O que há de comum na grosseria de Levy Fidelix e na indignação da mídia quando é criticada por ser racista

O discurso violento homofóbico de Levy Fidelix no debate da Record infelizmente não é algo isolado. Ele representa uma parcela significativa da sociedade brasileira, minoritária, mas que tem peso, que não só perdeu qualquer prurido de expor o seu pensamento arcaico como reivindica o direito democrático de liberdade de expressão para expô-lo. No mesmo diapasão, vão também os discursos racistas e machistas proferidos toda vez que negros, negras e mulheres reivindicam ações afirmativas ou criticam ações preconceituosas de pessoas ou da mídia.

Já disse em outros momentos, inclusive na última eleição presidencial, que havia um crescimento na visibilidade do conservadorismo mais tacanho no Brasil. A campanha fundamentalista e pseudo-moralista do ex-exilado político José Serra no segundo turno de 2010 teve como objetivo captar este sentimento. Figuras como Silas Malafaia que, de repente, viraram personalidades políticas, encarnam este posicionamento.

O que vem acontecendo nos últimos tempos é um acirramento de um debate que sempre foi represado no Brasil. A república brasileira foi construída com base em uma concepção seletiva e não universal de cidadania. O “iluminismo” daqui era para alguns que se consideravam iluminados. Por isto, a questão do racismo é estrutural e não marginal na sociedade brasileira. E a dificuldade de enfrentar este problema se revela no momento em que negros, negras, mulheres e homossexuais começam a exigir os seus direitos de cidadania. O que estes segmentos querem nada mais é que terem os mesmos direitos que brancos, brancas, homens e heterossexuais. Direito ao trabalho, às oportunidades, ao reconhecimento civil das uniões afetivas, à vida, enfim. Contra a violência de todas as formas, sejam físicas ou psicológicas.

Democracia só existe quando há plena equidade de direitos civis, sociais, econômicos e políticos. Isto implica em mudança nas relações sociais e não se trata apenas de leis. O que significa que aqueles que são privilegiados, seja por serem brancos ou homens ou heterossexuais tem que abrir mão destes privilégios para viver em clima de equidade. Reivindicar o direito de expressão para manter privilégios não tem nada de democrático.

Miguel Falabella, irritado, disse que as críticas ao seu seriado “O sexo e as nêga” estão matando a criatividade da ficção. Ao dizer isto, quer associar produção criativa a uma visão preconceituosa e distorcida da realidade. Não consegue ver o mundo para além da sua condição de privilégio racial branco.

Levy Fidelix ao dizer que atacar os homossexuais é “defender a família”, demonstra a sua obtusidade de não ver a família para além da sua concepção de heterossexual.

Profissionais de propaganda que insistem em usar a mulher ou como dona de casa ou como objeto sexual para vender produtos, sob a alegação de que “é isto que o público gosta” não querem olhar além de um mundo de privilégios masculinos.

Comentários em posts que criticam homofobia, racismo e machismo sempre alegam o seu direito de liberdade de expressão. Mas democracia não é poder fazer o que quer. Pois, há alguma coisa errada quando se reivindica liberdade para poder agredir o outro.

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