Ser negro ou não ser: a questão de Caio e de todo o Brasil - Questão de Gênero

Ser negro ou não ser: a questão de Caio e de todo o Brasil

Nessa terça (05), o namorado da Youtuber Jout Jout, Caio, sentou-se em frente às câmeras para levantar alguns questionamentos sobre a sua identidade racial e sobre a forma como os brasileiros encaram esse assunto. A reflexão foi motivada por atos de racismo de alguns...

Nessa terça (05), o namorado da Youtuber Jout Jout, Caio, sentou-se em frente às câmeras para levantar alguns questionamentos sobre a sua identidade racial e sobre a forma como os brasileiros encaram esse assunto. A reflexão foi motivada por atos de racismo de alguns seguidores do canal após “descobrirem” que Caio não era branco. E tudo isso se tornou muito relevante não apenas pela importância dessa questão, mas também porque o canal da Jout Jout é seguido por milhares de pessoas.

skintones

No vídeo, Caio fala que toda a discussão o pegou de surpresa, já que não se considerava negro, mas sim pardo. Caio chegou até a falar com o marido da mãe, que é um homem negro de Guiné-Bissau, e o mesmo se mostrou confuso, porque também não considerava Caio negro. Por outro lado, muitas outras pessoas o identificaram como negro, com todas as cinco letras e até mesmo algum superlativos.

Para entender a relação dos brasileiros com a questão da identidade racial, é preciso entender também um pouco da nossa História. Aqui, além dos séculos não tão distantes em que a escravidão de pessoas negras era considerada uma coisa boa, houve uma forte corrente eugenista que pregava o branqueamento da população como uma forma de “melhorar a qualidade” da população brasileira. Segundo essa corrente, que foi muito popular, o ideal seria misturar as raças até que a população fosse clareada e, assim, se aproximasse ou se tornasse o exemplo perfeito de ser humano: o branco.

Além disso, milhares de mulheres negras escravizadas eram estupradas pelos homens brancos que eram seus senhores. A miscigenação brasileira pode até ter um tom positivo hoje em dia e uma crença de que ela mostra nossa boa convivência, mas na realidade, sobretudo no período da escravidão, essa miscigenação se baseava em fatores de sofrimento e violência.

Vale ressaltar que estamos falando de raça sob o conceito sociológico e que o Brasil tem sua própria história, que embora seja similar a outros países colonizados em muitos pontos, também tem suas peculiaridades e questões específicas. Por isso somos tão diferentes dos Estados Unidos – onde pessoas negras também foram escravizadas, mas em que não ser 100% branco significa que você já pertence a outra identificação racial. Nos Estados Unidos, pessoas negras bastante claras são consideradas negras e quando essas pessoas se afirmam como negras, nem de longe recebem tantos questionamentos como pessoas negras de pele clara recebem no Brasil.

Aqui, temos uma vasta quantidade de material disponível para compreender melhor a identidade racial no Brasil. Temos livros como “Tornar-se Negro”, de Neuza Santos Sousa e “Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil” de Kabengele Munanga. Também dispomos de artigos acadêmicos, teses de mestrado e doutorado e textos jornalísticos que podem contribuir para compreendermos essa complexa equação.

A profundidade do assunto é inegável. Como disse Caio em seu vídeo, talvez o fator de se sofrer racismo não seja o ideal e tampouco mandatório para que as pessoas “pardas” se considerem negras; hoje, devido à força e recorrência do racismo, a ideia de que a experiência do racismo faz parte da identificação racial é muito presente. E de fato, é triste que a identidade negra esteja tão atrelada ao racismo. Infelizmente, o Brasil também é um país que não valoriza, não espalha e não menciona as diversas culturas africanas como boas referências. Enquanto tantas pessoas com famílias de origem italiana, alemã, libanesa ou japonesa conhecem suas raízes, tradições, festas, roupas, costumes e comidas, o fator negro continua muito esquecido, somente aparecendo vagarosamente após a Lei 10.639/03, que obriga – na teoria – o ensino de História e Cultura Afrobrasileira nas instituições de educação.

A maioria das pessoas negras no Brasil continuam até hoje sem ter pistas das suas origens. Não sabem se seus antepassados vieram da Nigéria, da Angola, do Congo ou de outro entre os muitos países da África. Os nomes e sobrenomes das pessoas que foram trazidas escravizadas para o Brasil foram modificados assim que elas pisaram os pés na madeira dos navios negreiros ou nos cais do Brasil. Nomes cristãos e brancos entraram em cena, apagando grande parte de nossas referências.

Portanto, a questão da identidade racial no Brasil é também uma questão de grande injustiça e desvantagem. Com os movimentos sociais de combate ao racismo, parte dessa identidade começou a ser construída e fortalecida, mas ainda temos muito caminho pela frente.

Isso não quer dizer que toda pessoa parda seja negra, até porque também temos a origem indígena nesse quadro, que também passou por genocídio e enfrenta, até hoje, racismo terrível. No entanto, para mim uma coisa é certa: é muito bom conhecermos nossas origens e nossa História. Precisamos de conhecimento para compreender nosso lugar no mundo, principalmente o lugar que está cercado de política, violência e racismo.

Podemos ultrapassar os conceitos de pureza racial, a ideia de que a pele negra só tem um tom bastante escuro e a falsa noção de que vivemos em um país onde não existe racismo – ou raças no sentido sociológico – só porque somos muito miscigenados. E para começar essa jornada, podemos fazer buscas rápidas no Google. Algumas palavras-chave e todo um novo mundo de conhecimento pode se revelar.

Que Caio e todos os outros interessados mergulhem nessa proposta.

 

Conheça o livro “As Lendas de Dandara”: http://www.aslendasdedandara.com.br


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4 comments

  1. Raphael Reply

    Passo diariamente pela mesma coisa. Tenho pele relativamente clara, mas muito distinta da cor branca, além disso, meus lábios, por exemplo, dão indícios que tenho fortes traços africanos. Me autodeclaro pardo, embora muitos amigos, incluindo parentes, contestem, chegado ao ponto ridículo de dizerem que faço isso porque quero cotas, ou ainda que não tenho o direito de afirmar a qual raça pertenço por nunca ter sofrido preconceito. Já andei pesquisando sobre meus antepassados, porém, pouca coisa encontrei. Sei que minhas origens são um mix de cafeicultores ricos, indígenas e escravos. Prudente de Morais, por exemplo, é meu primo. Infelizmente, a família só se orgulha de saber a história dele, enquanto a descendência africana e indígena foi apagada. Estudo diariamente para ver se encontro algo, nos últimos meses encontrei já alguns documentos sobre meus traços indígenas, mas ainda continua sendo um trabalho difícil. Você deve saber como é uma ferida para uma família tipicamente classe média, à qual se acha aristocrática a todo custo, assumir que a história não é bem assim. Enfim, depois de tudo que passei, de tudo que compreendi até aqui, passei a me autodeclarar pardo sim e com orgulho. Independente de não sofrer preconceito ou de não estar em uma situação econômica favorável, sou pardo sim, aliás, talvez o primeiro a dizer isso e ter orgulho na minha família. Sou pardo por toda opressão que meus antepassados tiveram, não tendo nem o direito de serem lembrados pelos gerações posteriores. Mas se tudo der certo, descobrirei mais sobre eles nos próximos anos e, se um dia tiver filhos, farei questão de ensiná-los sobre seus antepassados.

  2. Lenice Reply

    Parabéns, Raphael , por ser tão autêntico , corajoso e com espírito de pesquisador ! A Antropologia , a Genética e a História , são ciências que nos ajudam a entender o mundo e como estamos inseridos nele ! E nos oferecem o conhecimento de nossa ancestralidade , que no começo dos tempos , gostem ou não os racistas , teve seu início na Africa !!!