Áudio não vazou por acaso: Temer corre riscos porque sabe que no plenário não tem votos para dar o golpe

As contas mais realistas hoje são as seguintes: no plenário, a oposição tem cerca de 320 votos pelo impeachment; e o governo conta com 180 votos para barrar o golpe. Hoje, a oposição não tem votos suficientes para vencer. Se...

As contas mais realistas hoje são as seguintes: no plenário, a oposição tem cerca de 320 votos pelo impeachment; e o governo conta com 180 votos para barrar o golpe. Hoje, a oposição não tem votos suficientes para vencer. Se tivesse, Temer não arriscaria tanto – a ponto de passar para a história como um conspirador assumido. Na comissão, o golpe teve 38 votos (o equivalente a 58%, bem abaixo dos 67% que serão necessários em plenário no dia 17).

por Rodrigo Vianna

A mim parece evidente que o vazamento do áudio de Temer não foi acidental (clique aqui para saber mais). Aliás, isso pouca importa. O que interessa é saber se a manobra vai ajudar o peemedebista a dar o golpe, ou se vai atrapalhar.

Lembremos que a “carta chorosa” de Temer há alguns meses também foi vazada “por acaso”. Na verdade, era estratégia de comunicação, que depois se revelou desastrada.

O áudio agora vazado terá o mesmo destino? Transformar-se-á em mais um episódio patético a mostrar a pequenez de Temer? Essa é a narrativa em disputa nesse momento.

Aparentemente, pega muito mal junto à opinião pública o fato de Temer falar como “presidente” antes da votação final no dia 17. Ele fica com o carimbo, na testa, de golpista e conspirador. Sentou na cadeira antes da hora. Traiu, mostrou-se patético e pequeno.

Mas me parece que Temer resolveu correr o risco.

Com 1% nas intenções de voto (segundo o DataFolha), Temer não faz nesse momento uma disputa por popularidade. O objetivo dele é simplesmente conquistar votos indecisos, dentro o Colégio Eleitoral que – de forma indireta – pode dar o poder ao peemedebista, num golpe parlamentar comandado por Cunha e tolerado pelo STF.

Ninguém grava “por acaso” um discurso de 15 minutos. Temer planejou o vazamento, para convencer indecisos, ocupando espaço no JN nesta segunda-feira (11 de abril). Hoje, o noticiário estaria dominado pelos atos de rua contra o impeachment: Lula e os artistas no Rio, contra o golpe, estariam na tela.

Temer ofereceu a Ali Kamel 15 minutos, para dividir espaço com Lula.

Isso será suficiente para garantir os votos que hoje a oposição não tem? Difícil saber.

Na Comissão, o impeachment foi aprovado por 38 votos a 27, num total de 65 parlamentares. Isso significa 58% dos votos pela derrubada de Dilma. Agora, tudo segue para o plenário, onde serão necessários 67% (dois terços) dos votos para dar o golpe. Ou seja, mantida a proporção da comissão, o golpe será rejeitado. 

A votação final, dia 17, deve ser decidida no olho mecânico. As cúpulas partidárias (PSB, Rede e vários diretórios regionais do PP, sem falar no líder da bancada do PR) migraram nas últimas horas para uma defesa explícita do impeachment. Mas, na ponta do lápis, a conta não está fechada.

O governo conta com uma base firme de 110 deputados, à qual hoje pode agregar, na pior das hipóteses: 20 votos do PP (de um total de quase 50), 15 do PR, 15 do PSD e 10 do PMDB = 60 votos. Contará ainda com votos esparsos no PTB e nos partidos chamados de nanicos (totalizando mais 10 votos, talvez).

A máquina midiática, de um lado, tentará criar um clima de “já ganhou”a favor do impeachment. De outro, Lula nas ruas e nas articulações de bastidor tenta assegurar 60 ou 70 votos na centro-direita (especialmente nas bancadas do Norte/Nordeste), que seriam suficientes para barrar o golpe.

O áudio de Temer inscreve-se nessa estratégia. Tenta apontar a “expectativa de futuro” em torno de um “novo governo” – numa tentativa final de esvaziar essas bancada de 60 votos conservadores que Lula articulou, e que podem salvar o mandato de Dilma.

As contas mais realistas hoje são as seguintes: a oposição teria 320 votos pelo impeachment; e o governo teria 180 votos para barrar o golpe. Mas, provavelmente, haverá menos do que 180 deputados dispostos a ir ao plenário dia 17, para dizer “Não” à avalanche midiática pelo golpe. Ou seja, o “Não” se dividiria em 140 votos em plenário e mais 40/50 abstenções e ausências.

Temer tenta transformar essas ausências em votos pelo impeachment. Essa é a batalha.

Hoje a conta é essa: 320 sim x 140 não. E cerca de 40/50 abstenções/ausências.

O resto é terror midiático.

O lado de cá, que batalha contra o golpe, não deve se abater com as notícias de “deserções”, “desembarques”, “estouro da boiada”.

A mídia tentou criar esse clima quando o PMDB rompeu com o governo. E isso não se confirmou.

A batalha será dura. E hoje a oposição não tem votos pra vencer. Se tivesse, Temer não arriscaria tanto – a ponto de passar para a história como um conspirador assumido.

A sofreguidão do poder levou Temer ao extremo. É o que escrevi hoje no twitter: a ânsia pelo poder une Aécio e Temer. A diferença entre eles é que um aspira e o outro conspira.

Tudo indica que perderão. Abraçados.

E o país seguirá dividido. Mas com a esquerda crescendo nas ruas.

Esse é o cenário que vejo hoje. Sem triunfalismo, sem torcida.

 

 


6 comments

  1. Claudio Freire Responder

    Rodrigo, nesta semana é absolutamente decisivo fazermos pressão sobre esses 40/50 deputados indecisos.
    Você tem a lista dos nomes deles?

    1. Ninguém Responder

      http://www.mapadademocracia.org.br/plenaria/

      Mande o e-mail para todos os deputados, inclusive os golpistas.

  2. Ninguém Responder

    De qualquer modo, esses golpistas já passaram para a históra pelo que são: golpistas covardes, traidores da Pátria.

    “Traidor da Constituição é traidor da Pátria.” (Ulysses Guimarães)

    Para golpistas, só cadeia, cadafalso ou baioneta!

  3. Ninguém Responder

    Sugiro trocar o conteúdo do e-mail no site Mapa da Democracia (que está desatualizado) por este aqui:

    Exmo(a). Deputado(a),

    A nossa democracia está em risco! A conduta política no judiciário brasileiro e as arbitrariedades na condução da Lava Jato estão colocando sob ameaça o nosso estado democrático de direito. A investigação que deveria ser um processo formalmente jurídico, a cada dia, deixa mais evidente sua natureza política e o objetivo de abrir caminhos para o golpe.

    O processo de impeachment tem de ser denunciado e enfrentado, tendo em vista que extrapola os termos da legalidade. O impeachment é um processo de punição por crime de responsabilidade. No entanto, não há provas de que tais crimes tenham sido cometidos no governo Dilma Rousseff.

    A Presidenta é acusada, por aqueles que defendem seu afastamento, de ter cometido pedaladas fiscais. De fato, a conduta, que visa a dar certa aura de equilíbrio às contas públicas em momentos de aperto de caixa, não é boa prática de finança pública. No entanto, não se configura como crime de responsabilidade. Observe que 16 dos 27 governadores do país (além de um número incalculável de prefeitos) que também teriam cometido pedalas fiscais não estão respondendo por processos de impeachment, deixando claro o caráter golpista.

    No nosso país, não há previsão jurídica para que o processo de impeachment seja utilizado quando a população se sente insatisfeita com o não cumprimento de promessas eleitorais ou quando a oposição não aceita os resultados obtidos nas urnas. Além disso, não deve ser utilizado levianamente, para estabelecer uma catarse contra o estado endêmico de corrupção nacional.

    O processo foi levado a toque de caixa pelo deputado Eduardo Cunha, a respeito do qual existem investigações de desvio de dinheiro e contas na Suíça, numa comissão com 34 investigados pelo Supremo Tribunal Federal. A votação agora irá para a Câmara dos Deputados, onde 271 deputados enfrentam acusações que vão da fraude ao homicídio.

    Aprovar o impeachment da presidenta significa acrescentar à nossa história mais um capítulo vergonhoso: um golpe protagonizado pelo judiciário, validado pelo congresso e inflamado pela mídia. Promover o impeachment da presidente é abrir um precedente para que o direito de presunção de inocência seja determinado pela opinião pública (artificialmente insuflada pela opinião publicada) e não pela lei. E sabemos o que acontece quando o mais básico dos preceitos democráticos é ignorado. Há inúmeros exemplos na história. Basta lembrarmo-nos do Terror: a guilhotina não fez distinção entre Danton e Robespierre.

    Aqueles que votarem a favor do golpe, macularão para sempre suas biografias e mergulharão o país numa espiral de confrontos, cujos desdobramentos ninguém é capaz de prever, podendo culminar numa guerra civil! É esse o triste legado que Vossa Excelência pretende deixar ao país? Pois é isso o que acontecerá, caso se concretize o golpe de estado perpetrado por aqueles que votarem pela deposição da presidente democraticamente eleita. E o julgamento da história será inexorável. Lembre-se: 2016 não é 1964! Golpistas são – com muito razão – universalmente desprezados e considerados os mais vis dos traidores, pois sua perfídia tem alcance universal. Por isso, golpistas sempre foram, são e continuarão sendo, eternamente, traidores da Pátria.

    #ContraOImpeachment #GolpeNuncaMais

  4. Aguiar de Souza Responder

    Rodrigo, a prova que eles não tem os votos é que o deputado DEMoníaco Mendonça Filho apresentou uma questão de ordem ao Presidente-réu Eduardo Cunha para impedir que deputados apresentem atestado de saúde para justificar a ausência do plenário no dia da votação. Pediu até que ele convoque uma junta médica para avaliar se a possível doença do parlamentar o impediria de ir votar. Seria cômico se não fosse trágico. Mas foi isso mesmo que assisti na TV Câmera hoje à tarde ,12/04/2016.
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