Chico
de Oliveira, 68 anos, é um dos mais respeitados intelectuais
brasileiros. É da turma que fundou o Cebrap, entidade que presidiu, e
estuda há anos as relações políticas e econômicas na América
Latina. Diferente de boa parte daqueles que se debruçam para analisar o
Acordo de Livre Comércio das América, acredita que o assunto não vai
ter a centralidade que se imagina nos próximos anos. Em sua opinião,
os EUA têm questões internas a resolver e vão adiar o debate. E o
Brasil vai adotar a mesma estratégia.
Revista Fórum – Como está a conjuntura
internacional?
Chico de Oliveira – Tanto na conjuntura nacional
quanto na global há uma altíssima marca de indeterminação. No plano
mundial ela se expressa pelo fato de que não está sendo fácil o
reconhecimento da qualidade imperial norte-americana. A gente pensava
que o Bush seria o instrumento para levar isso a ferro e fogo, mas vê-se
que há muita dificuldade. É uma coisa que já tem vinte anos. Com a
ruptura do equilíbrio com o Leste, os EUA pareciam surgir como a potência
que podia fazer qualquer coisa. Não está se mostrando assim. Apesar de
todos sinais da enorme hegemonia norte- americana, isso não está sendo
fácil. Há linhas de fuga bastante fortes. O caso do Iraque é o mais
flagrante. Bush arreganhou os dentes, parecia que ia fazer, e
imediatamente começou a haver resistência, França, China, Rússia, e
agora há um evidente receio norte-americano, que tenta se colocar sob
as asas de uma resolução da ONU. Isso no lado militar, o mais
ostensivo da hegemonia. Mas no lado econômico também. O caso argentino
é até certo ponto ilustrativo. A posição norte-americana era de
deixar a Argentina se afogar, deixar para lá. Os argentinos, numa coisa
rara, não se submeteram. Não heterodoxamente, mas mesmo dentro da
ortodoxia, não se submeteram. O caso do Brasil também. Essa posição
do Fundo Monetário Internacional, agora em relação ao Brasil, mostra
que as dificuldades da hegemonia são maiores do que se poderia supor, o
que lança o quadro mundial a uma certa indeterminação.
Explique melhor essa indeterminação.
Inderteminação é o rompimento das linhas de força do
quadro anterior, em que havia certa ligação de causalidade, ainda que
problemáticas em política, mas elas existiam.Tanto assim que a
interpretação da decadência do império vem ganhando adeptos.
O senhor concorda com essa avaliação?
Para mim, isso não está claro. Visto da periferia,
ninguém acha que os EUA estão em declínio, já que aqui a gente só
conhece o tamanho do porrete.
E quanto à Alca? Faria parte da estratégia
norte-americana de redefinição de seu papel no mundo?
Faz parte dessa tentativa de definir novas linhas de força,
sem dúvida nenhuma. Mas a Alca é uma enorme incógnita. Foi uma
iniciativa nesse sentido, pós-Guerra-Fria, de encontrar nova definição
pelo comércio, que sempre foi a grande via das definições de áreas
de influência. Mas não está claro no que isso pode dar. O comércio
latinoamericano com os EUA não é algo fundamental para a
economia americana, nãotem esse peso decisivo que a gente atribui. Os
grandes déficits da balança comercial norte-americana são com a Ásia,
não com a América Latina. Eles têm superávit em relação ao Brasil
e provavelmente em relação a todos os outros países. E não dá para
compensar porque o valor do trabalho na Ásia é absurdamente baixo.
Qual seria a perspectiva da Alca? O que pode vir a
acontecer se ela for implantada?
O pior resultado da Alca é aquele que ninguém espera,
isto é, dar certo. Se isso ocorrer, fecharemos para balanço. Haverá
forte desnacionalização dos setores da economia da América Latina,
tal como se passa no México. Hoje, 90% das exportações mexicanas são
para os EUA. Como diz a velha piada, basta um espirro norte-americano
para o México pegar gripe. Eles não têm nenhuma margem de manobra
para fazer política com autonomia. A maior parte das empresas mexicanas
exportadoras é de capital norte-americano. Não existe mais setor
financeiro nacional, foi tudo mais ou menos comprado pelos EUA. Os
estudos relativos ao Nafta mostram que houve salto formidável nas
exportações mexicanas, mas a curva do salário real é constante. Eu
morei na Cidade do México por dois anos, de 1965 a 1967, e trabalhava
no Centro de Estudos Monetários Latino-Americanos. Uma vez, estava no
trem e ia aos EUA comprar um automóvel, como todo funcionário
internacional fazia. Uns 50 quilômetros antes da fronteira, entrou um
funcionário da migração e tomou meu passaporte e o de minha mulher,
dos meus filhos, que iam comigo, e só devolveu na descida, porque
aquilo já era controle exigido pelos EUA. Naqueles tempos, os mexicanos
que trabalhavam lá tinham passe livre para entrar e sair, mas todos os
outros não tinham autorização nenhuma. Desde então os mexicanos
invadem os EUA, pulam a fronteira, se arriscam, fazem de tudo. Isso foi
há quase trinta anos, imagine hoje.
Existe saída?
Existir, existe, mas exigirá uma política externa
muito audaciosa. Aliás, o Itamaraty tem competência para isso, é uma
das melhores burocracias do Estado brasileiro. O Itamaraty sabe do que
se trata, de modo que o novo governo pode encontrar bons formuladores,
gente nada ingênua. A safra dos Flecha de Lima, que foi péssima,
subserviente, já passou. No plano internacional os movimentos de massa
têm pouca eficácia, porque tudo se move por institucionalidades que são
desfavoráveis para os países da periferia. Não adianta botar a massa
na rua que não resolve. O Itamaraty tem gente à mão que sabe como
lidar com isso, que conhece o comércio internacional e, sobretudo,
finanças internacionais. A questão agora é financeira. Fala-se em
salto nas exportações, mas não se faz isso sem financiamento.
O BNDES teria instrumentos para fazer isso?
Seria preciso muito mais dinheiro para o BNDES. A maior
fonte de seus recursos é o FAT, que já foi bem maior que hoje,
enquanto o resto vem de repasses de empréstimos internacionais. Mas o
Lula tem falado de fundos de pensão por categoria, de sindicato. Mas ao
mesmo tempo está falando em colocá-los para alimentar a bolsa de
valores, o que seria um desastre monumental. Você iria jogar a poupança
do trabalhador na bolsa de valores. Isso é inadmissível, seria um
desastre. Se os recursos fossem aplicados no BNDES poderia ser uma saída.
É loucura achar que se pode domar o mercado.
Quais seriam as linhas positivas a serem adotadas
pelo Itamaraty na questão da Alca?
Fala-se em acordos bilaterais, abandonando a idéia de
mercado comum, acordos com países como China e Índia. A China já tem
com os EUA cláusula de nação mais favorecida, que é um velho
mecanismo do comércio internacional. Isso vem do século 19, na
verdade. Não é que seja uma coisa fechada para o Brasil, há toda uma
área exatamente da nova tecnologia que a China talvez gostasse muito de
uma relação bilateral com o Brasil. Na área espacial, por exemplo.
Mas essa área é um nó, porque os EUA têm o olho enorme em cima de
qualquer acordo. Basta ver a dificuldade da decisão sobre os novos caças
da FAB. A China teria muito interesse, mas é uma zona de conflito. Por
isso, seriam questões de muito longo prazo, nada que se faça da noite
para o dia, ainda mais com um país como a China, que tem uma política
estatal fortíssima. Eles planejam a renovação dos quadros dirigentes
com vinte anos de antecedência. O tempo é outro, o tempo é o da
Igreja Católica. A Igreja Católica não se apressa em nada, tem a
eternidade. Não se pode em quatro anos fazer um grande acordo com a
China. Mas é preciso começar a tentar. A Índia também é pensada.
Eles são o maior produtor mundial de software. Que acordo pode-se fazer
com o Brasil numa área como essa? Evidentemente um acordo para não
prejudicá-la. Aquilo também é outro elefante, não se move com
rapidez. A população deles está batendo em 1 bilhão. Esses países são
todos gigantes, suas políticas não mudam assim com ato de vontade.
O senhor considera que a Alca vai ser o grande tema do
governo Lula?
Acho que estamos exagerando, concedendo uma centralidade que a
Alca não tem. Os EUA não têm tanto interesse assim nela. Na verdade, foi uma
iniciativa do Bush pai há dez anos e de alguma maneira agora os
norte-americanos estão sendo exigidos para regulamentar melhor suas próprias
questões internas. Recentemente a Folha de S. Paulo publicou artigo de Martin
Holf, transcrito do Financial Times, que mostra a necessidade de avançar na
regulamentação do mercado de capitais e mercado financeiro, da legislação
corporativa, por conta da falência de duas gigantes e de fraude escandalosa.
Eles estão chamando atenção para isso. Mais regulamentação, e não menos. E
o cowboy-presidente vai ter que atender. Até porque, de onde ele tira força?
Por isso acho que se está se exagerando na centralidade dada à Alca. Acredito
que o Itamaraty pode conduzir as negociações para acordos menores. Até
porque, ao nos envolvermos num enorme acordo, já cometemos alguns equívocos
que o (Rubens) Ricupero tem apontado freqüente e recorrentemente. O Brasil
fixou o nível de tarifas pelo alto e não por baixo para começar a negociar. E
o correto para começar a discutir é fixar a tarifa num nível mais baixo,
deixando pouca margem de recuo. Já foi um erro cometido, mas é possível
lograr acordos parciais. Quer dizer, não há nenhum grande acordo a ser feito.
Talvez o único seja o Mercosul, tentar dar uma cartada forte para depois
negociar com os americanos. Mas nenhum grande acordo com a China ou com a Índia
vai acontecer assim de repente.
Como poderiam ser essas investidas no Mercosul, com a
Argentina e o Uruguai em crise?
Oliveira – Aí é a velha história, pelo mercado não se faz
nada, porque o mercado está sempre reproduzindo a si próprio. Seria necessário
um lance ousado e muito bem concebido de política externa. Por exemplo, o
governo Lula dar uma espécie de aval financeiro à Argentina. Ainda não dá
para fazer uma moeda comum, embora a ilusão de o Real estar a par com o peso
possa levar a pensar que dá para fazer uma moeda única. Ainda não dá. A
moeda única foi a última etapa da União Européia, não a primeira. Isso é
toda uma engenharia que não está desenhada, mas que pode se inventar. Em novas
negociações com a Argentina, o avalista seria o Brasil. É utópico, porque
seria o roto garantindo para o esfarrapado, mas seria interessante.
Mas não há pressão por dolarização dessas economias?
Os EUA não têm nenhuma intenção de dolarizar nada. Isso foi
uma ilusão daquele cachorro do Domingo Cavallo (ex-ministro da economia da
Argentina). Se o Equador dolarizar, tudo bem para os EUA, ele é do tamanho da
Zona Leste de São Paulo. Agora, os EUA não estão dispostos a dar conta de
economias do tamanho da Argentina e do Brasil, pois teriam de aumentar o
meio circulante e isso torna ainda maior o problema monetário deles.
Mas por que na União Européia é possível uma moeda única?
A UE foi igualando todas as relações monetárias. O nível de
seguridade social na Europa é relativamente homogêneo, o que significa que o
mercado de trabalho funciona com regras que são mais ou menos as mesmas. Você
sai da Itália e vai trabalhar na França e não desequilibra o mercado de
trabalho, já que ele está em grande parte regulado pela previdência social. Não
se vê mais migrações maciças de nenhuma parte da Europa. Mesmo as migrações
antigas que iam muito da Espanha e Portugal para os outros países da
comunidade, sobretudo para a França e Inglaterra, hoje quase não existem. A
Europa fez o contrário dos EUA. Eles injetaram poder de compra nos países
menores e subdesenvolvidos, cortando o movimento migratório que desequilibraria
o mercado de trabalho. Nesse cenário, dá para falar em moeda única. Agora,
com os EUA não dá para jogar, sem dizer que há desproporção dentro da América
Latina. E elas não são pequenas. O Brasil, por exemplo, tem um PIB três vezes
maior que o argentino.
Anterior
(Gacek)
-
Índice
-
Próxima
(Continente)