A violência psicológica contra mulheres é um problema naturalizado

Jarid Arraes
Por Jarid Arraes dezembro 11, 2013 18:04

A violência psicológica contra mulheres é um problema naturalizado

Os resultados de uma recente pesquisa do Instituto Avon sobre violência doméstica vêm rodando pela internet – mas entre tantos dados pertinentes e preocupantes, há um ponto especial que geralmente passa batido: os abusos psicológicos, verbais e emocionais. Segundo os resultados, uma porcentagem assustadora de 56% dos homens entrevistados admitiram ter tido atitudes violentas contra mulheres. Algumas formas de violência citadas incluem xingamentos, humilhações públicas, ameaças verbais, empurrões e proibições de sair de casa em algum momento, sendo os xingamentos os mais prevalentes.

A Psicologia trabalha amplamente com a questão dos abusos verbais. A quantidade de publicações relacionadas ao tema é vasta e a maioria dos profissionais concordam que xingamentos dentro de relacionamentos românticos são sinal de péssimas consequências. Grande parte das demandas clínicas e de saúde mental envolvem violência psicóloga, crises de ciúme e o podamento da liberdade do parceiro. É importante perceber que essas demandas são mais frequentes entre as mulheres e as estatísticas só servem para confirmar o recorte de gênero.

O fato de que as mulheres são as maiores vítimas dos abusos psicológicos chama atenção para o machismo da sociedade (Flickr/Christopher Michel)

Mas não é necessário ser profissional ou estudante de Psicologia para compreender as consequências catastróficas dos abusos verbais. Casos de violência física e feminicídio muito frequentemente começam com xingamentos, manipulações e chantagens, formas de violência que não aparentam ser tão graves no começo, mas que pioram gradativamente. As narrativas são muito semelhantes e o agressor que esmurrou ou espancou sempre começa com comentários depreciativos, muitas vezes devido a crises de ciúmes.

No entanto, as mortes e hematomas não são as únicas consequências que os abusos verbais precedem, pois a violência psicológica e emocional causa outros problemas gravíssimos. Um comentário depreciativo é o suficiente para agredir a autoestima e a percepção de valor próprio do alvo, várias vezes minando sua vontade de viver. Gestos e palavras agressivas transformam uma mulher em um rascunho de ser humano, perdida na dependência emocional e sem forças para enxergar uma realidade melhor. Os termos e chantagens são tão pesados que fazem com que a vítima não consiga entender que merece um relacionamento feliz, já que aquele contexto de sofrimento se torna o padrão, a única opção.

Um dos fatores que dificultam solucionar os relacionamentos abusivos é que os abusos são, quase sempre, encarados como coisas normais dentro de um casamento, que “fazem parte da vida”. O discurso conformista é praticamente unânime. No entanto, permitir que a sociedade continue encarando brigas violentas, físicas ou verbais, como coisas indissociáveis dos relacionamentos, é uma colaboração com os intermináveis crimes misóginos. Se todos os comportamentos humanos acontecem devido a influências de suas raízes culturais, é óbvio que o modo como as pessoas lidam com os problemas no campo emocional é a própria base da violência doméstica. Não adianta tentar impedir os espancamentos e estupros, mas continuar se omitindo quando um casal discute e o homem dispara uma bomba de termos chulos, palavrões e críticas cruéis contra sua esposa.

O fato de que as mulheres são as maiores vítimas dos abusos psicológicos chama atenção para o machismo da sociedade. São as mulheres que crescem sob demandas violentas, sendo pressionadas a suportar toda espécie de xingamento, controle sobre seus corpos e podamento de suas liberdades. Os axiomas de sensibilidade, compreensão e cuidado continuam empurrando o sexo feminino para uma história única, sem variações significativas: ao invés de serem responsabilizados por seus atos, os homens problemáticos precisam de cuidado e compreensão, pois considera-se que somente uma mulher amorosa pode ser capaz de transformá-lo. Até parece um conto de fadas, só que nesses casos é a mulher que precisa ser maternal e se anular enquanto sujeito para salvar o homem de seus comportamentos impulsivos e desonestos.

Para além das idealizações, a resignação em um relacionamento infeliz é frequentemente exigida das mulheres. É por isso que quando são envolvidas questões de classe e religião, a manutenção do status econômico e a reputação na comunidade espiritual funcionam como correntes que mantêm as mulheres presas aos abusos – afinal, “o amor tudo suporta, tudo espera”. Tal constatação é extremamente preocupante, pois a sociedade pressiona e coage o gênero feminino a permanecer com maridos e namorados abusivos, mesmo que reconheçam que o homem está passando dos limites; a expectativa é de que com paciência tudo se resolva eventualmente.

Relacionar o amor com a tolerância ao machismo adoece os relacionamentos, tornando-os venenosos e perigosos. A sociedade induz as mulheres a se transformarem em mártires, e sob a pena de serem consideradas infiéis, vadias e negligentes, muitas delas se conformam com os relacionamentos abusivos. Não é à toa que se espera a desistência da autonomia por parte da mulher quando a mesma se diz apaixonada. Além disso, o sexismo ligado aos papéis de gênero contribui fortemente na manutenção dos abusos: os discursos culturais giram em torno da “irracionalidade” feminina e de como estão supostamente exagerando quando reclamam de atitudes dos parceiros. Desse modo, é fácil invalidar as denuncias das mulheres, pois se são cegas emocionalmente e sempre reclamam de tudo, nada garante que o homem está de fato sendo violento. É por isso que testes como este são tão importantes, sendo uma ferramenta acessível para que mais mulheres em relacionamentos possam pensar se sofrem risco de abuso.

É preciso alertar homens e mulheres sobre o que configura abuso emocional e psicológico e controle sobre a outra parte, como quando o parceiro passa a se incomodar com as roupas que a mulher usa, suas amizades ou locais que frequenta. Se um homem chega ao ponto de impedir a saída da mulher e o contato com outras pessoas, é porque ele está sendo abusivo e machista, tratando-a como um objeto sob seu controle. Lamentavelmente, a sociedade custa a entender isso e levanta muitos argumentos para justificar tais atitudes. As pessoas se acostumaram com o cerceamento, principalmente quando o sexo feminino é que está sendo cerceado.

Muitas mulheres não sabem que estão sendo vitimadas e permanecem condenadas a um cotidiano de violência. Por isso, é importante nos politizarmos e passarmos a nos posicionar a respeito da violência de gênero. Conscientizar a população sobre a violência psicológica e emocional deve ser prioridade, combatendo a menor manifestação de abuso contra qualquer mulher.

*O teste foi retirado da página Machismo Nosso de Cada Dia no Facebook. Outros testes similares são distribuídos em cartilhas do governo em todos os estados do Brasil.

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Jarid Arraes
Por Jarid Arraes dezembro 11, 2013 18:04
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11 Comentários

  1. Vanessa Diáspora dezembro 11, 18:18

    Interesse olhar esta ótica desta forma, de fato. É verdade que os palavrões e maus tratos psicologicos anunciam um desfecho físico de violência, parando para pensar e puxando pela memória, conheço muitos casos que seguiram essa ordem de acontecimentos.
    Mas uma coisa é certa, quando falarem na minha frente que mulher só faz drama, não vou deixar de levantar a voz e reclamar desses estereotipos. Porque mulher tem direito de reclamar sim – principalmente de maus tratos!

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  2. negao do buso dezembro 11, 19:10

    E a violência do consumismo ninguém comenta, né Avon?

    Tudo na sociedade influencia e sugere que a mulher deve ser uma maquina de consumo….que gaste para tudo, inclusive para chegar alguns padrões estéticos que não se adequam o tipo físico, cor dela…

    As inumeras revistas femininas, novelas e todo o tipo de programação voltada ao publico feminino exige certos padrões de consumo para mulher…nao a toa há tantas mulheres interesseiras que procuram parceiros abastados para que consigam atingir certos padrões colocados pela mídia como o ideal…ou que elevem sua moral como mulher e também em status social…

    A mulher é com certeza a maior vitima da febre do consumo atualmente vivida…Por que uma mulher precisa de 50 sapatos, quando poderia ter menos…e a coisa de não repetir um vestido…

    A mulher já não consegue se enxergar fora do padrão imposto a ela…É uma situação lamentável…que a Avon e demais atiradoras de elite do consumismo jamais irão comentar…Aguardo um artigo sobre isso

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  3. Nando G. dezembro 11, 19:49

    muito bom o texto

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  4. Ricardo Rocha Aguieiras dezembro 11, 20:31

    Bom, apesar de duvidar das reais intenções do Instituto Avon , por que penso que uma empresa que vende cosméticos às mulheres prometendo eterna juventude e que ela fique bela para agradar ao homem, gostei muito desse texto.
    Tenho uma história recente: Uma amiga, sempre alegre, inteligente, piadista e feliz foi chamada por seu namorado, mais de uma vez, várias vezes até, de “gorda”. Não como brincadeira e nem mesmo como intimidade, ele disse literalmente : “não gosto de mulheres gordas!”.
    Sabem o que aconteceu? Essa amiga deixou de ser sorridente, alegre, linda como antes, está cada dia mais deprimida e preocupando seus verdadeir@s amig@s. Só que tem um porém aí: o tal namorado, homem, ´[e gordo, é obeso…
    Que merda de sistema é esse que permite isso, permite esse cinismo ofensivo, vilipendiador, destruidor?
    Ricardo Aguieiras
    aguieiras2002@yahoo.com.br

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  5. Priscilla dezembro 11, 21:56

    Fui vítima em um relacionamento abusivo por muitos anos. Achava que ninguém mais iria me amar e que por isso eu tinha que me esforçar para mudar meu ex-noivo. Acha que quando nos casassemos tudo ia melhorar. Mas estava cansada de ser chamada de vadia. De ter meu caráter duvidado. De ser proibida de sair. De ser proibida de ter amigos e até mesmo amigas. O que me deu força para sair daquela situação de sofrimento foi contar com amigas feministas. Hoje sou feminista e me recupero daquela fase. Sei que jamais se repetirá.

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  6. joao w nery dezembro 11, 21:59

    O texto é bom e verdadeiro, mas uma pergunta não quer calar? Que mães são estas que criam seus filhos machistas?

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  7. Liziane Berrocal dezembro 11, 23:17

    Eu estou processando meu ex-marido por este motivo! E vou até o final! Vivi um inferno e ele me fazia acreditar que era o paraíso…

    Desde que comecei a crescer na profissão, minha vida virou um inferno! Ele me punia até mesmo com o olhar! Muita terapia e um novo namorado, que torce por mim, que me dá AMOR E CARINHO e que não é machista, além do apoio de minha advogada e de minha mãe me fizeram perceber que ele me minava, me cegava e continuou isso mesmo depois de separado…

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  8. Jussara Rocha dezembro 15, 00:59

    1º – “São as mulheres que crescem sob demandas violentas, sendo pressionadas a suportar toda espécie de xingamento, controle sobre seus corpos e podamento de suas liberdades” 2º – “Relacionar o amor com a tolerância ao machismo adoece os relacionamentos, tornando-os venenosos e perigosos.” Me parece que parear amor, agressão e cuidados, forma agressores e vítimas. Meninas e meninos são ambos vítimas de pais despreparados que os educam à base da coerção, que está refletida na relações conjugais e sociais de um modo geral. Indo contra a correnteza, não acredito que esta questão esteja ligada apenas à gênero (ao menos, não hoje). Nós mulheres politizadas precisamos enfrentar uma questão: sobre quais bases estamos preparando homens e mulheres do futuro. Toleramos muito tranquilamente a agressão contra nossas crianças, ensinamos a elas que para conseguir coisas é necessário gritar, beliscar, humilhar, castigar, bater, proibir de sair, punições de toda ordem, em casa, na escola…Se isto não for enfrentado, especialmente por nós mulheres, vamos pela eternidade tentando sanar os resultados, as consequências.

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  9. Elton dos Anjos março 31, 10:20

    Olá. Texto interessantíssimo. Gostei. Parabéns aos autores. Acredito que essa discussão sobre a temática da violência contra as mulheres deve ser trabalhada por todas as pessoas e não somente pelas mulheres.

    Agradeço pelo espaço de discussão.

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  10. claudia valeria abril 16, 01:38

    eu so casada a 25 anos e só agora meu esposo resolve arumá outara pois ele só mi maltrata e dese que eu deixa ele doente pois so forte emtao eu fico só na vontade só ele setisfais eu nada

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  11. Jussara Bonfim Santos agosto 21, 19:55

    Eu vivo uma vida de humilhação e xingamentos,vivo com o meu marido há 24 anos faz 20 anos que ele vive nas drogas já o larguei no começo pois não sabia que era drogas pensei que era outra,depois de um més separada voltei foi a pior coisa que fiz na minha vida. Naquela época eu tinha uma filha de 3 anos,depois de 3 anos tive um filho pensei que ele ia mudar mas cada ano que passava ele piorava,o ciúme aumentava cada vez mais e tudo mais por descuido engravidei de novo ,tive outra menina que hoje é minha parceira sempre está do meu lado,confio a ela meus cartões,meu dinheiro,ela guarda pra mim pra ele não pegar por causa do vício.tenho uma filha de 23 anos,um filho de 17 anos e a mais nova minha companheira de 15 anos,ia me esquecendo tenho um neto que crio de 4 anos.Nossa família é um desastre,o pai que era pra ser o exemplo é o pior.Hoje ele está internado em uma clínica de recuperação está fazendo isso por mim diz ele,eu não pretendo ter mais nada com ele depois que ele sair mas não sei como me livrar dele. Nossa casa construirmos no terreno da mãe dele e não tenho condições de pagar aluguel ele diz que não sai da casa e se eu quero me separar que eu saia,preciso resolver isso na minha vida.Apesar que ele não vai me deixar em paz,acho que vou ter até que sair do serviço mas vou conseguir sair dessa eu só queria desabafar.

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