O engenheiro civil Flavio Micellis, 60 anos, deu entrada no início da tarde desta sexta-feira (28) na emergência do Hospital Grajaú, na Zona Norte do Rio, reclamando de fortes dores na cabeça. Ele e o marido, o servidor público aposentado Eduardo Michels (62) foram espancados por vizinhos que promoviam uma festa na noite do último feriado de Tiradentes (21). Ao conversar com a reportagem dos Entendidos, na noite desta quinta-feira, o casal contou que enfrentava a homofobia de parte dos demais moradores do condomínio onde moram, na Tijuca, bairro da Zona Norte do Rio. Nesta sexta, Flávio sentiu dores mais fortes e precisou ser levado a uma unidade particular de saúde.

Eduardo afirma que pelo menos 20 pessoas participaram do espancamento. O marido foi derrubado no chão e atingido com chutes na cabeça e no órgão genital enquanto ele foi jogado contra a parede e teve o pescoço apertado pelos agressores. “O que houve foi uma tentativa de homicídio. Não fomos mortos porque algumas senhoras que estavam no local impediram o pior, pedindo para eles pararem”, lembrou o servidor aposentado.

A dificuldade de relacionamento com os vizinhos se arrastava há pelo menos dois anos. À imobiliária que administra o edifício, eles reclamavam da perturbação do sossego causada por constantes festas com som alto aos finais de semana. A relação com os demais vizinhos que já era crítica por, segundo o casal, não terem a orientação sexual respeitada, ficou ainda pior depois que eles passaram a levar as queixas pelo barulho à imobiliária.

Eduardo mostra as marcas da agressão que sofreu no condomínio onde mora

“Nós ouvíamos insultos homofóbicos. Diziam para a gente que naquele condomínio não é lugar de viado, para dar o cu em outro lugar”, disse Eduardo. “Me chutaram várias vezes no órgão genital dizendo: isso é pra você nunca mais poder usar”, contou Flávio. O aposentado tem certeza que os vizinhos usavam as festas para provocação”. Nossa janela dá de frente para o quintal onde eles fazem os churrascos. Eles faziam questão de colocar cadeiras embaixo da nossa janela e apoiar os cotovelos dentro da nossa casa. Toda a fumaça entrava no nosso apartamento. Nós não tínhamos direito a sossego aos finais de semana”, lembrou. “Tiramos fotos dessas festas a pedido da imobiliária e passamos a ser mais hostilizados”, completou.

O dia das agressões foi o de realização de mais um churrasco pelos vizinhos. denuncia que já ouvia insinuações de violência contra eles antes da festa começar. “Eu ouvia da minha casa eles dizendo: hoje a gente pega eles de pau. Hoje a gente dá um jeito neles. Nós nos sentimos intimidados e decidimos passar o dia fora. Eu já imaginava que o pior poderia acontecer, então saí de casa com o celular na mão filmando tudo. Foi quando o primeiro veio na nossa direção com xingamentos e depois outros 20 nos agrediram. Depois eles ainda nos empurraram para dentro de casa”.

“Isso foi tudo premeditado. Quando a gente abriu a porta, eles já estavam esperando para nos bater.

Flávio ficou com hematomas em razão dos chutes”Não consigo urinar direito de tanta dor”

Na segunda-feira, 24, os problemas continuaram, contou Eduardo. O aposentado afirma que as chaves da portaria foram trocadas propositalmente “Nos tornamos reféns, ficamos em cárcere privado. Achamos que iriam nos matar”. Ele e o marido pediram socorro por telefone ao Grupo Gay da Bahia (GGB), ONG que Eduardo é colaborador. “O LUiz Mott entrou em contato com o Rio Sem Homofobia, que mandou uma viatura da PM para nos libertar. Saímos de lá só com a roupa do corpo e alguns documentos”. O casal busca junto à Defensoria Pública uma medida cautelar para que possam voltar ao prédio e retirar os pertences.

Vídeo mostra ameaças e início do ataque contra o casal

Amedrontados, eles temem que possam ser novamente vítimas dos agressores já que foram para outra casa no mesmo bairro, onde mora a irmã de Flávio “Eles tentaram linchar a gente. Tentaram matar duas pessoas de 60 anos no chute. Isso é crime de ódio”, definiu Eduardo.

Juntos há 20 anos, o casal nunca havia sofrido agressão física. Flávio deixou a unidade de saúde no final da tarde. Ele irá a uma clínica oftalmológica neste sábado, pois reclama de visão turva. “Tenho medo que tenha afetado o nervo ótico”.

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