Por Urariano Mota [Sexta-Feira, 25 de Abril de 2008 às 18:27hs]
(Fecho os olhos, para melhor falar. Abro e ergo os olhos para um céu deserto de tudo, até da esperança. E por isso mesmo, por mais sem razão e sem nexo, o peito que desejaria gritar, fala e balbucia baixinho, ainda que seja inútil o afã de encontrar uma razão para o que vejo.)
Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, mostrai que sois verdadeiramente mãe de todos artistas caídos em desgraça na terra.
Existe um homem que é grande no tocar, existe um sereno e augusto artista que é largo e alto de coração, existe um violonista de nome Francisco Soares de Araújo, que a simplificação da gente achou por bem chamar de Canhoto da Paraíba.
Minha Nossa Senhora, esta súplica seria inútil se tivésseis a graça de ouvi-lo, um só minuto. Então saberíeis como ele transporta o céu para a brutalidade e para a angústia de todos animais que somos. Então sorriríeis com ele, e como ele, porque irradiante e empática e comungante sempre foi a sua ventura no tocar. Esta prece poderia ser tão-só e somente um insulto à dignidade de Francisco Soares de Araújo, se Canhoto da Paraíba não se encontrasse no estado e no ânimo em que se encontra. Sabei, erguida e nobre Senhora dos sonhos dos desesperados, sabei que Canhoto se acha numa cadeira de rodas, com a voz falha, e todo lado esquerdo do corpo, e toda a mão esquerda, cruel e certeira maldição, paralisada. (É assim que a Providência castiga os bons da alma? Se um homem canta pela mão esquerda, será ela a ferida? Se um artista se expande pela voz, será na garganta o seu câncer?) Sabei, Senhora, que Canhoto mal falando, a tropeçar nas sílabas, como uma grande criança que cresceu para ser coroada por uma cadeira de rodas, sabei, Senhora, que Canhoto ainda assim sorri. Com quase o mesmo sorriso com que o vi um dia, à luz do dia, ao meio-dia na Avenida Guararapes.
Leia a homenagem ao Canhoto da Paraíba no Sapoti da Japaranduba, de Urariano Mota
Urariano Mota
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