Caíam, os paradigmas feito viadutos….

Fica aqui a proposta para a prefeitura de Belo Horizonte: transformar a área remanescente do viaduto que caiu e a alça ainda de pé (devidamente escorada se assim entender a perícia técnica) em um parque, com árvores, bancos, ciclovia, pista de caminhada e muito...

Fiquei algumas semanas matutando sobre as duas tragédias da Pampulha, pensando se deveria ou não costurá-las num mesmo texto. Afinal de contas, a perda de duas vidas é maior que uma goleada, mesmo que a história insista em bradar o contrário.  Por isso resolvi escrever este texto e a proposta que segue abaixo: para que a gente nunca se esqueça de que foram duas as tragédias de julho na Pampulha.

Vamos à tragédia menor. Sofremos uma goleada humilhante da Alemanha. As razões deste fracasso vamos ruminar ainda por décadas, mesmo porque os responsáveis pelo desastre já demonstraram que não aprenderam nada. No máximo vão chamar, além do Dunga, os advogados do Fluminense e da Portuguesa para ter certeza que o dinheiro vai continuar fluindo debaixo de uma legalidade de fachada. A maior ironia foi esta tragédia cair logo na Pampulha, onde nos últimos 12 meses o meu Galo levantou dois títulos internacionais e um outro time local ganhou o Brasileirão. Ou seja, a casa caiu bem onde o futebol brasileiro mostrava alguma possibilidade de melhora com os atleticanos Cuca e Marcelo Oliveira (queridos amigos cruzeirenses por favor não desistam da leitura, nem tudo aqui é gozação).

Importa mais a tragédia maior, a queda do viaduto Batalha dos Guararapes. Por outra ironia do destino este desastre ocorreu a poucos quilômetros do lugar onde em 1940 se encontraram Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer.  Volto 74 anos no tempo porque importa perceber a simbologia deste encontro que mudou para sempre a cara do país. Empoderado pelas curvas modernas de Niemeyer, JK construiu um projeto político cujo cerne era uma modernização conservadora. Obras sim, muitas, tantas quanto forem possíveis, para que além deste enorme canteiro não se mudassem as estruturas socioeconômicas.  O Brasil embarcava ali numa corrida rodoviarista pela qual a ideia de progresso e modernização seria por décadas associada ao betume misturado com areia e pedras, popularmente conhecido como asfalto.

Por isso é tão significativa a queda do viaduto na Pampulha. No momento em que percebemos o esgotamento da aventura rodoviarista,  foi na Pampulha que um pilar afundou 6 metros trazendo abaixo 1,8 mil toneladas de concreto e aço, causando a morte de 2 pessoas.  Agora reverbera na justiça e nas páginas dos tabloides a disputa pelo erro que causou o afundamento do pilar. Interessa perceber que o erro maior é apostar na construção de mais espaço para automóveis em detrimento dos pedestres, dos ciclistas e da melhoria do transporte público. Como bem lembrou o urbanista Roberto Andrés na Folha de S. Paulo de 8 de julho último, viadutos são a maneira mais rápida de se conectar dois engarrafamentos.

Então fica aqui a proposta para a prefeitura de Belo Horizonte: transformar a área remanescente do viaduto que caiu e a alça ainda de pé (devidamente escorada se assim entender a perícia técnica) em um parque, com árvores, bancos, ciclovia, pista de caminhada e muito verde. Não há forma melhor de reverenciar os que ali faleceram e de compensar os moradores vizinhos pelos transtornos causados pela obra e pela queda. Aproveito para apresentar uma imagem bem rudimentar como ilustração para que possamos começar a imaginar uma cidade com mais espaço para as pessoas e menos espaço para os automóveis.

Oxalá as tragédias da Pampulha sirvam para fechar o ciclo de priorizar o automóvel e abrir outro com ênfase no transporte e nos espaços públicos.

E no futebol, se for pra não mudar nada, que pelo menos se repita a Libertadores de 2013 ad infinitum!

viaduto-parque