Contra a histeria: os 7 mitos da eleição

"Mais perenes do que qualquer partido ou movimento político, algumas ideias sobre o que move os eleitores se repetem a cada eleição. No entanto, dados e detalhamentos das votações desafiam esse senso comum."

Todo mundo sabe que não acredito em jornalismo “isento”. A não ser que seja isento de impostos (a Globo, parece-me, acreditou que era isenta de certos impostos).
Mas essa eleição trouxe alguns exemplos de que, mesmo assumindo posições claras em favor de um ou outro candidato, os jornais e a mídia convencional (e também os blogs e ativistas digitais) podem guardar espaço para trabalhar de forma honesta com a informação.
A “Folha”, por exemplo – apesar do episódio lamentável com Xico Sá – parece ter recuado em sua fúria antipetista durante a campanha de 2014. E abriu espaço para reportagem e opiniões divergentes. Lembremos que foram da “Folha” as informações sobre o Aeroporto de Cláudio e sobre o suposto pagamento de propina para Sérgio Guerra (PSDB)…
Agora, reproduzo material muito interessante publicado pela turma de José Roberto Toledo, no “Estadão”. Não conheço Toledo pessoalmente, mas está evidente que faz um trabalho correto – sem brigar com os fatos.
Confiram o texto – que ajuda a desmontar a histeria que certos setores (minoritários, diga-se) do tucanato procuram disseminar.  (Rodrigo Vianna)
OS SETE MITOS DAS ELEIÇÕES 2014
por José Roberto Toledo, Daniel Bramatti, Daniel Trielli, Diego Rabatone, Lucas de Abreu Maia e Rodrigo Burgarelli, no Estadão
Mais perenes do que qualquer partido ou movimento político, algumas ideias sobre o que move os eleitores se repetem a cada eleição. No entanto, dados e detalhamentos das votações desafiam esse senso comum. O Estadão Dados analisou 7 erros mais repetidos
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MITO 1: FOI O NORDESTE QUE ELEGEU DILMA
É claro que o desempenho de Dilma no Nordeste foi crucial para a sua vitória – lá, ela teve 20 milhões de votos no segundo turno, o que correspondeu 72% do total de válidos. Mas a presidente reeleita obteve um apoio razoável em todas as cinco regiões. Seu menor porcentual de votos válidos foi no Sul, onde ela teve o apoio de 41% dos eleitores que escolheram um candidato.Na verdade, a impressão de que o Nordeste sozinho é o grande responsável pela reeleição de Dilma é fortalecida quando se vê o mapa eleitoral de cada Estado pintado por quem teve o maior porcentual de votos ali. Nesse mapa, metade do Brasil aparece pintado de azul, como se ela tivesse ido em direção totalmente oposta à outra metade, vermelha. O deputado estadual eleito Coronel Telhada (PSDB-SP) chegou a defender a independência do Sul e do Sudeste por causa disso. Mas, na verdade, dos dez Estados em que Dilma obteve menor votação, apenas três estão nessas regiões: SC, SP e PR. Todos os outros estão ou no Norte ou no Centro-Oeste. Visualmente, é possível ver como o apoio a Dilma se espalha pelo Brasil pelo gráfico de relevo ao lado – nenhuma das duas maiores “montanhas” que representam o número absoluto de votos está no Nordeste.

 

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MITO 2: PALANQUE ESTADUAL INFLUENCIA ELEITORES
Pesquisas e resultados eleitorais voltaram a demonstrar que a maioria dos eleitores não faz conexão entre o voto para presidente e para governador. Apesar da prática tradicional dos presidenciáveis de buscar “palanques fortes” nos Estados – alianças com candidatos a governador -, não há evidências de que isso renda votos.Apoiado por praticamente toda a cúpula do PMDB do Rio de Janeiro, o tucano Aécio Neves buscou popularizar a chamada “chapa Aezão”, na esperança de que os eleitores de Luiz Fernando Pezão votassem também nele. Os mapas de votação de ambos, porém, mostram que não houve sintonia eleitoral.Pesquisa Ibope divulgada pouco antes do 2º turno mostrou que, dos eleitores de Pezão, seis em cada dez pretendiam votar em Dilma Rousseff. Marcelo Crivella, adversário do peemedebista, fez campanha explícita para Dilma – mas isso não impediu que cerca de 40% de seus eleitores manifestassem intenção de votar em Aécio.

 

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MITO 3: PESQUISAS ERRAM RESULTADO DA URNA
Embora alguns insistam que as pesquisas de intenção de voto consistentemente erram o resultado das urnas, não é o que mostram os dados – tanto os das eleições de domingo quanto os e históricos. A vitória de Dilma Rousseff (PT) na disputa pela Presidência foi prevista pelo Ibope, que atribuía a ela 53% da preferência do eleitorado. Dilma recebeu 52% dos votos válidos, portanto dentro da margem de erro da pesquisa, de dois pontos porcentuais.O Datafolha também atribuía favoritismo à petista, embora ela estivesse no limite do empate técnico com Aécio Neves (PSDB). Ambos os institutos descreveram, por meio dos números, a campanha do 2.º turno: Aécio começa à frente, carregado pelo embalo do 1o turno, em que teve votação superior ao esperado. Dilma se recupera na última semana, com uma insuficiente reação de Aécio na véspera do pleito. Para os institutos, os números exatos importam menos que o movimento descrito pelas curvas de intenção de voto de cada candidato. Sem elas, é impossível analisar qualquer campanha.Desde 2002, a diferença média da sondagem de véspera do dia da eleição de Ibope e Datafolha para o resultado do 2.º turno é de um ponto porcentual – portanto dentro da margem de erro. Assim, os institutos acertaram os resultados das eleições em todos os anos, mesmo em 2014, na disputa mais acirrada da história.

 

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MITO 4: VOTOS NULOS SÃO SINAL DE PROTESTO

 

Após os protestos que tomaram as ruas das principais cidades do País em junho de 2013, analistas e cientistas políticos previram aumento significativo de votos nulos na eleição deste ano. Isso não ocorreu: foram 4,4% de nulos em 2010 e 4,6% em 2014 – a comparação leva em conta os dois segundos turnos da disputa presidencial.É claro que muitos indivíduos podem anular o voto como forma de protesto. Mas as estatísticas indicam que parcela significativa dos nulos se deve a erros no momento do voto. Uma evidência disso é a diminuição dos votos anulados entre o 1.º e o 2.º turno das eleições – entre uma e outra etapa, o número de cargos em disputa cai de cinco para apenas um ou dois, o que reduz a complexidade do manejo da urna eletrônica.Outro indício é o fato de que a taxa de nulos para deputado estadual – o primeiro cargo na ordem de votação – é sempre mais baixa, já que são contadas como voto na legenda as tentativas equivocadas de digitar os números de presidenciáveis.

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MITO 5: FAMÍLIA CAMPOS TRANSFERE VOTOS

O tucano Aécio Neves lançou sua campanha no 2.º turno em Pernambuco, onde recebeu o apoio da viúva e dos filhos de Eduardo Campos, candidato a presidente pelo PSB até agosto, quando morreu em um acidente aéreo. Os líderes do PSDB esperavam que a família Campos e a máquina do PSB no Estado proporcionassem uma vitória a Aécio no Nordeste, assim como já havia ocorrido com Marina Silva, primeira colocada em Pernambuco no 1.º turno.A estratégia não deu resultados. Aécio teve entre os pernambucanos apenas 29,8% dos votos, resultado próximo da média que obteve em todo o Nordeste: 28,3%. O tucano ganhou em apenas uma cidade pernambucana: a pequena Taquaritinga do Norte, onde obteve 7.340 votos, 432 a mais do que a presidente Dilma Rousseff (PT). Em Recife, onde Marina havia obtido 63% dos votos no 1.º turno, Dilma venceu na segunda rodada da disputa por 60% a 40%.

 

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MITO 6: MINAS GERAIS ELEGE PRESIDENTE

 

Mesmo se ganhasse seu Estado natal, Aécio Neves (PSDB) ainda teria dificuldade em se eleger. Dilma Rousseff (PT) teve 52,4% no Estado, e o tucano teve 47,6%. Se ele tivesse invertido esse resultado e ganhado os 550.601 votos que ela ganhou a mais em Minas, ainda faltariam 2,3 milhões de eleitores no resto do Brasil. Na votação total de Aécio, Minas representa 11%, menos que a soma de Santa Catarina e Bahia. Só uma vitória distante em Minas, de 63% a 37%, daria a Aécio os votos necessários para ganhar de Dilma. Com esse resultado – quase igual ao do Estado de São Paulo (64% a 36%) –, ele teria 52.771.137 de votos em todo o Brasil, um a mais que Dilma. Mas uma vantagem tucana como essa não acontece em eleições presidenciais em Minas desde que Fernando Henrique Cardoso ganhou em 1994, no primeiro turno. Naquele ano, derrotou Lula no Estado por 65% a 22%. Nem em sua segunda vitória de primeiro turno, em 1998, Fernando Henrique repetiu o resultado: foi 56% a 28%.

 

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MITO 7: ABSTENÇÃO É ALTA E DEMONSTRA APATIA

Ao fim de todas as eleições, analistas correm para declarar que cerca de um quinto da população decidiu não votar. O número se baseia na abstenção divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ou seja, os eleitores que não foram às seções eleitorais. Historicamente, a abstenção gira em torno de 20% e o número não varia muito de eleição para eleição.Essa análise é falha porque atribui às abstenções um peso político maior que o que de fato têm. Isso porque o suposto não comparecimento às urnas tem mais a ver com uma falha no cadastro eleitoral do TSE que com a falta de engajamento político. A abstenção foi menor em 2014 precisamente nos municípios que passaram recentemente pelo recadastramento biométrico — em que os eleitores registram na Justiça Eleitoral suas impressões digitais. O recadastramento remove da lista do tribunal eleitores que já morreram, e que, naturalmente, não podem aparecer para votar.

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P.S.
De todos itens acima, só discordo – em parte – do Item 3. Pesquisas erram, sim!
Erraram muito no primeiro turno, e menos no segundo.
E háos casos estranhíssimos da Sensus e Veritá, que davam vantagem de 8 a 15 pontos a Aécio quando todo mundo sabia que a eleição estava empatada – com leve vantagem para Dilma.
(Rodrigo Vianna)

18 comments

  1. Rubens Responder

    Por que Taquaritinga do Norte preferiu Aécio? Porque é a cidade mais desenvolvida economicamente do NE, com um parque industrial que faz inveja a estados como o Rio e Minas, onde a búlgara ganhou. Porque é uma cidade onde toda a população paga impostos e não há assistidos, parecendo nisso com as cidades de SP. Porque é a cidade mais instruída do NE, superando as maiores cidades da região, como Recife e Salvador em número de Universidades e universitários. Porque é uma cidade com muitos aeroportos que atendem sua mui viajada população. Porque é a mais europeia das cidades do NE, a começar pelo próprio nome, Taquaritinga, que vem da palavra alemã “Tükannishttung”, que significa “cidade em que a população vota no candidato do patrão”.

    1. Paula Responder

      Rubens Rivotril é uma medicação muito recomendada

      1. a Responder

        Calma, Paula; o Rubens tá só tirando sarro com os tucanos. Leia o texto com mais atenção.

      2. Rubens Responder

        Paula, de uas uma: ou você é tucana e ficou chateada porque eu parodiei o discurso coxinha ou não não é capaz de entender que tudo o que eu disse só pode ser entendido como ironia..

        1. Job Responder

          Quando uma ironia é muito, muito, muito bem feita, fica quase imperceptível!

    2. Nelson Ribeiro Responder

      Eu só percebi que era ironia pelo nome da cidade e o significado do nome. Arranho alemão até bem e claro está cro o Tükannish… não teria dois tt e tung ? de Achtung? Tudoo soa com ASAFTASAREDEM EDOEM. Fantástico texto.

  2. Lino Responder

    E como você explica Dilma ter vencido em várias cidades do RS, Sr. europeu de meia tigela?

  3. Responder

    Somos os Esquecidos neste País
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    Warley Martins Gonçalles
    A eleição acabou, o país ficou dividido, muitas promessas foram feitas alimentando ilusões e desilusões na população brasileira.
    Assistindo aos programas eleitorais notei que pouco se falou dos aposentados, pensionistas e idosos. Os políticos adotaram discursos antigos, citando propostas para Educação, Saúde e Segurança e também falando de projetos que beneficiem somente negros, crianças, pobres e outras categorias.
    É justo que estas classes sejam favorecidas, porém não podemos se esquecer daqueles que deram o sangue para construir essa Nação: os nossos velhinhos.
    Há poucos dias, no Vaticano, o Papa Francisco disse que os idosos são abandonados sob o pretexto de manter um sistema econômico equilibrado. Ele tem plena razão. Os governos dão a desculpa que pagar uma aposentadoria justa iria quebrar a Previdência Social, mero engano, pois esse dinheiro iria circular, fomentar o comércio, aquecer a economia, ajudar os municípios e principalmente melhorar a qualidade de vida de milhões de idosos.
    A América Latina e o mundo em geral não estão apenas ficando mais velhos, mas também mais doentes e pobres. Para 2050, teremos um aumento de 35% nos gastos com os idosos latinos, o que deve se agravar pela falta de reformas nos sistemas de saúde.
    Temos no máximo 20 anos para nos preparar para isso. É preciso um grande esforço, que inclua reformas nas aposentadorias, sensibilidade das autoridades e mais união das entidades classistas.
    A COBAP, as federações e associações filiadas estão fazendo a sua parte, esperamos que as demais entidades sigam o nosso exemplo e também cumpram a sua missão.

    Agradeço a atenção dos eleitores, deixando meu abraço e carinho para todos os servidores públicos brasileiros, cujo dia se comemora hoje.

  4. PRONATEC Responder

    Sabia que o maior Estado recebedor de bolsa-família é São Paulo?
    Pesquise, põe no google e poste aqui…
    Óia, tem que falar o português claro, porque eleitores que praticam o voto cínico da conveniência, os acometidos da síndrome bipolar eleitoral, e da esquizofrenia da conveniência – estes não entendem linguagem figurada…só sabem repetir…o que mandam…

  5. Cleber Comini Responder

    Gostei de sua colocação quanto à cidade de Taquaritinga-PE com vitória de Aécio com 7340 votos, Rubens. Entendi muito bem o que vc quis dizer com tudo isso, mas apesar daqui de Minas Gerais não ter tido alguma cidade com esse tipo de acontecimento, Viçosa-MG onde se encontra UFV … a Dilma ganhou com uma votação expressiva em mais de 70% dos votos válidos!Procure saber de referências dessa cidade , que verás a verossimilhança em dados, porém com resultados extremamente opostos! Abraços, e dá-lhes Dilma!!!…

  6. Roberto de Paulo Responder

    No início sim as pesquisas manipulam,contra o PT,no final,elas ficam honestas,pois a verdade vem à tona.PSDB partido mais ficha suja do PAÍS,e os coxinhas votam neles,e nós é que somos burros,ou mal informados.

  7. SLKRR Responder

    O “caso” de Sensus não foi estranho. É difícil acertar o resultado quando a “pesquisa” é uma farsa. O mais engraçado do Sensus foi que deu Aécio liderando em Minas e Pernambuco(!). É impossível errar tão feio se não fossem números inventados para enganar os tolos.

  8. juca Responder

    Eleição 2014: não há o que comemorar Imprimir E-mail
    ESCRITO POR CORREIO DA CIDADANIA
    SEGUNDA, 27 DE OUTUBRO DE 2014
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    Para quem está comprometido com a luta social e aspira a uma sociedade baseada na igualdade substantiva, a derrota de Aécio foi um alívio. Dos males, o menor, mas a vitória de Dilma não deixa nada a comemorar.

    O saldo da campanha é tenebroso. Contratados a peso de ouro para manipular a opinião pública, marqueteiros venderam candidatos como mercadorias. Para diferenciar seus produtos, abusaram da ingenuidade da população. Magos da pirotecnia midiática, reduziram o eleitor a consumidor, criando expectativas que não se realizarão. Para desconstruir os adversários, exploraram medos que alimentam falsos antagonismos e envenenam o ambiente político.

    Na falta de substância política, a eleição foi transformada numa briga de torcida. Em clima de caça às bruxas, as paixões foram levadas a um paroxismo descabido. O apelo à emoção foi proporcional ao descaso pela razão. A virulência das agressões mútuas foi em razão inversa às reais diferenças entre os contendores.

    O eleitor foi sistematicamente ludibriado. As divergências existentes entre as duas alas do Partido da Ordem são secundárias e circunstanciais. Os que hoje estão com o PT – Sarney, Maluf, Collor, Kátia Abreu – estavam ontem com FHC e Collor e anteontem serviam a ditadura militar. Amanhã podem perfeitamente debandar para o PSDB. À exceção de alguns extremados, os que mandam de fato – o capital internacional e a plutocracia nacional – estão muito bem servidos nas duas candidaturas. Basta ver o rio de dinheiro investido em ambas.

    A completa desconexão do debate eleitoral com a realidade transformou o país num manicômio. Surpreendido pelo antagonismo entre petistas e tucanos, um desavisado que desembarcasse de paraquedas poderia até imaginar que o Brasil vive uma situação pré-revolucionária, quando, na verdade, o que está em questão é exatamente a conservação do status quo. A eleição foi apenas para escolher quem comandará a reciclagem do capitalismo liberal implantado por Collor 25 anos atrás. Nada mais.

    O clima apocalíptico que tomou conta do segundo turno é despropositado e faz lembrar as legendárias guerras entre as famílias Sampaio e Alencar pelo controle da prefeitura de Exu no século passado. Para os que se alinhavam com o clã Sampaio, a vitória de um Alencar poderia, de fato, ter consequência real (e vice-versa), mas, para os que não faziam parte da corriola e estavam condenados a ralar para sobreviver, o resultado era indiferente. As famílias alternaram-se durante décadas no poder sem que a miséria se modificasse.

    Deliram os que imaginam que o país está na iminência de uma ruptura institucional. Não há movimentação golpista alguma, nem à direita nem à esquerda. A única conspiração em curso é aquela que une as duas facções do Partido da Ordem contra o povo, patente na cumplicidade de ambas com a política de contra-insurgência preventiva para conter o conflito social e na irmandade na hora de arquitetar tenebrosas transações.

    A briga de foice é um teatro e faz parte do jogo eleitoral. Quando é conveniente, o antagonismo é imediatamente suspenso. Quem se esquece da idílica cena de Haddad e Alckmin, descontraídos num requintado restaurante de Paris, em junho de 2013, poucos meses depois de terem trocado cobras e lagartos na renhida disputa pela prefeitura de São Paulo? Enquanto o pau comia solto nas ruas de São Paulo tomadas por jovens trabalhadores que lutavam contra o aumento das tarifas de transporte público, prefeito e governador estavam perfeitamente entrosados na política de repressão aos protestos e na estratégia de negociação com os gangsters que controlam os megaeventos internacionais.

    Destituída de substância, a polarização entre as duas alas do Partido da Ordem só serviu para degradar o ambiente político. O brasileiro sai da campanha mais descrente nos políticos e sem nenhuma consciência sobre as causas de seus problemas e suas possíveis soluções.

    Ninguém pode banhar-se duas vezes na mesma água do rio. O segundo governo Dilma não será uma repetição do primeiro. Pela força das circunstâncias, será mais conservador e truculento. As condições objetivas e subjetivas que o determinam deterioram-se, estreitando sensivelmente o raio de manobra para acomodar, através da expansão do emprego, do aumento dos beneficiários das políticas compensatórias e da cooptação dos movimentos sociais, as mazelas de uma modernização canhestra, que aprofunda a dependência e o subdesenvolvimento.

    Na economia o cenário é sombrio. Os problemas acumulados na farra de consumo de bens conspícuos impulsionada pela especulação internacional têm consequências. O aumento da dependência externa deixa a economia brasileira à mercê dos humores do mercado internacional. O agravamento da crise mundial, que entra no seu sétimo ano sem perspectiva de solução, não abre espaço para o crescimento. A ameaça de movimento de fuga de capitais sujeita o país ao xeque-mate da dívida externa. Nesse contexto, as pressões da grande burguesia globalizada para que o Brasil realize uma nova rodada de ajustes liberais empurra a política econômica para a absoluta ortodoxia. As veleidades neodesenvolvimentistas são coisas do passado. O próximo Ministro da Fazenda será escolhido diretamente pelo mercado e estará mais próximo de Armínio Fraga do que de Guido Mantega.

    No âmbito da sociedade, a perspectiva é de crescente convulsão. A modernização mimética que copia os estilos de vida e padrões de consumo das economias centrais agrava os problemas fundamentais do povo. A frustração generalizada com um cotidiano infernal acirra os ânimos e polariza a luta de classes. Sem vislumbrar saída para o circuito fechado que transforma a vida do trabalhador num pesadelo sem fim – na fábrica e fora dela -, o brasileiro torna-se um barril de pólvora prestes a explodir. O aumento da violência e o fim da paz social prenunciam um futuro de grandes tensões e crescente turbulência social.

    Nas altas esferas da política, a classe dominante afia as garras para enfrentar o conflito social. A crise do sistema representativo reforça o consenso a favor de soluções repressivas para a inquietação social, aumentando a pressão a favor da criminalização da contestação social como pressuposto da estabilidade democrática. O giro conservador da opinião pública, o aumento assustador da bancada de deputados da direita mais desqualificada e a mobilização de uma classe média histérica deslocam o status quo sensivelmente para a direita. Contestado pela juventude que foi às ruas protestar contra os desmandos dos governantes, o sistema democrático brasileiro assume descaradamente seu caráter de classe e se afirma abertamente como uma democracia de segregação social. A liberdade política é privilégio exclusivo da plutocracia e se manifesta concretamente na possibilidade de escolha entre alternativas integralmente comprometidas com os parâmetros da ordem.

    A presidente retoma seu posto no Planalto em frangalhos. Antes mesmo de assumir o segundo mandato, sua credibilidade já se encontra comprometida pela gravidade das denúncias que apontam a cumplicidade direta do Planalto com esquemas de corrupção arquitetados pela alta cúpula dos partidos da base aliada. Desta feita, não haverá um período de lua de mel. Ávida para voltar ao governo federal depois da quarta derrota consecutiva, a oposição não dará trégua. Sem arsenal ideológico e programático para diferenciar-se qualitativamente do governo petista, só lhe resta sangrar Dilma do primeiro ao último dia de seu mandato.

    Ninguém passa impune pelo pacto com o diabo. Sem capacidade de mobilizar a população e prisioneira de compromissos espúrios, Dilma ficará nas mãos da máfia que, a mando dos negócios, controla o Congresso Nacional. Vítima da própria covardia, que não lhe permitiu enfrentar a tirania dos magnatas da informação, será objeto diário da chantagem da grande mídia. Sem meios para defender-se, tornar-se-á ainda mais dócil às exigências do capital. Se ousar desafiá-lo, será imediatamente confrontada com o espectro do “impeachment” democrático. É o modo de funcionamento das democracias burguesas contemporâneas na periferia latino-americana do capitalismo.

    Para quem se ilude com a possibilidade de uma tardia redenção do PT, a ressaca da festa democrática será monumental. A juventude romântica e os homens de boa fé seduzidos pelo canto de sereia do “coração valente” logo perceberão que foram logrados e sentirão na pele a ingratidão da presidente. Assim que a população for às ruas para protestar contra os descalabros do capitalismo selvagem, as disputas fratricidas entre as facções do Partido da Ordem serão suspensas. Como irmãos siameses, as duas alas do Partido da Ordem estarão monoliticamente unificadas, armadas até os dentes, para reprimir os manifestantes com brutalidade, como se fossem inimigos internos que devem ser aniquilados, como aconteceu em Junho de 2013, nas jornadas da Copa de 2014 e toda vez que o povo se levanta contra os privilégios dos ricos. Passado o risco iminente de descontrole social, as duas facções voltarão a engalfinhar-se pela disputa controle do Estado.

    A falsa polarização entre a esquerda e a direita da ordem somente será superada quando a os trabalhadores não tiverem qualquer ilusão em relação à possibilidade de que o capitalismo possa ser domesticado, seja pelo PT ou por quem quer que seja. O capitalismo dependente vive da superexploração do trabalho e tem na perpetuação de um grande estoque de pobreza um de seus pressupostos. A situação torna-se ainda mais grave quando a sociedade enfrenta um processo de reversão neocolonial que solapa a capacidade de o Estado fazer políticas públicas.

    Do show de horror da eleição de 2014, sobra uma lição: para sair do antro estreito das escolhas binárias entre o ruim e o pior, é preciso que a esquerda socialista se unifique e entre em cena.

  9. Job Responder

    Mito 8: a eleição foi apertada
    Na verdade, para vencer é preciso 50% + 1 voto. Foram mais de 3 milhões de votos além dos 50%, um tremendo desperdício!
    O ponto é outro: é que para um tucano vencer, basta 50% + 1, mas para um petista vencer, aí são necessários 60% + 1. Só que ainda não cumpriram a formalidade de registrar essa norma na legislação!

  10. Thiago Responder

    Mito 8 – Marina também não transfere votos. Parece que não existe “transferência de votos”.

  11. Nat Responder

    Mito 9: -Minas- Capitania hereditária dos Neves. Não! Aécio não é imperador de Minas.

  12. Almir Responder

    Nordeste: 72% dos votos pra Dilma = vacinação em massa contra o ódio. A propósito, vejam como os nordestinos pobres “faziam feira”, nos sempre difíceis tempos anteriores aos governos do PT – http://tataguassu.blogspot.com.br/2014/05/invasao-e-saque-em-boqueirao-
    1987.html

  13. Mona Responder

    Gostei dos comentários .