Esse texto é um manifesto e uma carta de amor do nosso colaborador Lucas Veiga.

Não nos contaram nos bancos escolares, nem nas cadeiras da academia a história do nosso povo. O que contam do nosso povo é que fomos escravizados. E ao contar, contam com o olhar de quem se debruça na sacada da Casa Grande. Quando contam nossa história é de uma perspectiva embranquecida que nos mantem numa posição inferior. Até a vitória contra a escravidão retiraram de nós. Princesa Isabel recebe as glórias, mas quem as merecia era José do Patrocíneo, André Rebouças, Luiz Gama, Dandara, Luíza Mahin…

A força do nosso povo e a reação branca

Vocês sabiam que a civilização egípcia, uma das mais antigas e imponentes civilizações, era composta por negros? Vocês sabiam que os negros do Egito construíram as Pirâmides antes de Pitágoras formular o teorema? Sabiam que gregos iam muito ao Egito em busca de conhecimento? Sabiam que as bibliotecas egípcias foram saqueadas pelos gregos após a invasão e tomada do Egito? Sabiam que Aristóteles foi um desses saqueadores? Que a filosofia que dizem ter nascido na Grécia, na verdade nasceu às margens do Rio Nilo? Que Tales, Homero, Demócrito, Parmênides, Heráclito, Platão e Aristóteles copiaram as construções filosóficas dos egípcios e difundiram como sendo suas? Sabiam que a base que sustentou o pensamento e o progresso do ocidente foi construída pelo nosso povo? [James, 1954]

Nossa história foi sequestrada, percebem? Séculos mais tarde um novo sequestro, ainda mais violento. O povo banto – primeiro povo a vir cativo para o Brasil, que hoje corresponde aos territórios de Angola, Congo, Zaire, Moçambique – foi retirado à força de suas terras e trazido acorrentado nos porões de navios. Os bantos também foram o primeiro povo negro escravizado em terras brasileiras a resistir à escravidão por meio de fugas e construções de quilombos. Muitos homens e mulheres do nosso povo preferiram morrer a ser escravizados. Os mais de trezentos anos de escravidão também foram mais de trezentos anos de luta. E temos em Zumbi dos Palmares o símbolo dessa resistência. Milhões de negros e negras escravizados foram assassinados pelo poderio dos colonizadores brancos portugueses. Assassinados enquanto escravos, assassinados enquanto rebeldes. A Revolta dos Malês é um exemplo da incansável luta dos negros por sua liberdade e contra a atrocidade do colonizador branco.

Como sabemos, o último país do mundo a abolir a escravidão foi o Brasil. A abolição não veio acompanhada de medidas políticas de reparação histórica aos danos morais, físicos, materiais e psicológicos que o povo preto passou por quase quatrocentos anos neste país. Nosso povo foi, mais uma vez, relegado à margem, dessa vez à margem do pacto republicano brasileiro. O negro ex-escravo se transformou num alvo de ataque constante. Era o marginal, o degenerado, o vadio. Das senzalas, muitos negros foram parar atrás das grades em prisões. A política, a justiça e a academia legitimaram essas violências pelas quais o povo preto passou. A eugenia, por exemplo, difundida no início do século XX pela academia, estabeleceu que a raça negra seria uma raça inferior à branca e, portanto, poderia ser submetida a práticas autoritárias e discriminatórias. Pensamento este que justificava o período da escravidão e legitimava a perseguição que o povo preto sofreu nos anos subsequentes à abolição e que ainda sofre.

O ideal branco

O branco como raça superior não passou a ocupar somente o imaginário de todos os brasileiros, negros, índios e brancos, mas a ideia de superioridade da raça foi adotada como política de Estado. Na década de 1930 o país se abre para receber um contingente enorme de imigrantes brancos europeus. O objetivo principal dessa abertura era promover o embranquecimento da população. Sendo um desdobramento da eugenia, o higienismo retirou a população negra dos centros urbanos, forçando o povo preto mais uma vez a ficar à margem, dessa vez, na periferia das cidades. Surgiam assim as favelas.

O fato de 75% da população brasileira mais pobre ser negra é um efeito das violências que o povo preto vem sofrendo ao longo de toda diáspora africana. A perseguição ao povo preto não parou, o encarceramento em massa de negros e negras foi mais um passo dado na direção do embranquecimento da população. O ápice do encarceramento do povo preto no Brasil se deu a partir de 2006 quando foi sancionada a lei de drogas que deixa a cargo da polícia avaliar se um cidadão que está portando droga é usuário ou traficante. Lei que levou e leva milhares de jovens negros para atrás das grades ou para um fim mais perverso. A perseguição ao povo preto não parou por aí. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Eu disse que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil.

Não sei que afeto os irmãos e irmãs sobreviventes sentem diante dessa realidade. Eu sinto raiva. E produzo coisas com ela, como essa carta-de-amor-manifesto. Os movimentos negros brasileiros, digo no plural porque são diversos não em sua natureza, mas em suas estratégias de luta, os movimentos negros há décadas lutam para que a igualdade racial venha a ser uma realidade no Brasil, para que este genocídio cesse. Uma das frentes dessa luta são as ações afirmativas como as cotas para o ensino superior e para o serviço público. Neste momento em que grandes universidades brasileiras que ainda não tinham aderido às cotas começam a aderir é urgente nos perguntarmos: o que a academia fará com os jovens negros e negras que estão chegando e vão chegar cada vez mais às universidades?

O pensamento branco

O que a academia brasileira vem fazendo com os negros e negras que chegam ao ensino superior é submetê-los a um silencioso processo de embranquecimento. Nossa formação é majoritariamente branca, masculina e europeia. A formação acadêmica no Brasil tem a cara do colonizador. O pensamento brasileiro ainda é extremamente colonial. E não podemos esquecer que o que promoveu a diáspora africana e a escravidão foi o processo de colonização perpetrado pelos brancos europeus. Um pensamento colonial é um pensamento escravocrata. Uma escravidão quase invisível ou inconsciente que mantem a nós, negros, apartados de nossas origens, das produções de conhecimento de nosso povo e submetidos ao conhecimento ou, dito de outro modo, à epistemologia do colonizador branco. É urgente enegrecermos nosso pensamento, enegrecermos a formação, decolonizarmos a academia. O que seria então um pensamento pós-colonial que no Brasil, considerando que 54% da população é negra, significa perguntar o que seria um pensamento afrocentrado?

O resgate negro

Molefi Asante, um dos precursores da epistemologia afrocentrada define a afrocentricidade como “um tipo de pensamento, prática e perspectiva que percebe os africanos (negros) como sujeitos e agentes de fenômenos atuando sobre sua própria imagem cultural e de acordo com seus próprios interesses humanos” [ASANTE, p. 93]. Não precisamos embranquecer para sermos reconhecidos como humanos, não precisamos nos submeter à cultura europeia, precisamos sim nos reconectarmos com o que somos através do resgate do que já fomos. Nos reconectarmos com África.

Tanto o povo Banto-Congo, quanto o povo Iorubá – que também foi trazido cativo para ser escravizado no Brasil – compreendem o ser humano como sendo uma das expressões do divino. “Ser humano é ser um espírito em contato constante com os poderes espirituais que habitam o invisível; ser uma força espiritual conectada a uma energia em eterna expansão cuja totalidade constitui o Ser Supremo” [Nobles, p. 282]. A pessoa humana, assim como todo ser existente, é de um valor incomensurável e, portanto, é livre.

Imaginem, então, irmãos como foi devastador para nossos ancestrais serem submetidos à escravidão, terem retirada sua humanidade, enfraquecida sua força espiritual. Muitos negros preferiram morrer a se tornar escravos. A construção dos Quilombos permitiu que a força de ser humano fosse resgatada, que a cultura africana fosse restabelecida, que o zelo consigo, com o outro e com o divino voltassem a ser possível. Os brancos colonizadores odiavam os quilombos porque era espaço não só de proteção dos negros, mas da afirmação de sua humanidade no sentido mais pleno – como produtores independentes de sua própria realidade.  Sendo assim, “como poderiam as ciências humanas, históricas – etnologia, economia, história, antropologia, sociologia, psicologia e outras – nascidas, cultivadas e definidas para povos e contextos socioeconômicos diferentes, prestarem útil e eficaz colaboração ao conhecimento do negro, à sua realidade existencial, aos seus problemas, aspirações e projetos? Seria a ciência social elaborada na Europa e nos EUA tão universal em sua aplicação?”, nos pergunta Abdias Nascimento (2009, p. 206).

Enegrecer a formação, portanto, implica compreender o que é ser africano, sejam africanos do continente sejam africanos espalhados pelo mundo. Africano é o povo que há mais de quinhentos anos resiste à dominação europeia dos nossos corpos, da nossa identidade e do nosso pensamento. O Brasil é o país fora da África com maior população africana do mundo. 54% da população brasileira é africana, ou seja, negra. Sendo assim, temos que nos perguntar: estamos considerando a singularidade de pertencer ao povo preto quando elaboramos processos de formação para alunos e professores? Estamos considerando a singularidade de pertencer ao povo preto quando cuidamos de seus processos de subjetivação? As escolas públicas são frequentadas, em sua maioria, por negros. O SUS é acessado, em sua maioria, por negros. Estariam os alunos e usuários negros sendo assistidos em sua integralidade? Estariam sendo considerados como pessoa humana detentora de direitos, de história, de identidade? Precisamos conhecer a história e o significado de ser africano tanto para nos fortalecermos e aos nossos irmãos, quanto para produzirmos conhecimento que nos ajude a formular as experiências de ser negro e a produzir modos de pensar, sentir e intervir na realidade que sejam favoráveis a dignidade, a solidariedade, a liberdade, a espiritualidade, a gestão do que é público, as estratégias de reparação dos danos morais, físicos, psicológicos e materiais que sofremos por todos esses anos.

Um caminho de cura

A escravidão e a política de embranquecimento a que fomos submetidos deixou marcas profundas em nossa subjetividade. Virginia Bicudo, psicóloga negra, pioneira da psicanálise no Brasil, apontou em sua dissertação de mestrado que há um sentimento de inferioridade permanente nos negros e negras brasileiros. Wade Nobles, psicólogo afro-americano pioneiro na psicologia afrocentrada, chama atenção para o fato de que a ideologia da supremacia racial branca produziu nos negros e negras uma condição psicológica fragilizada e por vezes autodestrutiva. Como psicólogo negro que sou, testemunho e cuido desses efeitos nas subjetividades de meus pacientes pretos e pretas. Viver em um ambiente que a todo momento te dizem de múltiplas formas que você é inferior, que sua vida não tem valor, que sua pele e seu cabelo são feios, que a história do seu povo não merece atenção, que o conhecimento que produzimos não é relevante etc. Certamente tudo isso compromete a saúde mental do povo preto. Uma saída está em formarmos nossos quilombos e voltarmos nossos olhos para a concepção africana do que significa ser humano: expressão singular da infinitude e da força do divino. Somos parte de uma totalidade cósmica e espiritual que rege o universo, somos elementos da natureza do mundo, nosso corpo é recipiente e instrumento de uma força espiritual em eterna expansão. Uma possibilidade de cura das marcas da violência que brancos cometeram contra nós se dá na coletividade do povo preto. O resgate de nossa história e de nosso senso de comunidade pode vir a nos curar. Além disso, a luta pela igualdade racial não cessará enquanto negros e negras não forem maioria no congresso, na academia, nas mídias, em todos os espaços de poder da sociedade brasileira.

Finalizo essa carta-de-amor-manifesto com uma frase de Frantz Fanon:

“Saudemos hoje a oportunidade histórica que permite aos negros dar com tal determinação o grande grito negro que abalará os assentamentos do mundo”.

Axé.

 


Referências:

Asante, M. Afrocentricidade: notas sobre uma posição disciplinar. In NASCIMENTO, Elisa (org.)  Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. São Paulo: Selo Negro. 2009.
Bicudo, Virgínia. Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. São Paulo: Editora Sociologia e Política, 2010.
Fanon, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Bahia: EdUFBA, 2008.
James, G. (1954) Stolen Legacy: The egyptian origins of western philosophy.
Nascimento, Abdias Quilombismo: um conceito emergente do processo histórico-cultural da população afrobrasileira. In Elisa Nascimento (org.) Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. São Paulo: Selo Negro, 2009.
Nobles, W. Sakhu Sheti: Retomando e reapropriando um foco psicológico afrocentrado. In NASCIMENTO, Elisa (org.) Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. São Paulo: Selo Negro, 2009.

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