sim o desejo, sua aceitação –  individual e social –, a busca por afeto num contexto opressor e a relação conflituosa com a normatividade de gênero. Entretanto há algo de sublime em notar como a recuperação daquela mãe, dada como perdida, é o que o faz ter esperança de que seu coração não precisa ser como o dela. Até porque quando dois homens que são mais facilmente lidos como quadrilha passam a se relacionar sexo-afetivamente, os obstáculos e dinâmicas  apenas se reconfiguram.


Sugestão de leitura:

De Moonlight e a solidão do homem escuro, de Fábio Kabral

Moonlight: a masculinidade que lançam sobre nós, da página Preto Gay

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