Marina Silva – de mulher negra seringueira ao conservadorismo das elites

Tenho postado aqui na coluna Quilombo não só artigos de denúncia do racismo – até porque muitas informações já são mais que conhecidas pela grande maioria da sociedade e só não vê o racismo no Brasil quem é cego ou finge não enxergar – mas principalmente críticas a determinadas personalidades afrodescendentes que ascenderam a determinados cargos e, por conveniências ou opções, mudaram o seu discurso.

Quando faço estas afirmações em hipótese alguma estou questionando o mérito destas personalidades ou desejando que elas – e todos nós – fiquemos sempre no andar de baixo. Inclusive porque muitas destas personalidades afrodescendentes, quando deixam de interessar ao sistema, são simplesmente descartadas e todos os mecanismos de opressão racial atuam para colocá-las no ostracismo. Cito um caso de um político negro conservador – Celso Pitta- que foi prefeito da maior cidade do país, apoiado pela direita malufista paulistana e talvez seja um dos raríssimos casos de “político corrupto” que morreu na miséria. E um dos principais artífices da chamada “Máfia dos Fiscais”, escândalo que atingiu o governo Pitta, simplesmente é hoje o dirigente de um partido conservador que faz parte da base do governo: o ex-prefeito Gilberto Kassab, que foi secretário das subprefeituras durante o escândalo dos fiscais na gestão Pitta.

Nos anos 1990, quando eu ainda militava em uma organização do movimento negro, uma das nossas ações era dar um corte racial no mandato de um vereador negro de esquerda em São Paulo, o ex-dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Eustáquio Vital Nolasco. Naquela época, teve grande contribuição neste corte racial o seu assessor de gabinete, o jornalista Juarez Tadeu de Paula Xavier, hoje professor da Unesp/Bauru, e naquela época, dirigente desta organização que ajudou a fundar em São Paulo nos anos 1990. Uma das primeiras ações do gabinete do vereador Vital Nolasco foi conceder o titulo de cidadão paulistano a tres personalidades importantes da luta antiracista: o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, que esteve em visita ao país logo após os acordos que puseram fim ao regime do apartheid; e as primeiras mulheres senadoras negras, eleitas pelo PT, Benedita da Silva e Marina Silva.

Marina Silva representava, no imaginário popular, a tenacidade e a luta contra a opressão de classe, gênero e etnia. Seringueira, lembrou, na ocasião do recebimento da comenda na Câmara Municipal de São Paulo, da luta de Chico Mendes em defesa dos direitos dos povos da Floresta. Falou das dificuldades de uma mulher negra se colocar como sujeito ativo no processo político, enfrentando o machismo e o racismo. E se apresentou como uma representante da luta pelas equidade social, de etnia e de gênero.

Não é essa Marina Silva que estamos vendo recentemente. Não pela sua opção de romper com o PT e depois com o PV ou mesmo querer construir um outro partido, a Rede de Sustentabilidade. Mas pelas posições que vem afirmando publicamente. As declarações dadas por Marina ao Diário de Pernambuco, comentadas aqui pelo meu colega Renato Rovai, em defesa de Marco Feliciano são preocupantes.

Quem poderia imaginar Marina Silva, aquela mulher negra senadora que mereceu ser homenageada pelo movimento negro em São Paulo, defender um deputado que considera que os afrodescendentes merecem a situação que vivem por que são descendentes de um filho de Noé amaldiçoado por Deus? Argumento semelhante dado pela Igreja Católica durante a colonização de que os negros poderiam ser escravizados e tratados como coisa porque não “tinham alma” (por não serem cristãos).

É esta Marina Silva que na última eleição ficou em terceiro lugar no seu estado (Acre) e teve suas melhores votações nos distritos de classe média e média-alta de Rio e São Paulo. A conveniência fez a ex-senadora negra e seringueira ter como eleitores pessoas que, na sua grande maioria, são contra os direitos das domésticas, são contra cotas e contra qualquer processo de inclusão social. Não se trata de opção religiosa e sim ideológica.

Não considero que todo negro e negra tem que ser de esquerda. Mas a direita brasileira, as elites brasileiras são tão impregnadas do racismo que há uma forte tendência de uso instrumental de personalidades negras que aderem a este espectro ideológico – e sempre depois de utilizado, o destino é como bagaço de laranja: jogar no lixo.

 









Golpe 16 - O livro da blogosfera em defesa da democracia

Golpe 16 é a versão da blogosfera de uma história de ruptura democrática que ainda está em curso. É um livro feito a quente, mas imprescindível para entender o atual momento político brasileiro

Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.




Comentários

9 comments

  1. Lucas Coelho Responder

    Sensacional, professor!

  2. elvis gimenes Responder

    discordo de sua colocação no tocante a Igreja Católica defender a tese da falta de alma aos negros para justificar a escravidão. A Igreja como instituição jamais ministrou este ensinamento ou tese. Esta tese foi levantada por um padre espanhol, que agora me foge o nome, e que foi amplamente divulgado pelos senhores de escravos. Ninguém lutou mais pela independencia dos índios e negros que os jesuitas, tanto que foram perseguidos pelos reis de portugal e espanha. No mais, concordo plenamente.sempre soube que Marina que luta que todos saiam da pobreza, mas sim por ela própria. ela queria e se tornou ‘elite’, sente orgulho disto e serve aqueles a quem entende que faz parte do mesmo npivel social dela.

  3. Lucas Siqueira Responder

    mentiras e mais mentiras, distorcer a verdade, que nível tão baixo ”jornalista”

    para aqueles que querem saber a opinião dela aqui está o vídeo

    http://www.youtube.com/watch?v=nPMBwsoZnp8

    1. dennisoliveira Responder

      Não tem nada de mentira. Ao colocar que existe um preconceito contra a religião evangélica e considerar “equívocos” as posições de Marco Feliciano, a senadora inverte situações de acordo com sua conveniência. As posições do presidente da Comissão de Direitos Humanos, Marco Feliciano, não são equívocos, são posições inaceitáveis para quem preside uma comissão chamada de “Direitos Humanos e das Minorias”. Além disto, é totalmente equivocada a posição da ex-senadora em relação ao Estado laico. De fato, o Estado laico é para garantir a plena liberdade de expressão religiosa, mas os agentes do poder público – como é o caso de um parlamentar – não pode usar convicções religiosas (que são de fóro íntimo e particular) para ditar suas ações como pessoa pública. Seria a mesma coisa que o prefeito de São Paulo, que é cristão ortodoxo, defender que na cidade se utilize o calendário dos ortodoxos.

  4. Messias Franca de Macedo Responder

    A OPOSIÇÃO AO BRASIL TRANSFORMANDO-SE EM MOLHO DE TOMATE ESTRAGADO! ENTENDA

    #########################

    BARBOSA PREVÊ VITÓRIA DOS RÉUS SOBRE EMBARGOS

    Presidente do STF já conta com o fato de que ao menos cinco ministros pensam diferente dele na questão dos embargos infringentes; ou seja, se metade do plenário decidir que cabe esse tipo de recurso no caso de Delúbio Soares – o primeiro a recorrer -, o placar de empate é favorável aos réus; sem contar que ainda seriam escolhidos novos relator e revisor, praticamente um novo julgamento, com grandes chances de vitória aos acusados

    NO RECIFE, MARINA SILVA SAI EM DEFESA DE MARCO FELICIANO

    “Feliciano está sendo mais hostilizado por ser evangélico que por sua declarações equivocadas”, declarou a ex-ministra, sobre o deputado do PSC e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara; segundo ela, o que se verifica é a substituição de um preconceito por outro; “Hoje, se tenta eliminar o preconceito contra gays substituindo por um preconceito contra religiosos

    ###################

    LÁ ISSO É OPOSIÇÃO, sô?!…

    República Desses(as) Bananas
    Bahia, Feira de Santana
    Messias Franca de Macedo

  5. Hider Responder

    Excelente artigo,
    Esse discurso elitista-puritano me preocupa muito, pois até pessoas que sofreram com a descriminação sócio-racial, muitas vezes por ignorância dos fatos, acabam por defender com unhas e dentes esses pensamentos manipulados principalmente pela TV.

  6. Felipe Afonso Responder

    O último parágrafo não considerou a questão politização do cidadão. Aqui no rio de janeiro há 4 perfis bem distintos: o religioso analfabeto político que vota em religioso, o não-religioso analfabeto político que vota na situação, o rico que vota na direita e uma classe média politizada que vota consciente. Nas últimas eleições esta última se concentrou na tijuca, sul do centro e norte do zona sul.

  7. jose silva Responder

    Quando estava no PT, soube que ela já era questionada por suas ideias conservadoras, mas nunca imaginei que fosse parar no colo do Aécio Neves. O burguezinho e a seringueira neoliberal! Quem diria!
    Quando ao racismo, tenho a declarar que me causa nojo a existência de clubes sociais que só aceitam brancos em seu quadro social. Sou branco, mas sempre tive amigos negros. Penso que é preciso yomar neste assunto dos clubes sociais de brancos, logo racistas. Em cidades do interior – de qualquer estado – é muito frequente existir clubes sociais que vetam a entrada de negros. Pergunto se o distinto blogueiro pretende tratar deste assunto no seu blog.
    Um abraço!

  8. José Silva Responder

    Quando estava no PT, soube que ela já era questionada por suas ideias conservadoras, mas nunca imaginei que fosse parar no colo do Aécio Neves. O burguezinho e a seringueira neoliberal! Quem diria!
    Quando ao racismo, tenho a declarar que me causa nojo a existência de clubes sociais que só aceitam brancos em seu quadro social. Sou branco, mas sempre tive amigos negros. Penso que é preciso yomar neste assunto dos clubes sociais de brancos, logo racistas. Em cidades do interior – de qualquer estado – é muito frequente existir clubes sociais que vetam a entrada de negros. Pergunto se o distinto blogueiro pretende tratar deste assunto no seu blog.