Folha, cotas e a jogada de marketing - Quilombo

Folha, cotas e a jogada de marketing

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O jornal Folha de S. Paulo lançou uma campanha publicitária semana passada e, entre as várias peças, há uma que destaca o posicionamento do jornal contra as cotas raciais. Posicionamento compartilhado por uma modelo negra. Esta peça publicitária do jornal despertou a revolta de várias lideranças do movimento negro, principalmente nas redes sociais.

Gerar polêmicas é uma velha estratégia da Folha de S. Paulo. Neste caso, há uma bem inteligente montagem que acabou por transferir a polêmica para dentro do movimento negro. E exatamente este o objetivo da estratégia de marketing do jornal. E como foi feito isto?

1o.) Usando a polêmica das cotas raciais. Que o jornal é contra as cotas raciais, até o mundo mineral (como costuma dizer o jornalista Mino Carta) sabe. Isto já foi expresso em editoriais. Por si só, isto é explosivo, pois é um assunto que ainda gera polêmicas imensas. Se há quase um consenso de que existe racismo no Brasil, ainda existem muitas resistências em enfrentar o racismo por meio de políticas públicas específicas. Isto porque há uma apropriação ideológica do sentido de racismo como uma mera manifestação pontual de comportamentos desviantes. Assim, racismo é alguém ofender ou agredir racialmente uma pessoa, mas não uma instituição (como a universidade pública) dificultar o ingresso de negros e negras nas suas fileiras.

2o.) Usando uma mulher negra para ser contra as cotas. Aí entra a grande jogada esperta da Folha: ao colocar isto, ela passa a mensagem de que não é consenso entre os negros e negras a defesa das cotas e que ela, a Folha, está acima de “clivagens raciais” e representa também a opinião de negros e negras que são contra as cotas. Em outras palavras, que a Folha é “mais tolerante racialmente” que o próprio movimento negro que “não admitiria” negros e negras contra as cotas.

E tem sido justamente isto o que ela tem conseguido quando se observa a polêmica radicalizada nas redes sociais, chegando ao nível da ofensa pessoal, com relação a este assunto.

A mesma estratégia o jornal utilizou no tema do massacre do Estado de Israel na Faixa de Gaza. Publicou um artigo de Ricardo Bonalume, que  defende a criação de um estado único pluriétnico na região, com judeus e palestinos (o que implicaria no fim do Estado de Israel) e isto gerou polêmicas acirradas entre os leitores, na coluna da ombudsman e, finalmente, foi coroada com um artigo-resposta do cônsul de Israel no domingo.

Imaginem como o jornal foi falado neste tempo todo. É exatamente este o objetivo.

Neste debate todo, sempre se ressalta o tal direito de opinião, liberdade de expressão, etc. É muito positivo que a reivindicação de direitos esteja presente nos debates. Entretanto, penso que em alguns momentos, confunde-se “direito” com “desejo”. Nem todo desejo se configura em um direito legítimo. Você pode desejar que determinada pessoa não expresse sua opinião, mas não tem o direito de silenciá-la. Ou então você pode desejar que todos concordem com você, mas não tem o direito de ofender as pessoas que discordem ou ainda falsear informações para sustentar uma posição. Isto é importante principalmente para quem expressa publicamente posições via órgãos de comunicação ou redes sociais.

No caso da Folha de S. Paulo, o jornal tem todo o direito de expressar suas posições. Não tem o direito, entretanto, de se apresentar falsamente como um jornal plural quando se percebe a prioridade dada a determinadas fontes, a certas pautas, a angular os assuntos por meio de manchetes editorializadas.

E, nós, do movimento negro, é importante entendermos estas estratégias de marketing das empresas de comunicação. Para justamente não fazer o jogo que elas querem que a gente faça.

O livro da blogosfera em defesa da democracia - Golpe 16

Golpe 16 é a versão da blogosfera de uma história de ruptura democrática que ainda está em curso. É um livro feito a quente, mas imprescindível para entender o atual momento político brasileiro

Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.

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6 comments

  1. Washington Reply

    Augusta De Souza Novaes, para alguém “estudada”, parece que você terá que estudar um pouco mais para conseguir analisar um fato controverso (no que tange a quem é contra é claro) como as cotas raciais. Primeiro que na investigação de um fenômeno de qualquer natureza é de conhecimento ciêntifico e até mesmo do bom senso que se trabalha com conjunto de amostras e não com as exceções do conjunto; sendo assim o acaso de um Joaquim Barbosa ter vindo de origem humilde e ser negro e chegar onde chegou ou o seu tio avô ter chegado a terceiro juíz de direito (dentro das mesmas condições de segregação eu imagino?!), não lhe sustenta sua infeliz filosofia de igualdade em julgar milhares de outros que infelismente não tiveram a sorte e nem a força que aqueles que fazem parte das exceções da regra tiveram, até por isto são exceções; não existe justiça quando se usa as exceções para defender uma opinião, ainda mais grave vindo de uma “filósofa” que deveria fazer o exercicios de instigar todas as variáveis circurtânciais e não usar suas referências familiares como se o universo girasse em todo do seu tio avô negros e mais alguns negros que se sobressairam mesmo com toda a dificuldade imposta por um sistema racial, o que só prova que sempre haverá aqueles que irão furar o bloqueio, mas estes são a minoria e fatores como sorte e personalidade não é o cerne da questão em discursão e sim as injustiças impostas aos excluídos (negros) durante o processo de desenvolvimento do país; sugiro que volte lá nos bons livros de história (eu disse os bons heim), comece pelas capitanias hereditárias, talvez você tenha perdido algumas aulas e não se lembre!!

    1. Augusta Cristina Reply

      Washington, esta é a minha posição política. Ela é tão relevante quanto a sua. Lamento por você… mas é. A isso se chama democracia.

    2. Augusta Cristina Reply

      Washington, minha posição política é tão relevante quanto a sua. Lamento por você, mas isso se chama democracia.

  2. Márcio Reply

    Faço uma pergunta à Sra Augusta de Souza Novaes: Ao citar sua família e sua história de vida, você está falando de regra ou exceção? Se disser que isso é comum a qualquer família de negros que tenha vontade e esforço para superar as injustiças que sofre e sofrera historicamente? Se provar que isso é somente coisa da cabeça do negro? Eu também faço como você e não defendo mais a compensação histórica.

  3. renato Reply

    Sou a favor das Cotas…ponto final.
    Se precisar é só me chamar..