Nelson Mandela, o líder político contra o racismo

Nelson Mandela é um ícone da luta contra o apartheid, contra o racismo e pelos direitos humanos. Por isto, virou uma unanimidade. Assim, neste momento de homenagens ao grande líder, cada um lê a sua trajetória da forma que mais lhe convém. Muitos querem exaltar a sua personalidade de “conciliador”, “que sabia perdoar”, numa perspectiva moral e cristã. Citam como exemplo disto, o fato de Mandela ter sido um dos líderes do grande acordo que pôs fim ao apartheid.

Esquecem, entretanto, que este acordo só foi possível porque, em determinado momento, o CNA (Congresso Nacional Africano) optou pela rebelião armada por meio do grupo “Lança da Nação” (com apoio de Mandela) em função dos canais institucionais e de negociação estarem totalmente fechados. Esquecem também que o acordo só saiu porque o regime do apartheid ficou isolado mundialmente por conta da grande campanha mundial tocada pelos movimentos sociais que denunciaram as atrocidades do regime segregacionista. Assim, a negociação saiu por conta da “pressão” política – exercida, inclusive, pela rebelião armada – que não deu outra opção ao regime de segregação de fazer um acordo.

Por isto, Mandela é, antes de tudo, um grande líder político, que foi capaz de fazer as leituras de cada momento e propor as opções mais adequadas em cada um destes momentos, seja a rebelião armada, seja a luta institucional, seja a negociação. Negociações ocorrem somente por pressão e não apenas porque um dos lados é “bonzinho”. Comparar Mandela a De Klerk, por exemplo, é um desatino – como foi o caso quando premiaram ambos com o Nobel da Paz em 1993. De Klerk, último presidente do regime de segregação, só tocou o processo de negociação porque estava isolado, sem opções e, assim, “cedeu o anel para não perder os dedos”. E isto foi feito precedido da eliminação de lideranças radicais do CNA para que estas não pudessem incentivar projetos de ruptura mais radical, como foi o caso do assassinato do vice-presidente do CNA, Chris Hani, que também era dirigente do Partido Comunista da África do Sul e tido por muitos como sucessor de Mandela.

Esta imagem apolínea de um Mandela pacífico pode criar uma aura de “simpatia” ao “bom velhinho”, mas reduz drasticamente quem foi o líder do CNA: um bravo batalhador pelos direitos humanos, um combatente tenaz contra o regime do apartheid e a dominação branca na África do Sul. A sua identidade negra expressava-se, por exemplo, quando ele dançava nas cerimônias públicas, já como presidente, no mesmo ritmo que os jovens de Soweto e com o seu desejo de ser enterrado nas montanhas, próximo ao local onde nasceu. Identidade esta reconhecida com as homenagens que o povo sul-africano lhe prestam neste momento, também dançando em frente a sua casa, dando o recado que a luta por uma África do Sul mais justa continua firme e forte.

Jovens sul-africanos dançam em frente a casa de Mandela dando o último adeus ao grande líder da luta contra o apartheid.

P.S. – Só para lembrar que a Naspers, empresa sócia da Editora Abril, que edita a revista Veja que com certeza vai prestar homenagens ao “pacifista” Mandela”, fou uma das maiores apoiadoras do apartheid.