o horror da publicidade

poucas coisas me horrorizam tanto quanto a publicidade. existem coisas piores, como genocídio, escravidão, jornalismo esportivo, jiló, mas elas pelo menos são vistas como diabólicas. o que me horroriza na publicidade é o fato de ela ser socialmente aceita. me horroriza existir toda uma disciplina, com universidades, livros, seminários, voltada exclusivamente para nos fazer passar …   Read More

poucas coisas me horrorizam tanto quanto a publicidade.

existem coisas piores, como genocídio, escravidão, jornalismo esportivo, jiló, mas elas pelo menos são vistas como diabólicas.

it's a trap

o que me horroriza na publicidade é o fato de ela ser socialmente aceita.

me horroriza existir toda uma disciplina, com universidades, livros, seminários, voltada exclusivamente para nos fazer passar a querer coisas inúteis que antes não queríamos. me horroriza pessoas aparentemente honestas e decentes escolherem dedicar suas vidas ao aperfeiçoamento da lavagem cerebral. me horroriza ver essas pessoas usando todas as mais recentes ferramentas da ciência para nos manipular tão abertamente. me horroriza uma atividade tão intrinsecamente perversa estar no mesmo nível de aceitação popular que construir prédio e operar fígado, ensinar sociologia e jogar futebol.

há muito tempo, não assisto tv nem ouço rádio, não leio jornais nem revistas. a publicidade é como se fosse uma língua — cuja sintaxe é repleta de dedos apontados e pontos de exclamação, sorrisos brancos e hálito puro — e a minha fluência foi se enferrujando pela falta de uso.

agora, estou ressensibilizado. qualquer merchandising me horroriza. qualquer outdoor me agride.

no vagão das mulheres, no metrô, uma intimidadora lâmina de barbear de dois metros de altura ordena:

“tenha as pernas mais bonitas do brasil!”

no mesmo vagão, na tv, uma empresa quer enviar amostras grátis de maquiagem e ainda cobrar por isso:

“seja uma mulher com muitos produtos de beleza”.

aquilo tudo me é tão chocante que eu olho em volta, buscando o contato visual com alguém, buscando por outra passageira tão indignada quanto eu, buscando com uma interlocutora para dizer:

“caralho! uma lâmina de barbear gigante dando ordens sobre nossas pernas! você reparou na violência? no autoritarismo? na ameaça velada?”

mas não. as pessoas estão todas tranquilas e normais, esperando chegar a próxima estação. nada ali é estranho ou fora do comum. não se sentiram agredidas. em um único comercial do big brother, veem meia dúzia de anúncios mais violentos e mais autoritários. nem entenderiam o meu horror.

vivo em um mundo onde as cenas cotidianas que mais me enchem de horror são vistas com normalidade por quase todas as pessoas a minha volta. a exploração, a desigualdade, o racismo, a transfobia. tudo aceitável e dentro dos padrões do bom funcionamento da sociedade.

então, sinto que estou sempre escrevendo textos de horror.

talvez essa seja a melhor definição de arte engajada: tornar contagioso o horror.

* * *

(trecho da prisão dinheiro, um dos meus melhores textos.)

* * *

as prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida. são as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido. leia também a prisão dinheiro e, na sequência, a prisão trabalho.

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