Garrafas e latas foram atiradas sobre o chão de pedra histórico do sítio arqueológico. Foto: Felipe Martins
A Unesco elegeu neste domingo o sítio arqueológico do Cais do Valongo, na Zona Portuária do Rio, o novo Patrimônio da Humanidade. A região é o símbolo da Diáspora negra no Brasil. Inaugurado em 1811, foi o principal desembarque de escravos nas Américas. Dados históricos estimam que quatro milhões de escravos chegaram ao Brasil entre os séculos XVI e XIX. Uma tragédia que não deve ser esquecida ou desprezada. No entanto, na noite deste sábado, em um triste retrato de desprezo pela História do Brasil, estudantes fizeram do Valongo lixeira e até mictório.

Na noite deste sábado foi realizada a festa junina de uma rede privada de ensino que superlotou o galpão da Ação da Cidadania, localizado em frente ao Valongo. Esta reportagem testemunhou jovens atirando garrafas e latas na direção da área que, em tese, deveria ser de preservação. Por várias vezes, era alto o barulho dos vidros quebrando sobre o histórico chão de pedra. Enquanto na entrada da festa os adolescentes se espremiam no portão (alguns insistindo para entrar e outros tentando sair), rapazes faziam do Valongo mictório, urinando sobre o agora patrimônio da humanidade.

O Cais do Valongo, em dia sem o ataque ao patrimônio histórico. Foto: Agência Brasil

Ao ser eleito Patrimônio da Humanidade, o Valongo entra para um restrito e trágico rol da Unesco de tragédias humanitárias que não devem ser esquecidas. Já estavam nesta lista o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, e a cidade de Hiroshima, no Japão. Aproximadamente 60% dos negros que chegaram da África ao Brasil entraram pelo Rio de Janeiro, sendo que cerca de 1 milhão deles pelo Cais do Valongo.

O título tem o objetivo de reconhecer a importância do local e dos africanos que lá desembarcavam para a formação cultural, social e econômica do Brasil. E ainda a sua relevância para toda a humanidade como símbolo da violência que a escravidão representa.

Candidatura

O Cais do Valongo foi o único sítio inscrito pelo Brasil para concorrer ao título este ano. A candidatura foi apresentada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pela prefeitura do Rio de Janeiro e aceita pelo comitê em 2015.

Na oportunidade, foi apresentado dossiê com detalhes da história do tráfico negreiro para o país e o que o trabalho escravo significou para a economia brasileira entre os séculos 16 e 19. O trabalho, coordenado pelo antropólogo Milton Guran, também demonstrou que a importância do sítio arqueológico não está ligada apenas aos afrodescendentes, mas a toda a população brasileira.

(Com informações da Agência Brasil)

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