Depois de destruir Nacionalismo árabe, EUA preparam o bote na América do Sul

A política de intervenção de Washington se move agora para a América do Sul. Venezuela, Argentina e Brasil são os alvos. Vão virar Estados zumbis?

guerra oriente mediopor Rodrigo Vianna

A lista é impressionante: Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria. Em menos de 15 anos, os quatro países se transformaram em Estados zumbis. É algo muito grave, a indicar a direção para onde aponta a política expansionista dos Estados Unidos no século XXI.

barricada caracas

Com o fim da Guera Fria, deixaram de ter qualquer anteparo para sua estratégia de fazer tombar todos os governos que signifiquem ameaça ao controle do petróleo no Oriente Médio (ou em outras partes do planeta).

Saddam Hussein (Iraque) não era um santo. Todos sabemos. Muamar Gadafi (Líbia), tampouco. Os dois, ao lado da família Assad na Síria, faziam parte de um movimento (o nacionalismo árabe) a significar um grito de independência desses países – que, no passado, haviam estado sob domínio turco ou europeu.

Outra característica unia os três (e era a marca também do regime forte no Egito, comandado por Mubarak, que tombou na tal “primavera árabe”): conduziam estados laicos, com um discurso pautado mais pelo “orgulho nacional” do que pela religião. Eram países comandados por regimes fortes, organizados, com projetos de nações independentes. Apesar de longe, muito longe, de qualquer princípio democrático.

Em nome da democracia, os Estados Unidos varreram do mapa esses governantes. A Líbia foi retalhada, já não existe, debate-se em crise permanente com o confronto entre pelo menos 4 facções armadas. A Síria é um semi-estado, em que Assad resiste em Damasco, mas vê o Estado Islâmico (EI), de um lado, e os “rebeldes” armados pelos EUA/Europa, de outro, avançando sobre grandes porções do território. O Iraque é agora um protetorado ocidental, sem qualquer margem para se organizar de forma independente.

Vejo alguns analistas “liberais”, na imprensa brasileira, dizendo que Washington “fracassou” porque derrubou governos autoritários e, em vez de democracias, colheu o caos no Oriente Médio. Coitados. Tão ingênuos esses norte-americanos.

Ora, ora. Pode haver algo mais fácil de controlar do que populações desorganizadas, que se matam em guerras sem fim, sem a proteção de nada parecido com um Estado organizado?

O projeto dos EUA era – e é – o caos, a criação de uma grande franja que (do norte da África ao Tigre e Eufrates, chegando às montanhas do Afeganistão) debate-se no caos. É o que tenho chamado de “Estados zumbis”.

Mais recentemente, a intervenção de Washington avançou para a Ucrânia. De novo, vejo quem lamente que a intervenção não tenha levado a uma democracia ucraniana em estilo ocidental. Como se o objetivo fosse esse…

Está claro que, também na Ucrânia, o objetivo era criar um estado de caos e inoperância – que, de toda forma, é melhor do que uma Ucrânia forte, unificada, pró-Russia (essa era a ameaça antes da famosa rebelião fascista da Praça Maidan, insuflada pelos EUA, em Kiev).

A diferença é que na Ucrânia os norte-americanos encontraram resposta russa, que puxou para si a Criméia  e as regiões do leste  ucraniano (onde a cultura dominante e a língua são russas). “Ok, vocês podem criar o caos na sua  Ucrânia; mas na nossa, não” – esse parece ter sido o recado de Putin a Obama.

Evidentemente, a derrubada dos governos em cada um desses países (do norte da África ao Afeganistão, da Ucrânia ao Tigre/Eufrates) seguiu motivações e roteiros próprios. Mas todas essas intervenções são parte de um mesmo movimento de afirmação da hegemonia dos Estados Unidos.

O poder imperial, em relativa crise econômica, se afirma pelas armas de forma impressionante, mundo afora – e isso em apenas 15 anos.

Vivemos o período das “operações especiais”, das guerras não-declaradas, das rebeliões movidas a whatsapp e vendidas como “gritos pela democracia”.

O mundo se ajoelha ao poder imperial. O nacionalismo árabe, que oferecia alguma resistência ao avanço dos EUA e seus parceiros da OTAN, foi destroçado.

Outro pólo de oposição é o que se desenha na Eurásia, com a parceria energética e logística entre russos e chineses. Por isso, Putin está sob cerco econômico, e ali – mais à frente – será jogada a partida decisiva no xadrez mundial.

Antes disso, no entanto, a política de intervenção de Washington se move para a América do Sul. Honduras e Paraguai foram ensaios, bem-sucedidos.

Venezuela, Argentina e Brasil: aqui, agora, vemos avançar o projeto de criar novos Estados zumbis. Depois do nacionalismo árabe, chegou a hora de destruir o nacionalismo latino-americano. Não é por outro motivo que “bolivarianismo” virou o anátema, o palavrão, o inimigo a ser derrotado – numa ofensiva que é política, econômica e sobretudo midiática.

Claro que todos esses país possuem problemas. Não quero dizer que todos os dilemas da América do Sul sejam responsabilidade do Império do Norte. Não. Simplesmente, Washington aproveita as contradições e fraquezas internas, em cada um desses países, para assoprar a faísca do caos.

Aqui, no Brasil, a intervenção não precisa ser diretamente militar. Basta atiçar setores sob hegemonia da cultura (e da grana) dos Estados Unidos.

Num encontro social (em São Paulo, claro), recentemente, ouvi a proposta pouco sutil: “bom mesmo é que o Obama invadisse isso aqui, e acabasse com essa bagunça”. Esse é o projeto dos paneleiros no Brasil. O fim da Nação, a anexação ao Império.

A próxima batalha – parece –  será travada na Venezuela.

Maduro fustigou os Estados Unidos, mandando embora parte do pessoal da embaixada dos EUA em Caracas. Agora Washington reage e declara a Venezuela uma ameaça à segurança dos Estados Unidos (leia aqui).

A escalada verbal favorece os setores mais duros do chavismo. Ameaça de intervenção do Império pode dar a justificativa para um governo chavista mais forte, em que o poder já não estaria com Maduro, mas com os militares chavistas. A burguesia que hoje bate panelas em Caracas talvez tenha que seguir o caminho da elite cubana, em direção a Miami. Mas haveria guerra civil. O caos. Uma Líbia, ou um Iraque, às portas do Brasil.

Com um governo muito mais moderado, o Brasil também vive em estado de pré-convulsão política. Reparem: é o Estado (e não o “petismo”) que pode se desmanchar. Petrobras, políticas sociais, a própria ideia de desenvolvimento. Tudo isso está em cheque. E não é à toa.

Na Argentina, já se fala abertamente no envolvimento de serviços de inteligência estrangeiros, na morte do procurador Nisman – com o objetivo de desestabilizar Cristina Kirchner – leia mais aqui, no texto de Paul Craig Roberts (sugestão do site O Empastelador).

No Brasil, vivemos uma venezuelização de mão única: apenas um dos lados aposta no confronto total. Os paneleiros querem sangue; o governo mantem a moderação verbal. Até quando?

O cenário é de um confronto que ameça não o governo Dilma, mas a própria ideia de um Estado nacional com projeto próprio.

A manifestação do dia 15 é só um capítulo da guerra. A própria batalha do impeachment é parte de uma guerra muito mais ampla.

Essa guerra será dura, e pode durar muitos anos. O tempo da conciliação acabou.

P.S.:

Nos anos 80, quando se falava na participação direta dos Estados Unidos na derrubada de TODOS os governos do Cone Sul (Argentina, Brasil, Chile e Uruguai), ocorrida uma ou duas décadas antes, certos liberais uspianos sorriam, e atribuíam a afirmação a “teorias conspiratórias”; com a abertura dos arquivos em Washington, conheceu-se a verdade.

Parece “teoria conspiratória” que, depois de eliminar o nacionalismo árabe, os EUA preparem-se para um ataque contra a América do Sul bolivariana?

 

Golpe 16 - O livro da blogosfera em defesa da democracia

Golpe 16 é a versão da blogosfera de uma história de ruptura democrática que ainda está em curso. É um livro feito a quente, mas imprescindível para entender o atual momento político brasileiro

Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.

Compre agora e receba em seu endereço!


Join the Conversation

17 comments

  1. Ricardo CP Reply

    Rodrigo Vianna, o olhar mais profundo da blogosfera: sempre com a análise mais completa e penetrante. Quando fica parado muito tempo, então…solta uma destas, sensacional!

    1. Pedrão Reply

      Para quem se interessar pela denúncia de um jornalista americano em um jornal local de grande circulação: http://www.portalmetropole.com/2015/03/jornalista-americano-alerta-que-governo.html

    2. Hermes Reply

      Parabéns pela sua visão dialética, Ricardo CP, peço-lhe que leia minha postagem para este ítem: – Harry Truman ordenou os ataques com bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki… Bush ordenou a destruição do Afeganistão e do Iraque… Obama ordenou a destruição da Líbia… Os EUA gastaram mais de cinco bilhões de dólares para desestabilizar a Ucrânia… E a Síria ? E o Vietnam ? E a Coreia ? E o Yemen, a Somália e o Sudão ? E as ditaduras na América Latina nos anos 60, 70 e 80 ? E as mil bases militares assassinas pelo mundo afora ? E Guatánamo ? E Abu Graib ? Aff… Hitler é fichinha… – Isso é indefensável !… Para consolidar a certeza da ação do império do mal basta ler estas duas frases abaixo entre aspas, que são do 33º. Presidente dos EUA em 1945 e foram lembradas por Oliver Stone e Peter Kuznick, no bestseller The Untold History of United States, quando Harry Truman assim se referiu a Hiroshima: “Este grandioso acontecimento da história da humanidade”. Acrescentando: “Informar a explosão foi a mais feliz declaração feita em toda minha vida”. Quem torse pelos EUA está desinformado ou de má fé.

  2. Steiger Reply

    Besteiras brasileiras. Sempre criativas.

  3. Tássio Reply

    Contra fatos não há argumentos, ainda mais quando se tratam de fatos históricos. Naturalmente é difícil de perceber a magnitude de grandes acontecimentos no momento em que estes ocorrem, mas, compartilhando das ideias do texto, parece-me questão de tempo para vermos a metamorfose do nosso grande “zumbi” verde e amarelo.

  4. Jose Silva Reply

    Melhor Zumbi dos EUA que escravos do comunismo.
    Onde assino o apoio aos norte-americanos ??

    1. Johnny Reply

      Tenho uma idéia melhor, ó bastardo paranóico da guerra fria: Por que simplesmente não te mudas para os guetos e “slums” das terrras Tio Sam e viva de lavar pratos e biscates, sem seguro saúde, trabalhando 14 horas por dia e sem direitos políticos? Vida de “cucaracha” não é mole, certo?

    2. Hod Hod Reply

      Te aconselho dar uma passadinha No Iraque,Siria, Libya, Afganistao, Paquistao e entao reconsiderar suas escolhas !
      P.S : sou Egipcio que mora no Brasil desde 6 anos e sei muito bom o que eh o Brasil, e o que eh Zumbi dos EUA !
      e sei muito bem o que eu estou dizendo !

    3. giovana Reply

      Ei mico dos comentários : o PT é social democrata, e não ‘comunista’. E, qto à Disneyworld, acho que teu apoio será incrível por lá, mas como és um cucaracha semi-letrado, no máximo consegues um subemprego e serás tratado como sub-cidadão.

  5. Carlos Alberto Reply

    Comunista usando caneta,lapis ou um editor de texto é tudo igual so escreve merda.. Tudo pra eles é culpa dos EUA e nao das loucuras ideologicas proprias, todo comunista deveria ser condenado a prisao perpetua, num manicomio.

    1. giovana Reply

      Ok, já deu sua opinião. Agora volte lá correndo e vá dar lucro exorbitante ao patrão. Vira-lata se humilha sozinho. Impressionante.

    2. Maria Reply

      Pelo visto esta direita sem cérebro é também chegada ao desejo de chafurdar em restos de tragédias. Oh, como são inteligentes os comentários que deixam por aqui. a gente não vai nas mídias que escrevem para eles para evitar o contato com estas bobagens, mas eles vêm aqui incomodar. Como se dizer as besteiras que dizem nos fizesse mudar de lado.

    3. Luiz Alberto Reply

      São pessoas como esses dois (Carlos Alberto e José Silva) que só despertam pra realidade com uma canga atravessada no pescoço… pensam que se os yankees entrarem aqui, o “ingreis” deles irá livrá-los das balas de Tio Sam.

    4. Maria Reply

      Lendo os comentários aqui fico cada vez mais assustada com a auto proclamação da burrice destas criaturas de direita. Até os dois ou três argumentos que utilizam são meras repetições (ou são falsos perfis de um mesmo autor?) De qualquer modo deve se tratar de um tipo especial de atrofiamento em que tais criaturas não se interessam por nada mais que arrotar a burrice como se esta fosse uma joia cara. Francamente é preocupante conviver com esta praga crescente: uma burrice ostentada.

    5. frentista Reply

      Você poderia refutar com argumentos palpáveis colega, pois dizer que “comunistas” são todos iguais e deveriam ser internados não derruba uma palavra do que foi dito neste site. Portanto menos panelaço e mais estudo.

  6. Luciana Reply

    Concordo em termos com o texto. Se os povos do oriente médio, dos países citados, e os da América Latina, fossem menos idolatras, corruptos, fanáticos religiosos, egoístas, malandros, entre outros “adjetivos” menos nobres… , esses fatos históricos teriam tido outro desfecho, o governo Norte Americano foi e ainda é fdp, sim.. É fato! não se pode negar, mas não teria tanta persuasão no mundo de forma bélica entre outros pontos se os seres humanos dessas nações fossem um pouco mais evoluídos em vários aspectos. . Entende?.. acho muito fácil falar q a culpa de tudo q é ruim vem do império Norte Americano, e com isso eximirmo – nos das nossas próprias culpa e fracassos.

  7. Enio Oliveira Reply

    Depois de ler todos os comentários,não vou fazer proselitismo,apenas uma pergunta :para onde todos os perseguidos ou pobres do mundo todo desejam ir ? Porque será ?