Perto de completar 30 anos de sua estréia no canal SBT com o programa Show Maravilha , a coluna Nossa Senhora do Comeback revisita o primeiro disco da apresentadora baiana Mara lançado pela EMI-Odeon no segundo semestre de 1987, momento em que a concorrente Xuxa Meneghel despontava com o seu Xou na Rede Globo e a axé music disputava espaço com o rock nacional e a MPB nas FM’s de todo o país.

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Foi na TV Itapoan (Salvador – Bahia) que Mara deu seus primeiros passos para uma bem sucedida carreira artística. Descoberta no programa O Parquinho apresentado por Tia Arilma (Mara ganhou em primeiro lugar um concurso musical dublando “Quem é ele” da cantora Miss Lene), logo conquistou a vaga de “estrelinha”, como eram chamadas as assistentes de palco do programa. Com a saída de Arilma, Mara acabou assumindo o comando. Na mesma emissora, também acabou apresentando o Domingo Show-Criança, Vídeo-Jovem e o Clube do Mickey. A curiosidade é que Ivete Sangalo chegou a participar de uma das brincadeiras deste programa, bem antes da fama quando criança, dublando a música On My Own de Nikka Costa. Por sua vez, este programa atraiu a atenção de Silvio Santos (a TV Itapoan era afiliada do SBT), a ponto de se lembrar dela em sua passagem no programa “Vamos Nessa” na TVS (antiga SBT) em São Paulo, enquanto se apresentava. Até então ela só havia lançado 3 compactos pela EMI-Odeon, sem grande repercussão. Suas músicas alternavam entre o pop-rock e o romântico. A guinada se deu quando Silvio Santos lhe ofereceu um programa só seu: O Show Maravilha, focado no público infantil. Entusiasmado com o sucesso de Xuxa na Rede Globo, Silvio acreditava que a baiana daria conta do recado, já que a experiência com crianças ela já tinha de sobra. Mara estava prestes, então, a lançar um disco intitulado Simplesmente Mara, mas as canções eram adultas demais. Eis que um novo repertório foi preparado para a ser a trilha sonora do programa, que entraria no ar no dia 4 de Abril de 1987. Foi inclusive o seu patrão quem teve a ideia de rebatizá-la de “Mara Maravilha”.

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O disco 

O álbum MaraVilha foi produzido por Guti Carvalho, já conhecido por trabalhar com artistas como Baby do Brasil, Pepeu Gomes e A Cor do Som. Não foi à toa que todos estes compareceram no disco atuando como músicos e compositores. O tema de abertura, Maravilha (Renato Barbosa) já estava em rotação na telinha com uma versão alternativa e marcava sua entrada no palco a bordo de um trem. Outra canção que ficou bastante famosa, chegando a ganhar até vídeo-clipe foi a frenética Vem brincar comigo  (Renato Correa/Alceu Maia) com imagens da Mara se divertindo com crianças na antiga Playland, em São Paulo.

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O disco passeia por estilos bem diversificados. A divertida Deu a louca nos bichos (Alex Solnik/Sérgio Mello) é um xote onde animais invertem seus papéis com jargões populares e que conta com a participação de Oswaldinho no acordeon. A apresentadora também teve a oportunidade de estrear e se destacar como compositora, dividindo autorias como visto em Chocrível  e na salsa Amigo É, com o ex-menudo Roy Roselló, seu namorado na época, que valoriza as vantagens de se ter alguém com quem possa dividir bons momentos. A mãe, Marileide Félix, também contribuiu em Beijoca Açucarada. É perceptível que com a onda do deboche deflagrada por Luiz Caldas e Sarajane em período pré-axé (vide as canções Fricote e A Roda) , esta influência viria a comparecer no disco. Apesar de nunca ser considerada como tal, Mara, se quisesse, poderia brigar pelo título de precursora do gênero tipicamente baiano. Afinal, antes das representantes atuais virem assumir esta frente na década de 90, Mara já estava aderindo ao som em suas gravações prévias, a exemplo de Quero Mais é Debochar  (Geo Benjamin) de 1986.  Os acordes do Axé e do samba-reggae serviriam de inspiração em trabalhos posteriores, como visto em Bomba de Chocolate (Gerônimo/Vevé Calazans/Dito)  ou Merengue Comigo (Carlos Pita) , mostrando que a animadora soube aproveitar bem o ritmo que se espalhara pelos quatro cantos do país nos anos 80.

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A pop-rock Bola de Cristal  (Guilherme Maia/Fernando Moura/Fred Góes)  foi feita sob encomenda como ponto de encontro com os telespectadores e firmou parceria com sua musa inspiradora, Baby Consuelo, com quem dividiu os vocais. Mara em diversos momentos revelou que Baby era a sua maior referência como artista, por sua ousadia e extravagância. Este primeiro registro se desdobraria em colaborações futuras. Pepeu Gomes também marcou presença fazendo solos de guitarra. Rock da Mamãe (Armandinho/Maria Vasco) – mostra uma filha preocupada com o comportamento nada convencional daquela que a gerou. Não querendo assumir compromissos e responsabilidades maternas impostas socialmente, essa mãe da ‘pá-virada’ veste mini-saia, frequenta boates, passeia de moto, sai para paquerar e não dá bola para os reclames da filha, que preocupada com sua reputação canta: “Se faz de desentendida/Diz que tá reprimida/Quando vou reclamar“. Mara se volta ao som do carnaval de rua no galope – gênero calcado na Paraíba – em Chuva de Estrelas, de Carlos Pitta. A letra é bem pueril, com citação ao palhaço Abelardo Pinto, mais conhecido como Piolin, falecido em 1973. As onomatopeias la la la/iô iô iô, muito frequentes em marchinhas tradicionais, atrai e facilita o aprendizado rápido dos pequenos foliões. Ainda teve tempo de fechar a audição com Hoje é Seu Dia (Armandinho/Fred Góes) , parabenizando os aniversariantes por mais um ano de vida.

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Como era de se esperar, tanto o disco quanto o programa fizeram bastante sucesso. Não dividiu opiniões e nem criou rixas entre suas concorrentes. Havia espaço para todas e Mara acabou por conquistar o seu. Com MaraVilha, a baiana recebeu o seu primeiro certificado de ouro. Foi apenas o começo de uma longa e frutífera trajetória.

Relembre aqui o tema de abertura do programa:

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