sou mulher, me deixe falar!

a bancada do jornal nacional é um microcosmo do sexismo: o apresentador e editor-chefe interrompeu as candidatas mulheres quatro vezes mais do que os homens. alguém ficou surpresa? — quando comecei a dar palestras e cursos, notei uma tendência de ser interrompida por homens durante a minha fala. embora eu incentive as perguntas durante qualquer …   Read More

a bancada do jornal nacional é um microcosmo do sexismo: o apresentador e editor-chefe interrompeu as candidatas mulheres quatro vezes mais do que os homens. alguém ficou surpresa?

quando comecei a dar palestras e cursos, notei uma tendência de ser interrompida por homens durante a minha fala. embora eu incentive as perguntas durante qualquer apresentação que faça, a interrupção de uma frase no meio do caminho costuma ser feita por pessoas do gênero masculino. mas só fui parar para pensar melhor neste assunto quando outras mulheres, que também dão palestras ou aulas, comentaram que o mesmo acontecia com elas.

nem todos os estudos sobre interrupção com o corte de gênero são conclusivos. além do provável sexismo nesta atitude (primeiramente levantado por zimmerman e west) também é preciso considerar diferenças sociais, de idade e temperamento. mas foi pensando nessas questões que resolvi, só por curiosidade, analisar com mais cuidado as entrevistas realizadas com presidenciáveis no jornal nacional. vamos aproveitar que temos duas mulheres no páreo dessas eleições, algo inédito! o resultado está abaixo:

 

entrevista do jornal nacional com presidenciáveis – interrupções

interr-1

william bonner interrompeu homens 10 vezes e mulheres 40 vezes. foram 4 vezes mais interrupções. já patrícia poeta interrompeu homens 9 vezes e mulheres 19 vezes, praticamente o dobro de interrupções (este artigo explica que mulheres também interrompem mais mulheres, levando em consideração a perpertuação do sexismo pelas próprias vítimas.)

houve também um caso em que bonner interrompeu sua colega poeta, e o contrário não aconteceu.

veja que, no caso das entrevistas com candidatos, bonner e poeta interromperam em uma mesma proporção – o que impede de considerarmos que bonner interrompeu mais pois ser o chefe. durante as entrevistas com candidatas, bonner interrompeu o dobro de vezes que sua colega.

embora eu tenha notado, ao assistir as entrevistas, que a atual presidenta dilma havia sido bastante interrompida, eu não havia percebido a grande diferença em comparação com as entrevistas realizadas com candidatos homens. a presença da candidata marina, também mulher, fez ser possível diferenciar a questão partidária da questão de gênero.

a amostra continua pequena. mas vamos lembrar que o brasil está em 68º lugar no quesito “participação política” do relatório global sobre desigualdade de gênero do world economic forum – com um fator de 0.1440 sendo que a igualdade de gênero é considerada no fator 1.

talvez, ao invés de interromper nossas mulheres, devêssemos dar mais poder a elas.

usei como amostra as quatro entrevistas feitas com as pessoas com mais chances durante suas entrevistas (segundo pesquisas de intenção de voto): aécio neves, eduardo campos, marina silva e dilma roussef. tentei, desta forma, manter o mesmo status dentre as candidaturas entrevistadas, isolando ao máximo o corte de gênero. contei absolutamente toda interrupção, inclusive aquelas reincidentes (logo depois uma da outra). não contei interrupções feitas depois do tempo definido para a entrevista, pois essas foram obrigatórias – avisando a pessoa que o tempo havia acabado.

a análise foi feita por curiosidade, sem fins nem rigor científicos. me inspirei nessa autora que resolveu contar as interrupções de crianças brincando no parquinho.

abaixo os números de cada entrevista:

interr-2

aécio / b: 5 / p: 2 • eduardo / b: 5 /p: 7 • marina/ b: 16 / p: 11 • dilma / b: 24 /p: 8

a imagem destacada é da cartunista egípcia doaa eladl. aqui ela conta sobre como é difícil ser mulher e cartunista no seu país.









Golpe 16 - O livro da blogosfera em defesa da democracia

Golpe 16 é a versão da blogosfera de uma história de ruptura democrática que ainda está em curso. É um livro feito a quente, mas imprescindível para entender o atual momento político brasileiro

Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.




Comentários

6 comments

  1. Eliel Responder

    Oi Claudia
    Parabéns pela análise.
    Não ví nenhuam das entrevistas mesmo porquê não vejo quase nada que veicula nessa midia, mas sua excelente visão só confirma minha decisão em não acompanhar nada que venha desse povo.
    Pode ser sectarismo, mas prefiro dedicar meu tempo a coisas que estão ajudando a construir uma nova visão de mundo, com igualdade de condições.
    Abraços

    1. Tiago Responder

      Gostei do texto, bem pertinente. Mas tive que parar para comentar depois de ler o comentário do Eliel. Caro amigo, entendo que vc esteja cansado e de certa forma revoltado com a cobertura da imprensa sobre o assunto, mas não consigo imaginar outra forma de conhecer os candidatos, suas posturas e propostas sem assistir os debates e entrevistas. Como um cidadão politizado e consciente que você parece ser, tente assistir a essas produções sempre com seu olhar crítico para poder desenvolver sua própria impressão sobre os candidatos, e poder refletir sobre suas atitudes e posições. Infelizmente vivemos em um mundo em que somos bombardeados o tempo inteiro por interesses diversos, mas isso não quer dizer q devemos fugir do mundo, mas sim que devemos encará-lo de forma crítica e consciente.

  2. jjfinho Responder

    Vejo sua iniciativa harmoniosamente balanceada. Acho interessante essa defesa de gêneros,sempre que alguém com qualquer que seja a intenção, pensa e coloca algo do tipo, forçando assim pessoas que estavam inertes e que por algum motivo tomaram conhecimento a se movimentarem intelectualmente sobre o tema, seja contra ou a favor. Achei interessante a tentativa de uma imparcialidade, só que nesse caso em específico esse tipo de estudo tem que levar em consideração o posicionamento político do jornalista, e de seus patrões, juntamente com seus interesses. A capacidade discursiva das mulheres em questão (e dos homens também) de se fazerem claras diante dos questionamentos colocados, e acho que o mais importante separar esses números por candidatos para que possamos entender de fato se é uma questão de gêneros ou um simples posicionamento contra a pessoa. Sei que você provavelmente percebeu um padrão ao longo do seu trabalho, e que diretamente é afetada por isso e esse deve ter sido o seu fator motivador para levantar essa questão, mas comportamentalmente falando para ase analisar pessoas deve se levar em consideração muito mais coisas do que você levou em consideração. Mas mesmo assim parabéns !!!! Eu particularmente me orgulho do seu senso crítico.

  3. Gabriela Responder

    Achei muito importante a análise; gostei também que você deixou claro que esses estudos não são conclusivos, devido à outros fatores como idade, temperamento, etc. Contudo, acho que é interessante salientar o fato de que as entrevistas com os presidenciáveis feitas pelo Bonner foram totalmente tendenciosas e com objetivos políticos. As interrupções feitas à Dilma, por exemplo, acredito que tinham como objetivo desmoralizar o PT.
    Mas é como você disse, são muitos fatores a serem analisados.
    Parabenizo mais uma vez pela iniciativa.

  4. porrão Responder

    Foram mais interrompidas simplesmente por estarem fugindo da pergunta, não é lógico?