Do jeito que a coisa anda, daqui a pouco vão querer eleger a Luciana Genro como porta-voz do movimento negro brasileiro. Acho muito legal que atualmente tanta gente tenha perdido o medo e a vergonha de reconhecer a própria negritude, mas precisamos falar sobre #Afroconveniência. Precisamos falar dessas pessoas lida como brancas (e não pessoas negras de pele clara), mas que, convenientemente no período pós-cotas e Batekoo, querem assumir uma negritude que ninguém mais vê. Contudo, primeiro temos que pontuar algumas coisas…

No último mês algumas pessoas que sempre li como brancas e que, até por boa parte de suas vidas, sempre se leram como tal vieram me sondar pra avaliar a negritude delas. Sempre fugi dessa coisa de servir de negrômetro. Geralmente me atenho a compartilhar textos sobre pessoas miscigenadas que passaram por um processo de autoafirmação para dialogar sobre depois, mas essas últimas pessoas forçaram tanto a barra que me sinto na obrigação compartilhar um segredo: pessoas brancas podem sofrer (reflexos do) racismo, não por serem brancas porque a norma não sofre por ser norma, mas sim, é possível.

Racismo territorial/social

Quando uma pessoa branca é criada num território negro (favela/periferia/quilombo/à margem) ela terá vivências e experiências muito parecidas com as de pessoas negras, mas isso não as torna negras. Pelo que tenho percebido tem muita gente de origem periférica, por ser tratada como tal por pessoas brancas mais elitizadas, acaba se identificando mais com experiências de uma coletividade negra e confundido alhos com bugalhos. Não é porque você não se identifica com a branquitude-padrão-PUC que você se torna uma pessoa negra. Delimitar pobreza e marginalização à negritude é racista à vera, logo misturar uma identidade marginal com identidade negra revela bastante o seu racismo incutido. Tenhamos em mente que se uma maioria dos pobres é negra é justamente porque essa parcela da população foi abortada pelo estado brasileiro no pós-abolição. Ser uma pessoa negra e pobre é estar de acordo com os propósitos de uma sociedade racista e precarizadora da mão de obra, enquanto que ser uma pessoa branca nas mesmas condições é apenas um infortúnio. Uma falha no sistema.

Racismo cultural

Uma pessoa branca que se identifica com o candomblé, o rap, o samba ou outra manifestação cultural negra pode sofrer respingos do racismo devido a seu gosto “peculiar”, mas de forma nenhuma ela deixará de ser branca por isso. A cultura é negra porque foi criada por (e muitas vezes para) pessoas negras. Considerar-se negro(a) por consumir cultura negra é como eu me considerar japonês por comer sushi, ler mangá e assistir anime. Se por aqui as pessoas não entendem o quão ridículo esse tipo de afirmação é, é porque no Brasil tudo que foi produzido por pessoas negras sempre foi propriedade de todos e nunca algo restrito. Como já disse anteriormente: “a pedra continua portuguesa, mas o afoxé cantado em iorubá é patrimônio brasileiro“.

Racismo familiar

Diferente do contexto estadunidense, no Brasil a Mariah Carey seria lida como branca e ponto. Se brasileira fosse poderia ser até a “nova loira do Tchan” enquanto que a Beyoncé não. Mariah poderia até sofrer colateralmente o peso econômico e social de ter antepassados ou cônjuges negros, mas quando a pessoa precisa dizer meu avô/minha bisa/meu irmão/etc. é negro, ela está reconhecendo que ela não é lida como tal. E como ninguém anda com a árvore genealógica estampada na testa ninguém é obrigado(a) a enxergar algo que a nossa cultura nos ensina a renegar. Portanto, se as pessoas não te leem como negra, não te sintas ofendida porque quando eu sou lido como negro isso significa ser lido como um ser humano de segunda classe. Isso quando não me animalizam e/ou objetificam logo de cara. Então paremos de graça e aceita ser uma pessoa lida branca numa sociedade racista jamais pode ser interpretado como algo desagradável para alguém que carrega o estigma na pele. Sem “livres interpretações”.

Racismo estético

Outra coisa que causa muita confusão é a ideia de que ter cabelo não-liso automaticamente significa ser uma pessoa negra. Além de mostrar o quão recorrente o ideal de pureza ariana é na nossa sociedade, esse “fenômeno” nos faz perceber que o ensino de história no Brasil é tão falho que muitos esquecem até que nem mesmo os nossos colonizadores portugueses atendiam aos ideias nazistas de brancura.

Já disse milhares de vezes, mas cabelo liso não torna ninguém branco. Existem vários povos negros, sem miscigenação nenhuma, que tem as madeixas naturalmente lisas e até mesmo loiras. E isso deveria ser algo lógico visto que os primeiros seres humanos nasceram no continente africano. Ou seja, que todos os traços físicos têm a mesma origem, apesar das mutações terem se acumulado em pontos geográficos específicos. Da mesma forma, cabelo crespo/cacheado não torna ninguém negro. Nos EUA existe um termo para brancos com black natural: Jewfro. Algo traduzível como “black judeu” devido a forte presença da mídia de exemplos midiáticos de pessoas de origem judia com jubas por lá, mas pasmem: não precisa ser judeu pra ter. Árabes e anjos renascentistas costumam ser representados com “cachinhos” pra lá de europeus. O sexo dos anjos pode até ser debatível, mas a brancura renascentista sempre foi inegável.

Africanos não saíram do continente-mãe se autointitulando negros. Esta categoria sempre foi arbitrária, dada pelos colonizadores europeus. Sendo assim, por mais que se defenda a autodeclaração racial como algo positivo, não podemos ignorar que raça só existe nas relações/interações sociais. Logo, não adianta ficar chateado(a) porque o negrômetro de alguém não detecta a sua suposta negritude. Num país racista e genocida como o nosso, isso não tem como ser algo negativo. Se você não entende a significância disso fica ainda mais evidente, pra quem nunca teve o privilégio da dúvida, a sua prepotência proporcionada por sua identidade branca. Essa noção de que uma pessoa lida branca pode representar qualquer raça – qualquer ser humano no planeta – só faz reafirmar a branquitude como padrão universal de humanidade. Portanto não se sinta no direito de ficar irritado(a) porque um negro insolente como eu ousou apontar que o rei estava nu.

“Seu filho quer ser preto, Rá, Que ironia”

Muitos na minha condição descobrem que “não passa de um(a) neguinho(a)” logo nos primeiro convívio social fora da família. Negritude e racismo são conceitos sociais forjados e demarcados ao longo de nossas experiências de vida. Muito raramente essas cicatrizes abrem espaço para dúvidas sobre suas razões de ser. Poder negociar esse rótulo não é algo para todos. Michael Jackson ilustra bem isso. A negação da negritude de Neymar e Ronaldo tampouco o privaram de serem vítimas de racismo. Sendo assim, vamos parar de tentar ficar convencendo os coleguinhas a enxergarem algo que, em última análise, é um demérito e, a cada 23 minutos, uma sentença de morte.

O problema não é alguém se sentir/considerar negro, mas sim achar que todos temos a obrigação de reconhecer uma identidade não reconhecível pelo nosso código social. Na África do Sul, por exemplo, eu facilmente poderia ser lido por alguns não como um homem preto (black), mas sim mestiço (mixed race). A própria incerteza nesse contexto é benéfica, contudo, essa leitura pouco influencia a maneira como me entendo – e sou entendido – no contexto brasileiro. Essa distinção de categorias surgiu lá durante o Apartheid e distribuía privilégios conforme a aproximação à branquitude, então, ainda que eu não seja tão mais claro assim, na sociedade sul-africana eu teria sido menos podado que os pretos mais pigmentados. Negar isso seria leviano e até perverso da minha parte pois opressões sempre têm vários pesos e diversas medidas.

Entretanto, caso você seja uma pessoa lida, majoritariamente, como branca e, ainda assim se sentir tão excluída do topo da pirâmide social a ponto de se identificar com a marginalidade – estereotípica e historicamente – negra talvez seja melhor avaliar o seu círculo social invés de exigir acolhimento de pessoas negras, pois estas têm mais com o que se preocupar. Tipo a própria sobrevivência.

Muitos passando por esses dilemas alegam profundo respeito pela causa negra, contudo, insistem em nos colocar na posição de inspetores a um acesso que jamais exigimos entrada: o de subjugados. Devia ser óbvio, mas parem de nos cobrar admissão em um aprisionamento do qual queremos nos emancipar. Portanto, se é para oferecer respeito fechem a cara não pra quem não repara na “cor da sua alma” e sim para quem mantém os entraves erguidos pelo racismo. Se é pra ser irmã(o), então aceite de uma vez que ser igual não significa desfrutar das mesmas oportunidades e permita que os mais afetados pelo racismo sejam também os mais beneficiados por essa onda de empoderamento construída desde o primeiro quilombo.

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