
(06/10/2008 15:26)
Por Glauco Faria
Com a pequena vantagem obtida pelo atual prefeito Gilberto Kassab (DEM) já no primeiro turno sobre a petista Marta Suplicy, boa parte dos analistas da imprensa de sempre se apressaram em dizer que essa é uma vitória do governador José Serra (PSDB). Aliada ao revés de Aécio Neves com a candidatura Lacerda em BH, parece que o tucano vive o melhor dos mundos, esfregando as mãos como um estrategista brilhante que superou dois inimigos internos em um só domingo.
Mas será que é isso mesmo? Serra trabalhou nos bastidores para a eleição de Kassab, mas a grande arrancada do prefeito paulistano tem pouco a ver com a “forcinha” do governador. Apesar da sua lealdade e de sempre citar Serra nos discursos, Kassab contou com um importantíssimo trabalho de marketing político, fazendo uma campanha que conseguiu valorizar os feitos da sua administração e ocupando o posto de anti-PT, como já dito aqui. Trabalho tão acertado que, antes do início do horário eleitoral, sua administração ostentava 35% de ótimo/bom, segundo o Datafolha, e chegou a 50% na reta final da campanha. Além disso, o atual prefeito contou não apenas com a máquina, mas com o maior tempo de TV e com a maior arrecadação de campanha.
Por outro lado, Serra não pôde dar seu apoio público ao demo, portanto não faz sentido atribuir qualquer transferência de votos de um para o outro. O mérito que a mídia atribui a ele então passa a ser o de grande mentor político que consegue pavimentar seu caminho rumo ao Planalto em 2010. E é aí que uma aparente vitória hoje pode implicar em derrotas futuras.
Não é a primeira vez que Serra atropela, de uma forma ou de outra, aliados/adversários para conseguir o que quer. Em 2002, por exemplo, detonou a candidatura de Roseana Sarney e depois massacrou Tasso Jereissati na disputa interna para ver quem seria o candidato presidencial do PSDB. O resultado da manobra é que o então PFL não se aliou aos tucanos formalmente, o que diminuiu o tempo de TV e a sustentação política de Serra, e Tasso fez tanto esforço pelo colega de partido quanto o governador paulista fez por Alckmin nesta eleição. Ganhou, mas não levou. De quebra, na mesma eleição, conseguiu atrair o ódio de Ciro Gomes com o uso de métodos pouco ortodoxos para tirar seu adversário do segundo turno. Uma aliança improvável dos dois na reta final se tornou impossível e Ciro foi para os braços de Lula.
Agora, novamente derrota um adversário de seu próprio partido. Criou para Alckmin uma situação embaraçosa e isso pode resultar em fraturas e feridas que não vão se fechar até 2010. Mesmo enfraquecido, Alckmin conta com o apoio boa parte da bancada paulista na Assembléia Legislativa e tem influência no estado. O vereador mais votado da capital, aliás, é seu aliado Gabriel Chalita, que também se tornou um desafeto de Serra após a atual secretária de Educação paulista jogar em suas costas a maior parte do medíocre desempenho da área no âmbito estadual. Ou seja, Alckmin está longe de ser carta fora do baralho.
Permanecendo no partido, Alckmin é uma pedra no sapato do governador e a divisão pode se acentuar até 2010. Mais que habilidade, Serra terá que refrear o instinto de escorpião que acaba envenenando gente do seu próprio partido. E, obviamente, se esforçar para eleger Kassab. Caso contrário, será cobrado de forma brutal pela derrota em São Paulo e passará do paraíso ao inferno em três semanas. Das “estrelas políticas” no cenário brasileiro, Serra é quem mais tem a perder no segundo turno.
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(02/10/2008 11:55)
As eleição municipais estão terminando neste fim de semana para a ampla maioria das cidades brasileiras. Sem o fim de segundo turno ainda será difícil dizer quem sai vitorioso, mas algumas eleições já se mostram como fundamentais para apontar os vitoriosos das urnas e as candidaturas quem saem mais fortalecidas, principalmente no que diz respeito à força de eleitoral de Serra, Aécio e Dilma.
As cidades chaves desta eleição são: São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Rio de Janeiro, BH e Natal.
Em São Paulo, Alckmim pelo jeito ficou pelo caminho e duvido que se mantenha no PSDB. A depender de outros resultados, ele pode liderar a debandada de uma ala paulista da tucanada. E fazer esse movimento, inclusive, junto com Aécio Neves. Há duas opções, a do PMDB, que em tese parece a mais convidativa, mas que é repleta de barqueiros-chefes diferentes em cada estado. Parece difícil, por exemplo, ver Alckmin dividindo o partido com o Quércia em São Paulo.
Por isso a canoa do PSB ganha importância e pode vir a ser o novo porto seguro dos anti-serristas. Ciro Gomes adoraria e aceitaria tanto ou ser vice de Aécio ou ser apenas candidato ao Senado pelo seu Ceará. Essa debandada tucana pode se fortalecer se Kassab ganhar a prefeitura, mas se Marta vier a superá-lo no segundo turno o cenário passa a ser outro. Serra vai ser cobrado pela derrota e pode se enfraquecer até para a disputa à presidência. Aí Aécio pode se manter no partido.
Porto Alegre – A capital gaúcha sempre foi a vitrine petista e se o partido nem for para o segundo turno isso pode impactar em Dilma. Não se pode esquecer que Dilma é gaúcha. E se o PT de lá ficar fora do turno final e Marta vier a ganhar em São Paulo, será que o grupo paulista aceita a candidatura da mãe do PAC numa boa? Eu duvido.
Salvador – Um segundo turno baiano com João Henrique e ACM Neto seria um desastre para os nordestinos petistas, em especial para o governador Jacques Wagner. Podem anotar que se isso vier a ocorrer a reeleição de Wagner passa a ser um projeto de risco, já que o ministro da Integração Nacional Geddel Vieira Lima começa sua campanha para conquista o Estado no dia seguinte ao resultado da capital, principalmente se João Henrique vier a ser reeleito.
Por conseqüência, isso fortaleceria a ala Serrista do PMDB. E Geddel se seguraria no governo até quando pudesse, mas depois se acertaria com Serra para enfrentar Wagner.
Rio de Janeiro – A vitória de Eduardo Paes, que parece quase um fato consumado deve fortalecer ainda mais o governador Sérgio Cabral. Ele não pode ser descartado como uma opção do PMDB para disputar a presidência da República. Não é fácil para o partido viabilizar a candidatura própria, mas isso também não pode ser completamente descartado.
BH – Depois da eleição é que o Acordo Mineiro vai vir à tona. É preciso saber se o PT de Pimentel entregou a prefeitura de mão beijada para a turma de Aécio ou se pode haver alguma contrapartida com vistas às eleições do governo. Mas a grande “fofoca mineira” é que Pimentel poderia migrar com o seu grupo para a canoa do PSB e ingressar no projeto de Aécio se ele viesse a fazer o mesmo movimento rumo ao partido de Ciro. Isso, sem dúvida, daria uma chacoalhada na disputa presidencial e deixaria o caminho livre para Patrus ser o candidato do PT, mas numa situação de fraqueza política.
Natal – Não se trata de uma grande capital, mas se tornou simbólica. Lula quer eleger Fátima Bezerra prefeita de qualquer jeito. Ele está com gosto de sangue na boca e pretende se vingar do senador José Agripino Maia, o pai-político da candidata Micarla, que disputa com Fátima. Pessoas próximas ao presidente dizem que já o viram brincar que se for o caso muda o domicílio eleitoral o Rio Grande do Norte e sai candidato ao Senado só para derrota Agripino em 2010. Se Lula vier a perder, isso lhe trará algum desgaste. Se ganhar, dá um exemplo de que não é muito bom se meter a besta com ele. E nesse caso, pode ficar ainda mais fortalecido para conduzir com tranqüilidade sua sucessão.
Claro que ainda é cedo para falar 2010, aliás, não conheço um político que diga algo diferente disso. Mas não se esqueça que em política cedo ou tarde são palavras com sentido bastante relativos.
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(23/09/2008 14:44)
Em sabatina ´na Folha de S. Paulo, o candidato Geraldo Alckmin disse que o o seu adversário Kassab é “dissimulado"”e o acusou de querer “desconstruir o PSDB”.
O tucano e secretário de Governo da prefeitura de Kassab, Clóvis Carvalho, por outro lado afirmou que o candidato do PSDB não tem projeto e nem moral para fazer críticas. Os dois têm razão, brinca um petista de colarinho alto. Tendo a concordar com ele.
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(23/09/2008 12:28)
O deputado federal Ricardo Berzoni disse a este blogueiro que não faz parte do time que trabalha com a meta de 1 mil cidades para o PT. Na sua opinião, se o PT vier a aumentar o número de prefeituras para algo próximo a 550 cidades terá dado um “salto bastante significativo”.
Segundo Berzoini, “o otimismo exagerado de alguns companheiros não está baseado na realidade. A disputa é muito mais complicada do que parece”.
Ele ainda garantiu que não aceita mudança no estatuto no partido para que possa ser reconduzido ao cargo depois de 2009, quando se encerra seu mandato. E promete que depois das eleições municipais vai liderar um grande debate a cerca de pontos estratégicos em relação à construção partidária.
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(17/09/2008 16:15)
Por Glauco Faria A crise atual do mercado imobiliário estadunidense, com todos seus efeitos, gera uma série de considerações e ponderações que colocam em xeque os dogmas do neoliberalismo. A mais óbvia delas é o chamamento do Estado para intervir na economia, com o governo dos EUA tendo que assumir o controle de gigantes do setor e injetando recursos para evitar uma catástrofe maior. Ao que parece, o modelo econômico neoliberal parece aquele garotinho rico que sai de casa, grita aos quatro cantos que é independente, mas quando a coisa aperta pede socorro pro papai.
Há quase seis meses, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo já alertava sobre os riscos da crise nos Estados Unidos e também contava que o governo brasileiro já se preparava para os possíveis cenários decorrentes de tal situação. À época, o professor da Unicamp adiantava que os EUA teriam que tomar medidas que contrariavam seu próprio ideário, vendido ao resto do mundo (principalmente aos países em desenvolvimento) como remédio para todos os males. "Na Crise de 29, o endividamento total das famílias era de 40% do PIB. Hoje é mais de 100%. Uma diferença fantástica, o nível de endividamento é fantástico. (...) Esse é um problema de inadimplência, não de liquidez. Como são 14 milhões de contratos de devedores, uma parte substancial não vai ser honrada e você tem que fazer como o Getúlio fez, moratória. Isso é doído pra eles [estadunidenses]. Eles pensam 'como fazer isso e quebrar os contratos'?". E completava: "A coisa é muito clara: vai ter que ter uma operação de salvamento, com uma intervenção do Estado brutal, só comparável ao New Deal. O controle do Fed sobre os bancos vai ter que ser rigoroso."
Esse é o tipo de crise que pode não apenas questionar fundamentos, mas provocar outros tipos de reflexão sobre a própria eficiência e atualidade do atual modelo econômico, algo que à primeira vista interessa mais aos operadores do mercado do que à esquerda (embora não seja verdade). É disso que trata Ladislau Dowbor, entrevistado principal e capa da Fórum de setembro que está nas bancas. Para ele, o "salve-se quem puder" da concorrência sem limites está se tornando ineficiente para o capitalismo e mesmo quem não está situado no campo progressista começa a enxergar nos princípios colaborativos uma saída para o impasse.
É o que faz, por exemplo, um gigante como o Google quando lança seu navegador próprio em código aberto. Porém, pela frente existe uma série de obstáculos, como as grandes corporações que enxergam na propriedade intelectual seu grande diferencial em relação aos demais. "O problema das patentes e do controle do conhecimento é absolutamente vital. Ignacy Sachs, quando lançou o último livro dele no Brasil, disse que, se no século passado o embate era por quem controlava as fábricas, porque o centro da economia era a indústria, hoje o grande embate é quem controla o direito de acesso ao conhecimento", diz Dowbor.
Se quisermos de fato discutir e propor mudanças no atual modelo econômico, esse é o momento de se debater como democratizar a peça-chave da nova economia, o conhecimento, e a propriedade deste. Do contrário, discutindo nos mesmo moldes de sempre, quem tem a ganhar são os defensores do status quo e esses já ganham há tempos...
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(15/09/2008 11:25)
Por Glauco Faria
Geraldo Alckmin mudou o marqueteiro, mas sua campanha parece perdida como antes. Kassab já empatou com ele e aparece na frente na pesquisa do Datafolha, dentro da margem de erro. Na descendente, o tucano tenta táticas algo desesperadas para ir ao segundo turno contra Marta Suplicy.
Uma das novas peças publicitárias da campanha reflete o descontrole. Um apresentador aparece associando o PT à baderna, às greves etc etc etc. E, no meio do discurso que tenta convencer o eleitor de que Alckmin é a melhor opção para enfrentar Marta, vem a seguinte pérola: “o Lula, tudo bem, o problema é o PT”.
A tática não é propriamente uma novidade. Quanto Paulo Maluf enfrentou Eduardo Suplicy no segundo turno das eleições municipais de 1992, um de seus jingles dizia “Não tenho nada contra o Suplicy, eu só não quero o PT mandando aqui”. As referências ao partido eram desabonadoras e atribuíam as qualidades negativas comuns à época: a agremiação promovia a desordem, era composta por radicais, um antro de comunistas... e outros argumentos do gênero, aproveitando os conflitos vividos pelo partido no governo Erundina.
Mas não só a campanha de Alckmin não viu que a situação atual é bem diferente daquela e o discurso da ordem ficou um pouco bolorento, como também não percebeu que Maluf fez aquilo em um segundo turno. Fazer isso hoje pode ser um tiro no pé, já que atacar Marta a essa altura pode beneficiar Kassab. Se, por exemplo, parte do eleitorado conservador das regiões periféricas desistir de votar em Marta (sim, há conservadores na periferia), eles migrarão provavelmente para Kassab, que tem avaliação de 50% de ótimo/bom e uma campanha muito mais engrenada que a de Alckmin. O posto de anti-PT, ao que parece, está ocupado.
Restaria o ataque direto ao demo, mas o tucano sabe que tal estratégia também não deu certo contra Lula. Seu bom-mocismo não combina com agressões, ainda mais se forem feitas em relação a um administrador bem quisto. Porém, o maior risco de tal tática é Alckmin perder votos entre os eleitores que são contra Lula. Uma minoria, mas que pode ser decisiva na hora de definir uma vaga para o segundo turno.
Se o eleitor que votou no tucano nas eleições de 2006 comparar o Alckmin de hoje com o daquela ocasião, vai se perguntar: como ele pôde mudar tanto? Relembremos algumas pérolas do tucano desferidas contra Lula na campanha presidencial:
"Não sou o tipo de governante que diz que não sabia, que convive com o crime e com a corrupção na sala ao lado."
"Governo corrupto é assim mesmo, tem de esconder”
“Agora, na realidade, o presidente deu as costas para o povo brasileiro, para a Justiça, para os bons costumes. Isso é fato.
"Aquela cadeira vazia [no último debate do primeiro turno] é bem o retrato do Lula. Ele não tem postura democrática. É omisso, é fraco e frouxo. Não assume a responsabilidade"
Como se pode observar, são juízos de valor emitidos de forma bastante assertiva. Será que agora, só porque Lula tem popularidade recorde deixou de ser omisso, fraco, frouxo, adquiriu bons costumes e deixou de conviver com o crime e a corrupção? Então o problema não era Lula, mas sim o PT? Se é assim, quando você, Alckmin, adjetivou o presidente das formas acima, era um erro de avaliação seu ou você estava faltando com a verdade?
Em 1992, Maluf nunca chegou a atacar Suplicy de forma veemente, por isso seu discurso guardava certa coerência. Mas, para Alckmin, sua campanha dizer que “Lula, tudo bem” e que o problema é o PT, mostra a capitulação diante da popularidade do presidente e deixa clara a incoerência de alguém que pode assinar o atestado de incompetência política ao perder no primeiro turno uma disputa em que se esforçou demais para entrar.
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(12/09/2008 16:56)
Por Glauco Faria "Datafolha - Pela primeira vez, Lula é aprovado por todas as classes sociais"
Quem falou que a matemática é uma ciência exata? O título acima, que esteve presente durante boa parte do dia 12 no portal Uol, dá a impressão de que Lula antes era “reprovado” em algumas classes sociais. Engraçado, mas de onde eu venho, se a soma de ótimo/bom superar a de ruim/péssimo significa aprovação, já que o conceito de regular pode pender tanto para cima quanto para baixo.
Claro que o que a pesquisa de fato revela é que Lula alcançou mais de 50% de ótimo/bom no único segmento social em que ele não havia alcançado, o daqueles que ganham mais de dez salários mínimos. Também conseguiu o mesmo na região sudeste, onde, na pesquisa anterior, seu índice alcançava 47% e hoje chega a 57%. Ou seja, o título da notícia no portal é equivocado mesmo.
Considerando os dois mandatos do petista, seu pior momento foi registrado na pesquisa de 13 e 14 de dezembro de 2005, quando tinha 28% de ótimo/bom e 29% de ruim/péssimo. Curiosamente, seu pior momento se equivale ao melhor de FHC no segundo mandato, já que o máximo que o ex-presidente sociólogo atingiu nesse período foi 31% de ótimo/bom.
Talvez por conta disso e ainda sem condições de fazer uma oposição digna do nome, já que muitos de seus candidatos garganteiam ter apoio de Lula, os tucanos ontem apelaram para um tipo de tática que parecia enterrada em termos de debates políticos no Brasil. Um e-mail cujo remetente era psdbimprensa@psdb.org.br tinha como assunto: Lula é analfabeto em história do Brasil, diz deputado. No site do partido, está lá a “notícia”.
O parlamentar se referia ao fato de Lula ter dito no dia 10, em Manaus, que o último governo a investir em infra-estrutura no Brasil (fora o dele obviamente) foi o de Geisel, embora tenha atribuído ao mesmo a responsabilidade pelo endividamento que paralisou a economia do país na seqüência. Ofendido no que dizia respeito aos oito anos de FHC, o deputado Nilson Pinto (PA) reagiu com a pérola citada acima.
Não é porque um presidente ou qualquer ocupante de cargo público tem alta aprovação que se torna intocável. Aliás, nesse mesmo espaço Lula já recebeu muitas críticas. Mas contestar uma declaração com esse tipo de adjetivação remete ao preconceito usado desde sempre contra Lula (confira aqui episódio narrado por Ricardo Kotscho em 1989) , e é algo simplesmente repugnante. O PSDB não precisava disso...
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(09/09/2008 15:08)
Por Glauco Faria Assunto bastante caro ao presidente, o futebol de novo entrou na pauta da política brasileira. Tudo porque Lula citou o astro argentino Messi como exemplo de atleta que "perde a bola e não fica de braços cruzados", referência à apatia dos jogadores da seleção brasileira. Em seguida, veio a desastrada e ofensiva declaração do goleiro Júlio César, que sugeriu ao presidente: "então vai morar na Argentina, vira cidadão argentino, renuncia à presidência e talvez o Brasil vai melhorar alguma coisa", em um arroubo típico de quem não aceita críticas. Mas o fato é que, após a "bronca" de Lula, a seleção venceu o Chile por 3 a 0. Se não exibiu um futebol brilhante, ao menos demonstrou aplicação, algo que, segundo o zagueiro Lúcio e o lateral Maicon, foi o diferencial em relação aos outros jogos do Brasil nas eliminatórias. Embora Dunga tenha mudado o esquema tático do time, ao que parece muita gente está atribuindo a Lula a vitória brasileira. Pelo menos é o que mostra uma enquete (que, diga-se, não tem valor científico mas é no mínimo curiosa) da ESPN Brasil. Das pessoas que votaram, 55% acreditam que a declaração do presidente foi a maior responsável pela vitória, superando Luís Fabiano, Dunga e Robinho. Claro que isso é também um sinal de protesto não só em relação à postura de alguns jogadores, pouco humildes; como também ao futebol que vem sendo apresentado pelos comandados de Dunga. Mas até nesse episódio banal a popularidade de Lula se manifesta. Se os argentinos pedirem pra Cristina Kirchner criticar a seleção de seu país, há quatro jogos sem vencer nas eliminatórias, certamente o efeito não será o mesmo...
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(02/09/2008 21:00)
Por Glauco Faria
Volta e meia, quando não entendo determinadas atitudes “conciliatórias” do presidente da República, lembro de uma entrevista da qual participei com a filósofa Marilena Chauí. Na conversa, publicada na revista Fórum, ela contava um episódio a respeito do então líder operário no início dos anos 80.
“O Lula estava lá, toda a gente, todo o grupo dos operários do ABC estava lá. As discussões eram muito acaloradas. Num certo dia, houve um longo debate e honestamente não me lembro mais qual era questão, mas recordo-me do ritmo que tomou. Alguns queriam que aquilo fosse resolvido de hoje para amanhã, outros queriam que a solução fosse naquele dia mesmo e não amanhã. E alguns defendiam que se desse na semana que vem. O Lula, então, fez a seguinte observação, que guardo até hoje: 'vocês (para os intelectuais) parecem não levar em consideração aquilo que é próprio da classe trabalhadora. Nós temos muita paciên¬cia, nós temos uma paciência histórica, a gente sabe que de hoje para amanhã tem uma noite no meio e essa noite pode fazer com que de hoje para amanhã tudo tenha mudado. A gente precisa ter muita paciência, ir muito devagar'. Nunca me esqueci disso, porque na hora eu pensei, é isso mesmo. Intelectual de classe média é imediatista e acha que as coisas acontecem da noite para o dia. Quem tem a história de classe junto com ele e vem dessa história de fato precisa ter construído o que construiu com uma enorme paciência”, relatou Chauí.
Não sou nenhum intelectual de classe média, mas confesso que certas atitudes do presidente me fazem transitar entre a inquietação de quem não tem paciência e a absoluta falta de compreensão. Compreendi, mas não aceitei, a tal “transição” pactuada entre o governo FHC e o primeiro mandato de Lula. Ali, para mim, perdeu-se uma grande oportunidade para fazer a ruptura necessária em diversas áreas do governo, senão a macro-ecônomica, “sensível” ao suposto risco que o petismo representava, ao menos em setores fundamentais na própria agenda de esquerda, como a reforma agrária e o combate à corrupção.
Na crise política do chamado “mensalão”, o presidente, com um modo de se expressar que oscilava entre o sereno quase apático e o inflamado que surgia em alguns eventos públicos, mostrou que estava certo. Conhecia os ditames da política e usou-os com rara habilidade.
Mas hoje, vendo Lula afastar a cúpula da Abin, dentre eles Paulo Lacerda, figura fundamental para fazer da Polícia Federal um órgão digno de respeito, sinceramente acho que a conciliação beirou a submissão. Se o primeiro encontro com Gilmar Mendes após o bate-boca entre ele e Tarso Genro na ocasião da prisão de Daniel Dantas já foi algo patético, a nova reunião com Mendes após a “denúncia” de grampo tem um tom de estapafúrdio que faz corar.
O suposto grampo sofrido por Mendes tem como grande “prova” uma reportagem da revista Veja. Pra variar, a fonte do veículo é anônima e não se apresenta qualquer indício mais consistente de uma investigação ilegal promovida pela Abin. Mesmo assim, Lula cede. Curva-se ao presidente do STF e ao poder cada vez mais frágil de um veículo com credibilidade moribunda.
Quem quiser procurar no Google serviços de detetive particular, vai ver inúmeros que fornecem possibilidades das mais variadas de grampo, in loco e à distância até. Se Mendes foi grampeado, fato que se revela por um trecho irrelevante de conversa (bastante oportuno que seja irrelevante), porque o foi pela Abin? Simples, porque Veja diz que sim. Ponto. Basta isso para se afastar a cúpula de um órgão do governo.
Se tivesse seguido o mesmo procedimento antes, afastar todos aqueles a quem o semanário da Abril acusou sem provas, Lula não teria mais ministério. Aliás, ele mesmo teria sido obrigado a se licenciar. Então, porque dessa vez agiu dessa forma? Foi o senhor Mendes, que merece tanta solicitude do Planalto, que o fez agir assim?
O povo que elegeu o presidente merecia explicações um pouco mais articuladas, consistentes. E talvez um pouco mais de coragem.
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(01/09/2008 11:22)
Nenhum dirigente petista trata abertamente disso, mas a meta interna do partido é eleger algo próximo a 1 mil prefeitos nestas eleições municipais. Até março, a avaliação é de que isso era possível porque o PT ganharia em muitas cidades pequenas, avançando sobre os redutos tradicionais do ex-PFL, hoje DEM, e mesmo do PMDB.
Agora, a avaliação é de que o partido pode ganhar em muitas cidades médias e grandes, já que o governo Lula avançou muito nos seus índices de aprovação nas regiões metropolitanas.
Um dos indícios desse novo momento é o crescimento da candidatura Marta em São Paulo. Nem o mais otimista dos petistas imaginava que neste momento das eleições ela teria mais de 15 pontos sobre o segundo colocado. E que ganharia numa simulação de segundo turno contra todos os adversários.
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(29/08/2008 16:56)
Por Glauco Faria
Quando vemos a atual situação do jornalismo no Brasil, principalmente aquele praticado na grande imprensa, em geral a primeira sensação que vem é de desânimo. Mas, observando com mais atenção, pode-se detectar a presença de diversas iniciativas que comprovam o quanto o empenho em fazer da atividade jornalística algo sério é uma cruzada que vale a pena.
Um desses “oásis” é o projeto Repórter do Futuro, realizado pela Oboré, que promove cursos de complementação universitária para estudantes de jornalismo desde 1994. Muita gente boa passou por lá, e tivemos inclusive algumas dessas pessoas trabalhando conosco, como a competente jornalista Marília Melhado.
Abaixo, publicamos o texto de um jovem estudante, Allan Ravagnani, que participa do projeto. Ele produziu uma reportagem sobre a imigração ilegal entre o Amapá e a Guiana Francesa, onde explora as motivações e como os brasileiros vão tentar a sorte no departamento ultramarino francês. E parabéns a ele e aos colaboradores da Oboré.
Catraieiros: o caminho mais curto para um sonho Eles levam os brasileiros desacreditados em busca de uma vida melhor em uma terra pouco conhecida, mas cheia de esperançaDiariamente, muitos brasileiros que anseiam mudar de vida vão tentar a sorte morando no exterior.
São pessoas que, em geral, têm como alvo prioritário os países da Europa ou da América do Norte e lá buscam realizar o sonho de trabalhar, receber em moeda forte e usufruir da estrutura de um país de primeiro mundo.
A França é um dos destinos mais procurados, mas muitos emigrantes não precisam atravessar o Oceano Atlântico para chegar até lá. Há uma opção bem mais próxima, aqui mesmo na América do Sul: a Guiana Francesa.
Fazendo divisa com o estado do Amapá, o território ultramarino francês e o Brasil são separados pelo Rio Oiapoque, e para chegar lá basta uma travessia feita em 15 minutos de barco entre a cidade brasileira com o mesmo nome do rio e a cidade francesa de Saint George.
Além do idioma e cultura, a diferença econômica também é evidente. Ao contrário da vizinha brasileira, a cidade de Saint George é toda asfaltada, limpa, saneada e organizada, enfim, uma cidade bem agradável cheia de casinhas coloridas. A entrada lá é feita sem maiores problemas, mas a travessia e o ingresso dos imigrantes ilegais não são tão simples assim.
Atraídos pelo euro, e pelo ouro, os principais destinos dos brasileiros na Guiana Francesa são os garimpos do interior e a capital Caiena, onde se pode conseguir empregos informais com certa facilidade, e usufruir da bela infra-estrutura e do bom sistema público francês de saúde e educação: "aqui levo uma vida bem melhor do que em Macapá, recebo em Euro, meu filho estuda em escola de qualidade e os hospitais são bons e de graça" diz a imigrante agora legal, Márcia Leão, há 15 anos no país.
Para chegar até Caiena de forma clandestina, a travessia é feita por barcos ou catraias, um tipo de embarcação de madeira com capacidade para 20 ou 30 pessoas com motor de 40 HP, movido a gasolina. Os catraieiros cobram entre 400 e 500 reais para fazer a travessia, sem garantia de êxito, e também sem a mínima segurança, faltando até coletes de salva-vidas para os passageiros.
A viagem começa na cidade do Oiapoque, norte do Amapá, onde os viajantes se reúnem no final da tarde no porto. Embarcados nas catraias eles partem pelo rio Oiapoque e entram no oceano Atlântico, passando pelo cabo Orange, e chegam ao seu destino, nas praias periféricas da capital guianense.
Dependendo das condições do mar e da fiscalização francesa, a viagem chega a durar até três noites. Sim, as viagem são noturnas, pois durante o dia as catraias são facilmente avistadas e podem ser até afundadas pela guarda costeira francesa, que prende os imigrantes e os deportam para o Brasil. Mas os catraieiros conhecem bem a região e os locais das patrulhas de fronteira, quando o perigo se aproxima, eles levam as pessoas até um ponto qualquer da mata, de noite, e muitas vezes as deixam escondidas com água pela cintura. As pessoas ficam ali, segurando uma sacola com os poucos pertences sobre a cabeça, até terem certeza de que não há policiais para poderem continuar a viagem.
Uma das paradas costuma ser feita na ilha Larjan – “Ilha Dinheiro”, em francês-, já em território da França, para descanso e espera da próxima noite. "Ficamos um dia inteiro escondidos nessa ilha, muitos passageiros ficaram doentes, quando fiz a travessia, tinha até mulher grávida conosco. Não comemos nada, só bebíamos cachaça o dia inteiro, era o que tínhamos para nos alimentar" conta o vendedor de carros Gilberto Petronilho, que fez a travessia há 9 anos.
Se tudo der certo, a viagem continua na segunda noite, com chegada em uma praia próxima de Caiena perto das 6 horas da manhã. Já em terra firme, outro grupo de atravessadores espera os imigrantes, e com os pés na areia começam a correr para fugir rápido dali e de uma possível prisão. Os atravessadores locais levam as pessoas para dentro da mata, onde seguem viagem por trilhas. Porém, no desespero da chegada, muitas pessoas se perdem no caminho, se cansam e ficam sozinhas na mata. Gilberto Petronilho, que atualmente mora nos Estados Unidos, foi um dos brasileiros que fizeram essa viagem e se arrependeu. "Grande idiotice. Primeiro, enfrentei uma viagem de ônibus no meio da floresta a durante noite inteira, entre Macapá e Oiapoque; depois fizemos a travessia de barco que durou três noites ate chegar lá. As ondas de uns 10 metros de altura enchiam o barco o tempo inteiro, estávamos sem segurança nenhuma, fiquei com muito medo de morrer”, conta. “Depois de tudo isso, ainda tive muitos problemas para chegar no garimpo, que também não era nada do que me falaram. Um mês depois me entreguei para legião estrangeira para ser deportado para o Brasil. Guiana nunca mais."
Petronilho explica o motivo de sua emigração. "Em Manaus conheci um sujeito com um imenso cordão de ouro no pescoço, e ele me disse que havia conseguido nos garimpos da Guiana Francesa, perguntei como funcionava, e ele me contou que nos garimpos os patrões pagavam 400 gramas de ouro por mês, mais a comida e a moradia. Fiquei com essa idéia fixa e fui pra lá."
Mas muitas histórias com finais melhores também são escritas na Guiana. Desde a década de 60, quando o governo francês estimulou a ida de brasileiros para trabalhar na construção da base espacial de Kourou – onde são realizados testes com foguetes espaciais -, muitos imigrantes se estabeleceram, casaram, constituíram uma vida e estão lá até hoje, estimativas do governo brasileiro apontam que mais de 50 mil brasileiros vivem legalmente no país vizinho.
O deputado estadual Paulo José (PSDC), integrante da Comissão de Relações Exteriores do Amapá, diz que a imigração, mesmo a ilegal, gera recursos para o estado, por meio do dinheiro enviado pelos emigrantes a suas famílias. Porém, os problemas sociais trazem prejuízos muito maiores. "O fluxo migratório tem estimulado a prostituição, o tráfico de drogas e a infecção por doenças graves", explica o parlamentar.
O deputado também critica a postura da diplomacia brasileira, que, segundo ele, não tem agido para coibir ou diminuir os problemas da imigração. "Posso afiançar que o Itamaraty tem virado as costas para o problema da migração Amapá-Guiana Francesa. Não há ação efetiva que possa coibir ou ao menos minimizar o problema dos brasileiros como o fato de muitas garotas serem aliciadas para se prostituírem em Caiena e locais próximos dos garimpos" conta.
Em fevereiro deste ano, os presidentes Lula e Nicolas Sarkozy se encontraram na região para lançarem a pedra fundamental da ponte sobre o rio Oiapoque, de 400 metros de extensão e que ligará os dois países. O custo da obra será de 20 milhões de dólares. A construção da ponte não diminuirá o fluxo de imigrantes ilegais para a Guiana, será apenas um meio de transporte de mercadorias e passagem de turistas ou moradores que trabalham legalmente do outro lado do rio. Com certeza a parte francesa da nova ponte será muito bem vigiada.
Os barqueiros que fazem diariamente o transporte legal entre as duas cidades serão gravemente afetados, segundo o presidente da Associação dos Catraieiros, Luiz Antônio Lobato Silva. O movimento pode cair até 70%, restringindo o uso das embarcações apenas para o turismo. Faltou dizer que os barqueiros que fazem o papel de coiotes continuarão com bastante trabalho, pelo menos para os próximos anos ou enquanto o cenário econômico mundial não mudar.
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(28/08/2008 13:14)
Por Glauco Faria
A discussão a respeito da criação ou não de uma empresa estatal para explorar petróleo na camada pré-sal é interessante por trazer de volta à tona a definição do papel do Poder Público no planejamento dos rumos do país. Durante muito tempo, o governo acabou sendo alijado do direito legítimo e conferido pelos mecanismos democráticos de pensar o país, algo visto por muitos como “intervencionismo”, mas que foi e é fundamental na história de qualquer país desenvolvido.
Foi justamente a falta de ação estatal que aprofundou e perpetuou a desigualdade no país. Mesmo com ciclos econômicos vigorosos vividos durante o século XX, como o da borracha e da industrialização, não foi assegurado a todos a possibilidade de crescimento e bem-estar. Além disso, o papel de destaque alcançado pelo Brasil no cenário mundial logo arrefeceu diante da falta de visão a longo prazo e as janelas de oportunidades foram perdidas.
Hoje, repetir esse erro é um luxo ao qual o país não pode dispor. As descobertas de petróleo e gás reposicionam o Brasil como um ator mais do que estratégico na área energética. Some-se a isso também uma posição de vanguarda no setor bioenergético e é possível mensurar nossa importância estratégica em um futuro próximo.
Nesse último aspecto, o presidente do Ipea e colunista da Fórum Marcio Pochmann defende, em artigo que será publicado na edição impressa de setembro, que o aproveitamento de um novo ciclo impulsionado pela agroenergia depende fundamentalmente da redefinição do papel do Estado. Na prática, tenta-se evitar a repetição de um modelo adotado desde o ciclo da cana-de-açúcar, que favorece o monopólio, a exploração estrangeira, o massacre dos pequenos e médios produtores e a precariedade nas relações de trabalho.
As grandes corporações já estão de olho e agindo na área sucro-alcooleira, vislumbrando a possibilidade de fabulosos lucros. Estão adquirindo áreas e unidades de produção e a tendência à concentração, que reforça a secular e desigual estrutura fundiária e de renda na área rural, é evidente. Cabe ao Estado dar condições aos menores para competirem e as condições já estão dadas, basta apoiar as iniciativas ligadas ao cooperativismo (verdadeiro) e à economia solidária, por exemplo. O Poder Público não pode e não tem o direito de se esconder, nem no campo, nem no mar.
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(28/08/2008 13:09)
Quando o ex-governador Cláudio Lembo falou da perversa elite branca paulista, fui um dos primeiros a me associar à reflexão. Considero a elite branca paulista a principal responsável pela tragédia que vivemos. E da qual, diga-se de passagem, estamos começando a sair com as ações ainda tímidas do governo Lula. E que mesmo assim já conseguiram criar uma classe C mais robusta no país.
A elite branca paulista sempre apostou no velho, na lógica escravagista. Nunca apoiou às lutas pela modernização das relações de trabalho, por exemplo, em outros estados. Muito pelo contrário, sempre se associou aos coronéis locais, independentemente de quão sujos fossem os instrumentos de ação desses.
Mas se a elite branca paulista é um nojo, a elite branca boliviana de Santa Cruz é ainda pior. Conheço relativamente bem à Bolívia porque já estive por lá em três diferentes ocasiões e por períodos aproximados de um mês em cada uma delas.
A elite cruzenha trata a população indígena de forma mais agressiva e preconceituosa do que os sulistas da KKK faziam com os negros dos Estados Unidos.
E o governo Evo Morales de alguma maneira é símbolo da libertação desses indígenas do jugo desta elite. O jogo que se joga na Bolívia de hoje é esse, mas a nossa imprensa elitizada prefere fazer de conta que o índio que governa a Bolívia é um tosco.
É impressionante até onde vão os compromissos antidemocráticos dessa turma. Se a gente tivesse uma imprensa democrática ela estaria denunciando as ações golpistas dessa turma de Santa Cruz, mas que nada. A nossa elite branca é sócia da elite branca de Santa Cruz como foi de sócia de outras elites brancas em diferentes momentos de perversidade histórica.
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(18/08/2008 09:40)
O Partido dos Trabalhadores é filho das greves do ABC paulista. Os peões que pararam as fábricas daquela região de 1978 a 1980, foram decisivos para que a ditadura acabasse mais cedo e para que surgisse um partido identificado com os movimentos populares. Sem eles e sem Lula o quadro político do Brasil do fim do século 20 e início do século 21 seria muito diferente. E provavelmente viveríamos hoje numa democracia mais debilitada, com menor participação de amplos segmentos da população.
Mais se o ABC foi muito importante para o nascimento e crescimento do PT, apesar de o partido ter elegido, em 1982, Gilson Meneses, prefeito de Diadema, a relação eleitoral com a região é meio dúbia.
Diadema é petista. Com exceção de uma eleição, quando perdeu para Gilson Meneses que saiu do PT, o partido sempre venceu por lá desde a redemocratização.
Em Santo André, o PT venceu em 1988, perdeu em 1992 e desde 1996 está no governo. Em Mauá, foi governo por oito anos, com Oswaldo Dias, de 1996 a 2004. Na última eleição, ganhou com Marcio Chaves, mas sua candidatura foi impugnada pela justiça.
Já em São Bernardo, que de alguma forma é a sede principal do partido, a realidade já é outra. O PT só venceu em 1988, com Maurício Soares. Desde lá só amarga derrotas, a última humilhante com o deputado federal Vicentinho tendo perdido no primeiro turno de forma arrasadora pelo atual prefeito, Willian Dib.
São Caetano é um universo à parte. O PT nunca venceu por lá e pelo jeito vai continuar sem ganhar.
Mas em todas as outras cidades citadas, as chances de vitória são boas. Em Diadema, o partido ganharia com Mario Reali, para prefeito e Gilson Meneses, como vice. Trata-se de uma aliança inédita e que pode ser bastante positiva para a cidade. Em Santo André, o deputado estadual Vanderlei Siraque deve se tornar prefeito, ele não tem adversários à altura. Em Mauá, o ex-prefeito Oswaldo Dias é favoritíssimo. E em SBC, de repente o PT passou a ter chances de vitória com o ex-ministro Luis Marinho. Ele construiu um amplo arco de alianças. Seu vice, por exemplo, é o cantor Frank Aguiar. E um dos seus principais apoiadores passou a ser o ex-prefeito Maurício Soares, que era aliado do grupo de Dib.
Em se confirmando essas vitórias, o PT cresce muito. Mas cresce mais ainda se elas vieram em conjunto com a vitória de Marta na capital, dos candidatos do partido em Guarulhos e Osasco e de uma série de vitórias que começam a se desenhar em importantes cidades do interior paulista.
O projeto Serra presidente pode começar a fazer água nestas eleições. E se o governador, que ainda conta com bons índices de aprovação popular, não se coçar, até o projeto de reeleição pode se tornar algo mais complicado do que parece hoje.
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(15/08/2008 20:06)
Por Glauco Faria A divulgação da pesquisa do Ibope sobre a corrida para a prefeitura de São Paulo causa espanto. A diferença a favor de Marta Suplicy, 41%, contra Geraldo Alckmin, 26%, é algo surpreendente em relação à pesquisa anterior, que apontava empate técnico.
E não há nenhuma explicação lógica para isso, pelo menos à primeira vista. Mas, como a pesquisa foi feita em parte na quinta-feira, deve-se recuperar o “grande fato” daquele dia destacado pela imprensona: o apoio de FHC a Alckmin. Quando um ex-presidente da República tem que declarar publicamente que irá votar em um candidato do seu próprio partido, algo vai muito mal.
E como Alckmin, quando presidenciável, e, na mesma condição, José Serra, fugiram de FHC como o diabo da cruz, há o que se pensar. Parafraseando o poeta Augusto dos Anjos, um urubu pode ter pousado na sorte de Alckmin. Que fardo difícil de carregar.
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Renato Rovai é editor da revista Fórum outro mundo em debate.
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