Por André Lux [Quarta-Feira, 27 de Fevereiro de 2008 às 12:55hs]
- por Miguel do Rosário. do blog Óleo do Diabo.
A ditadura cubana foi pior que a brasileira? O blogueiro esgoto da Veja acha que sim e traz números. Aqui, segundo ele, morreram 400 pessoas, vítimas do regime. Lá foram 40 mil, tirante os milhões que fugiram para os Estados Unidos.
Bem, tenho algumas observações a fazer sobre isso. Primeiro, sobre o número de mortos. A informação é obviamente incorreta. Nem que o chefe de Estado fosse Ghandi ou São Francisco, o governo teria matado apenas 400 pessoas em 20 anos. A contabilidade vale apenas para as mortes mais visíveis, de pessoas de classe média. Contabilizar mortos num país com 8 milhões de quilômetros quadrados é bem mais difícil que numa ilha com 115 mil quilômetros quadrados, a 140 km dos EUA, principal centro de jornalismo e mídia do mundo, com todo interesse para ampliar e divulgar qualquer morte registrada em território "inimigo". Além disso, os EUA patrocinaram uma contra-guerrilha em Cuba e não fizeram o mesmo no Brasil, até porque o regime que ajudaram a implantar aqui era "amigo".
Há uma diferença fundamental. O Brasil vivia um momento democrático. Tenso, mas democrático. Com eleições presidenciais, estaduais, municipais. Com legislativo e judiciário livres. Cuba não. Cuba vivia uma ditadura sanguinária, corrupta e patrocinada pelo país mais rico do mundo. É evidente que num contexto desses, o número de mortes aumenta. Segundo qualquer teoria, capitalista ou comunista, o Estado tem o monopólio da violência e a obrigação de defender o povo que ele representa. Fidel foi deputado federal em Cuba. Acreditava na democracia. Nem comunista era. A guerrilha cubana tem início quando Fulgência Batista cancela as eleições e impõe um regime totalitário.
Aqui no Brasil, o golpe militar foi realizado quando a direita, enfraquecida politicamente, recebe apoio de empresários acostumados com os privilégios governamentais, percebe que sua única chance de alcançar o poder é sequestrando a democracia. Quer terrorismo pior que esse? Matar não somente pessoas, mas a esperança de uma nação gigante, com mais de 100 milhões de pessoas e que ainda vivia o início de um processo de industrialização e autonomia econômica?
A revolução cubana foi uma autêntica revolta popular. A guerrilha castrista não tinha recursos, e viviam da ajuda de populares e intelectuais. A nossa ditadura foi uma porrada vinda de cima, dos altos escalões militares e do grande empresariado, com apoio do embaixador americano. Foi um "putch" militar. Fidel lutou contra uma ditadura que matava, torturava, que não permitia ao povo cubano ter esperanças, que vendia o país descaradamente aos mafiosos americanos. Há toda uma literatura sobre isso.
E há a tortura, praticada sistematicamente pelo Estado brasileiro. Cuba vivia uma guerra civil realmente grave, porque financiada por seu vizinho. As forças de segurança do Brasil esbaldaram-se no mais vil sadismo. Meu tio, Francisco do Rosário Barbosa, que não era filiado a nenhum partido nem militava em nenhuma causa (e se o fosse, o fato continua o mesmo) foi torturado medievalmente até a morte, com menos de 30 anos. Não penso o que penso por causa disso. Mas é um fato. Ele foi torturado pela polícia apenas por sadismo - sendo que dá até pena colocar o Sade nesse tipo de crueldade mesquinha sem a mínima relação com erotismo.
Se você acrescentar que a ditadura brasileira destruiu o sistema educacional e de saúde do país, terá uma excelente contabilidade mortuária para exibir ao futuro. A ditadura cubana, nesse ponto, proporcionou o melhor sistema de saúde e de educação de toda a América Latina, em alguns casos até melhor que os Estados Unidos. Se você contabilizar a redução da mortalidade infantil realizada pela revolução cubana, teremos que pensar se não é o caso de incluir esses números nessa guerrinha infantil em torno de quem matou mais.
A ditadura brasileira, por essas razões, foi muito pior que a ditadura cubana e a Veja e seus cachorrinhos brabos (que se consideram pitbulls porque ladram alto e mordem por trás) representam o rebotalho, o vômito fétido de uma nação que ainda não digeriu bem o que lhe aconteceu durante os anos de chumbo.
Ah, sobre os milhões que fugiram para os EUA, basta comparar com qualquer país caribenho para ver que o regime castrista não influenciou tanto assim.
André Lux
As opiniões emitidas na seção Blogueiros Independentes não refletem necessariamente a visão da revista Fórum outro mundo em debate.


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