Sexo e as Nêga e Globeleza: o machismo racista histórico

Por Jarid Arraes As críticas contra a Rede Globo feitas pelos movimentos negro e feminista nem sempre são bem compreendidas. Muitos acham as demandas exageradas para algo que deveria ser só uma forma de entretenimento – a suposta solução seria simplesmente “não assistir”...

Por Jarid Arraes

As críticas contra a Rede Globo feitas pelos movimentos negro e feminista nem sempre são bem compreendidas. Muitos acham as demandas exageradas para algo que deveria ser só uma forma de entretenimento – a suposta solução seria simplesmente “não assistir” aos programas. O problema é que o prejuízo causado não deixa de existir por causa das pessoas que se recusam a prestigiar o canal; pelo contrário, a omissão daria legitimidade a qualquer tipo de preconceito e reprodução ofensiva exibida em rede nacional.

Ao se recusarem a colaborar com o preconceito, as mulheres negras rompem qualquer passividade e revidam contra produtos ofensivos, como a série “Sexo e as Nêga” e o concurso carnavalesco “Globeleza”. A série é recente, obra de Miguel Falabella – que tem sido representado pela mídia como injustiçado e incompreendido -, enquanto o concurso já vem há muitos anos exibindo mulheres negras como símbolos do carnaval, apesar de ter se envolvido neste ano em uma polêmica que escancara o racismo no Brasil.

A controvérsia envolvendo a imagem da Globeleza aconteceu quando a vencedora do concurso mais recente, a carioca Nayara Justino, começou a sofrer ataques racistas e machistas do público. Uma das principais razões que motivaram a rejeição sofrida pela moça é a cor da sua pele, considerada “escura demais” por muitos dos seus agressores.

Nayara concedeu uma entrevista ao portal Extra, onde afirmou estar em depressão e não compreender tamanha rejeição, já que foi eleita Globeleza justamente pelo voto popular. A verdade é que não é a primeira vez que uma situação como essa acontece, uma vez que a cultura racista e machista é histórica e se apropria do corpo da mulher negra, expondo-o como exótico e pecaminoso. Aliás, o carnaval, com seu estereótipo de sexualidade promíscua, é o único momento oferecido para que as mulheres negras sejam associadas ao conceito de “beleza”. Trata-se de uma força distorcida, baseada na segregação.

Não é por acaso que a série de Falabella reproduz todos esses paradigmas sobre as mulheres negras, representando-as como hipersexuais, sempre disponíveis para o sexo, com uma clara tentativa de mascarar essa objetificação como autonomia ou independência. A cada novo episódio da série, a convicção de que o produto é racista e machista se torna mais concreta. No último episódio, que tentou abordar o tema “preconceito”, Falabella chegou ao cúmulo de fazer a mulher negra ser discriminada racialmente por um homem negro, que pede desculpas e, claro – na lógica do diretor, acaba sendo perdoado na cama, fazendo sexo com a mulher que discriminou.

Lamentavelmente, muitos continuarão tendo dificuldade para ligar os pontos e fechar o raciocínio. Várias pessoas ainda não enxergam o racismo e o machismo presente nos programas globais e, por isso, é de extrema urgência que protestemos e usemos nossas ferramentas, tal como a escrita, para destruir estereótipos que reduzem a mulher negra à posição de objeto sexual.

O fato é que as mulheres negras são diversas e plurais, cada uma com sua própria subjetividade e suas próprias aspirações. É preciso haver no entretenimento uma representatividade digna, que não nos limite a um único papel, que reconheça nosso talento, inteligência e nossa capacidade de atuar nas mais diversas áreas. Sexo e as Nêga e Globeleza nada mais são do que propagandas da mentalidade escravista que explora sexualmente mulheres de cor negra. Quer compreendam ou não, as críticas se tornarão cada vez mais incisivas.

Foto de capa: Reprodução

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