Em 1965, os quatro garotos de Liverpool lançaram um álbum chamado “Rubber Soul”. Ele contém diversas canções que foram eternizadas para quem vivia nos anos 60 e para quem, assim como eu, é fã da banda. Uma dessas canções conta a história de um homem que ameaça uma menina de morte, caso a encontre com outro cara. A letra, claramente misógina, nunca foi criticada, além disso, ninguém nunca tentou criminalizar a banda. Então, por que criminalizar o funk?

A justificativa do autor da proposta de criminalização do funk, que já possui mais de 20 mil assinaturas, é que o gênero musical se trata de uma espécie de “recrutamento para atender criminosos, estupradores e pedófilos, a prática de crime contra a criança e o adolescente, venda e consumo de álcool e drogas, agenciamento, orgia, exploração sexual, estupro e sexo grupal”. Há canções de funk que são misóginas? Sim! Mas há canções misóginas em qualquer gênero musical, além disso, é muito feio fingir que se importa com todas essas pautas feministas para criminalizar o funk, quando na verdade, a única motivação para isso é o racismo.

A questão a ser levantada é: por que as pessoas que criminalizam o funk não tentam criminalizar outros gêneros musicais? O que há de diferente no funk? A resposta é simples: é som de preto, de favelado. No funk, você não encontra um vocabulário rebuscado, mas isso não inferioriza o gênero. Há músicas que falam de amor, amizade, resistência, feminismo, racismo e muitos outros temas importantíssimos. É uma desonestidade afirmar que o funk propaga somente coisas ruins.

Homens e, até algumas mulheres, me questionam com certa frequência como posso ser feminista e gostar de funk. Ora, eu sou tão fã de Beatles que tenho até uma tatuagem em homenagem à banda, mesmo sabendo que John Lennon, apesar de um compositor gênio, era um misógino. Não é coincidência que “Run For Your Life” tenha sido composta por ele e por Paul McCartney, que nunca foi acusado de machismo, mas é homem e está imerso em uma sociedade onde o machismo é cultural e, portanto, jamais problematizaria a letra.

Bem, eu preferiria te ver morta, garotinha, do que com outro homem.
É melhor você manter a consciência, garotinha, ou não vou saber onde estou.

Se o machismo é cultural, é mais do que comum vermos letras que até assustam de tão misóginas. No sertanejo, no pagode, na MPB, pois nem Chico Buarque escapa se mirarmos nos exemplos daquelas Mulheres de Atenas. Por isso, gostar de funk não me torna hipócrita nem menos feminista. O gênero musical não é o problema, a estrutura social, sim. Enquanto não mudarmos a estrutura que é irrigada de machismo, continuaremos escutando músicas machistas.

O problema das pessoas com o funk é o racismo, o elitismo. A tentativa de criminalização do gênero musical é a tentativa de criminalizar a favela e essa atitude de classificar como violento, animalesco ou primitivo tudo aquilo que é cultura do povo negro, nós conhecemos desde 1500. O funk é a voz da periferia que encontrou na música, a possibilidade de transmitir para o asfalto o descaso e as violências que as pessoas sofrem nas comunidades. E só porque não utilizam um vocabulário rebuscado, com referências em latim e influências europeias, as pessoas consideram chulo e baixo. Mas adivinhem só: cultura não é só o que a elite considera cultura (felizmente, porque detesto música clássica!).

Mas a sociedade pra gente não dá valor, só querem nos criticar pensam que somos animais.
Se existia o lado ruim hoje não existe mais, porque o funkeiro de hoje em dia caiu na real
Essa história de porrada isso é coisa banal.

Criminalizar o funk é ser hipócrita e jogar em um único gênero musical a responsabilidade da misoginia, que está presente não só na música, mas no cinema, nas novelas, nos programas de TV, dentro da nossa própria casa. A proposta é de um cinismo e de um racismo muito escancarado.

O funk é o grito de resistência da favela contra muitas das atrocidades que acontecem lá. Para cada letra que faz apologia ao estupro, temos Malandramente, que conta a história de uma mulher que foi embora por não estar a fim de tomar madeirada e não foi impedida por homem nenhum. Temos canções de amor das mais variadas, desde Nosso Sonho até Deu Onda. Muitas das composições também retratam a violência policial, a violência doméstica e a resistência da periferia. Não há como negar o quanto de cultura há no funk.

Como já dizia Amilcka e Chocolate: é som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado, tá ligado?
A vida é muito curta para vocês perderem tempo fingindo que não gostam de ouvir funk e rebolar até o chão.

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