Voz de prisão

Um adolescente magrelo, narigudo e tímido distribuía panfletos numa manhã de domingo na Avenida Brasil, na contra-esquina do Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte. O adolescente tinha acabado de votar no Lula, na primeira eleição da sua vida. Vale dizer que aquela também foi a...

Um adolescente magrelo, narigudo e tímido distribuía panfletos numa manhã de domingo na Avenida Brasil, na contra-esquina do Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte. O adolescente tinha acabado de votar no Lula, na primeira eleição da sua vida. Vale dizer que aquela também foi a primeira vez que sua mãe, 28 anos mais velha, votava para presidente da república. Passou um Fiat 147 da Polícia Militar e lá de dentro o guarda gritou: “Você não pode fazer isso aqui, tem de estar a 100 metros de distância da sessão eleitoral”. O adolescente atravessou a Avenida Bernardo Monteiro e se colocou na outra contra esquina, no mesmo quarteirão que o colégio, mas a exatos 120 metros (todos os quarteirões do centro de BH têm 120 metros) de distância da porta. O Fiat da PM deu a volta pelo outro lado e chegou na mesma esquina pelas costas do adolescente. O policial saiu rápido do carro, tomou os panfletos da mão do jovem e já veio gritando: “Eu te avisei que tinha de estar a mais de 100 metros do prédio e você veio para mais perto! Você está preso!”

Não adiantou argumentar que eu era estudante de arquitetura e sabia muito bem o tamanho dos quarteirões e que por isso eu estava a 120 metros da porta. Na cabeça do policial eu deveria estar a 100 metros do prédio, que ocupa duas faces inteiras do quarteirão. Na verdade, não me lembro de nada do que o policial disse depois das três palavras decisivas: você, está, preso.

lula 1989

Lembro sim que por ali passaram dezenas de pessoas enquanto eu, provavelmente tremendo e gaguejando, tentava argumentar com o policial. Lembro de alguns dizendo coisas do tipo: “Ih, olha lá, o menino foi preso! O PM pegou prendeu porque estava distribuindo santinho do Lula!”

O fato é que não fui preso, o policial provavelmente não quis arrumar confusão com um menino branco e razoavelmente bem vestido cujo nervosismo demonstrava que ele não estava acostumado a enfrentar a PM. Me mandou ir embora pra casa, ficou com meu material de campanha e foi dirigindo devagarinho ao meu lado enquanto eu subia a rua Ceará repetindo várias vezes que da próxima vez ele não seria tão “compreensivo”.

Durante mais ou menos uma década aquela voz de prisão foi motivo de orgulho. O PT ganharia a prefeitura de BH 4 anos depois e Patrus Ananias entraria para a história como o melhor prefeito da cidade. Orçamento participativo, restaurante popular, mapeamento e melhorias nas favelas. O PT ganhava espaço nacionalmente, expunha o elitismo neoliberal do projeto do PSDB, íamos todos de bandeira na mão pra rua abraçar a Contorno. Quando Lula ganhou a eleição em 2002 eu não era mais adolescente, claro. Já tinha doutorado e começava a carreira de professor e pesquisador.

A partir daí várias vezes me perguntei se tinha valido a pena escutar aquela voz de prisão em novembro de 89. Cada vez que o PT no governo compunha com José Sarney ou Paulo Maluf. Cada vez que o PT no governo ignorava a causa ambientalista. Cada vez que o PT no governo se distanciava dos movimentos sociais e se aproximava de banqueiros e empreiteiros. Cada vez que o PT usava métodos da direita para comprar deputados da direita para aprovar projetos de direita eu me arrependia um pouco mais de ter ouvido voz de prisão tentando eleger o Lula em 1989. E por fim, em 2013, quando o PT no governo não apenas não entendeu como resolveu criminalizar os protestos de junho eu cheguei ao máximo do meu arrependimento.  Sobre minha frustração com o governo Dilma nem vale a pena repetir o que já escrevi antes.

Como diretor do maior centro de estudos brasileiros nos EUA convoquei um seminário sobre o esgotamento do desenvolvimentismo, e escrevi vários artigos (aqui e aqui dois deles) tentando entender porque as cidades (meu objeto de estudo principal) pioraram durante a era Lula. Minha síntese na questão política foi de que Lula mudou os fins do governo brasileiro mas não mudou os meios, e aí reside a raiz de todos os problemas.

O que aconteceu na sequência tem funcionado como um indutor de clarezas. Ficou claro que a direita está se aproveitando da podridão dos meios (que by the way é hegemônica desde 1500) para mudar os fins. Ficou claro que parte da esquerda perdeu a ideia de projeto de nação e agora tem um desafio impossível: mudar os meios abrindo mão dos fins ou preservar os fins e compactuar com os meios corruptos.

Muita coisa mudou nos 27 anos desde que eu ouvi voz de prisão durante as eleições presidenciais de 1989. Quarenta milhões de brasileiros saíram da linha de pobreza e foram incorporados à economia de consumo. Milhões de jovens que em 1989 não tinham chance de entrar na universidade estão se formando doutores. Quando eles entrarem no ministério público e na polícia federal pode ser que tenhamos um país mais republicano.

Mas algumas coisas não mudaram.  A elite brasileira, principalmente a parte que não lê nem um livro por ano, continua odiando Lula com todas as forças e fechando os olhos para a corrupção dos bem-nascidos PSDBistas. A Rede Globo continua emburrecendo o país com BBBs e fazendo de tudo para colocar o líder operário na cadeia, desta vez por ter comprado um barco de lata e dois pedalinhos. Eu superei a timidez mas continuo razoavelmente magrelo e inevitavelmente narigudo (as cartilagens continuam crescendo, ao contrário dos cabelos).

E na sexta-feira 4 de março de 2016, observando quem estava indignado e quem estava sorrindo hipocritamente com a cena dos 200 agentes levando o Lula para depor, eu voltei a ter um orgulho danado de ter ouvido voz de prisão 27 anos atrás.

Tenho certeza que não sou o único.

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