Yzalú, a feminista negra da música periférica - Questão de Gênero

Yzalú, a feminista negra da música periférica

Por Jarid Arraes, Quando um vídeo da artista de música periférica Yzalú viralizou pela primeira vez, houve muita comoção entre as integrantes dos movimentos feministas: a música “Mulheres Negras” – composta pelo Eduardo da Facção Central – serviu como uma espécie de bandeira...

Por Jarid Arraes,

Quando um vídeo da artista de música periférica Yzalú viralizou pela primeira vez, houve muita comoção entre as integrantes dos movimentos feministas: a música “Mulheres Negras” – composta pelo Eduardo da Facção Central – serviu como uma espécie de bandeira musicada, trazendo em sua letra muitas pautas e reivindicações políticas, com uma interpretação emocionante para as mulheres negras que assistiam o vídeo. Esse episódio despertou em diversas pessoas a curiosidade de conhecer Yzalú mais a fundo, que conquistou fãs em vários cantos do Brasil com sua musicalidade, acima de tudo, política.

Yzalu  (Foto: Divulgação)

A artista, nascida na periferia de São Paulo, começou a criar música aos 16 anos, após um período de “bloqueio criativo”, e explica que tudo aconteceu por causa de sua mãe: “meu interesse pela música surgiu através dos vinis que minha mãe tinha em casa, enquanto ela saia para trabalhar eu ficava fuçando, tinha muita coisa, eu me lembro, desde Bezerra da Silva a Djavan. O primeiro vinil que coloquei para tocar foi ‘Dignidade’ da Leci Brandão”.

Yzalú conta feliz que nunca sofreu discriminação por abordar a temática de gênero em suas músicas, mesmo trazendo um elemento diferente para o RAP com a introdução do violão. Além disso, ela se mostra otimista diante da colaboração e aceitação dos homens do hip hop, definindo sua relação como de sensibilização com a causa. “Existe sim uma colaboração, mas eu e parceiras do hip hop como Amanda NegraSim, Cris SNJ Preta Feminina, Lua Rodrigues, Stefanie Roberta, Karol Realidade Cruel, Shirley Casa Verde, Dory de Oliveira, Karol Conká, entre outras minas, queremos mostrar a mulher dentro do hip hop como uma peça natural desta cultura. Não há mais interesses por cotas pois, mesmo com a nossa feminilidade, temos muita competência musical, e, para nossa felicidade, tem funcionado muito bem, os caras têm assimilado isso e evoluído muito nesse tema”.

Já na sociedade como um todo, o panorama não é tão positivo. A cantora é profundamente consciente das questões sociais que perpassam a negritude e o gênero – e não poderia ser diferente, pois não tem medo de declarar-se feminista. “Eu e todas as mulheres da favela, da periferia, principalmente as Mulheres Negras, são feministas sem saber que são, pois lutam muito todos os dias para alimentar seus filhos, não abaixam a cabeça quando se veem em situações humilhantes ao visitar seu filho na cadeia”.

Mas há certos pontos a se pensar. Yzalú diz que sua audiência feminista é composta de mulheres da periferia, que compartilham a mesma realidade. Na letra da música “Mulheres Negras”, ela declara incisivamente as diferenças entre o Feminismo Branco e o Feminismo Negro, trazendo para seu holofote as pautas negligenciadas e invisibilizadas das mulheres negras, trabalhadoras e pobres. Para além da arte, há muita consciência e propriedade sobre o que Yzalú fala e acredita, pois ela responde de maneira simples questões que poderiam ser intencionalmente emaranhadas por uma abordagem acadêmica. Para ela, ser mulher negra é algo inseparável da sua identidade, já que seu processo de conscientização envolveu, necessariamente, a sua experiência pessoal.

“Passei por muitas situações em minha vida, tive uma rotina discriminatória grande e, sem mesmo saber o que estava fazendo, totalmente contaminada pelos padrões da beleza midiática e eurocentrista, como um zumbi mesmo, busquei em um momento, de forma inconsciente, me enquadrar nos padrões desta classe dominante para poder ser aceita. Porém, sempre percebi que os olhares sobre mim e a tratativa eram diferentes de outras mulheres que tinham os padrões naturais aceitáveis para esta sociedade. Foi aí que comecei a entender toda a teia que desde a senzala teceram para nós. Se nos rendermos à teia, seremos sempre subalternas através dos olhares dessa supremacia, mas quando a desfazemos, enxergamos de forma transparente a ira da derrota”.

Suas palavras são tocantes porque são genuínas e Yzalú não tem medo de convocar as mulheres para esse enfrentamento político. Ela percebe que há uma cobrança para que artistas negros e do hip hop sejam politizados e militantes, mas reforça a importância disso: “é fato que não temos opinião para tudo, mas acredito que seja de extrema importância a informação. Precisamos estar atentos aos fatos, pois o público do RAP é um público extremamente inteligente, diferente dos outros gêneros, eles sabem de cor e salteado uma música de 9 minutos e buscam a informação sobre o que a música fala, a informação e politização faz parte da cultura hip hop e não podemos fugir disto.” Para muitas feministas negras, esse posicionamento é um alívio, pois a idealização da artista ativista está congruente com a sua realidade e com a sua prática diária. Em vários casos, a militância cria expectativas e termina em frustração, mas embora ninguém seja perfeito, Yzalú não decepciona com sua militância.

Segundo Yzalú, seu primeiro CD será lançado ainda em 2014, além de 3 vídeos nos próximos 5 meses. E as boas notícias não param por aí: o convite para o lançamento não está limitado somente à redação da Revista Fórum e as intimações não se restringem ao campo artístico, pois Yzalú, mulher negra feminista e periférica, convoca: “Irmãs, vamos abrir os nossos olhos, vamos acordar para tudo o que nos rodeia, o ato de coragem é uma porta que se abre para a liberdade, para o futuro que se inicia de forma aliviadora em nossas vidas. Não continuemos acorrentadas em nossa mente, sejamos libertas definitivamente”.

 

O livro da blogosfera em defesa da democracia - Golpe 16

Golpe 16 é a versão da blogosfera de uma história de ruptura democrática que ainda está em curso. É um livro feito a quente, mas imprescindível para entender o atual momento político brasileiro

Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.


Join the Conversation