Convergência de ódio e oportunismo

Há quatro anos atrás escrevi dois artigos (disponíveis aqui e aqui) que tratavam de uma crescente mas incômoda convergência entre o Brasil e os EUA. O principal ponto era a desigualdade medida pelo coeficiente de Gini, mas a convergência passa...

Há quatro anos atrás escrevi dois artigos (disponíveis aqui e aqui) que tratavam de uma crescente mas incômoda convergência entre o Brasil e os EUA. O principal ponto era a desigualdade medida pelo coeficiente de Gini, mas a convergência passa também pelo ativismo judiciário, pela polarização e até pela epidemia de obesidade. O índice Gini, como previ, estaria virtualmente empatado entre 2015 e 2016, o que efetivamente se concretizou. O coeficiente Gini para o Brasil em 2014 foi calculado pelo IBGE em 0.49; e o mesmo índice nos EUA foi calculado pelo Census Bureau em 0,482. Em resumo, Brasil e Estados Unidos têm hoje índices de desigualdade virtualmente idênticos.

Muito mais importante do que saber que os dois países têm desigualdades idênticas é perceber o terremoto que estas transformações estão causando nos dois países. Um terremoto de ódio e oportunismo.

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Aqui nos EUA todos os olhos estão voltados para a campanha de Donald Trump. O bilionário de topete se revelou um magnífico oportunista ao perceber a completa desolação e desesperança dos brancos pobres (outrora classe média) norte-americanos. Este grupo sempre se deixou seduzir pela retórica anti-gay, anti-aborto, anti-ação afirmativa da direita norte-americana e foi por isso eleitor fiel do partido republicano desde o movimento pelos direitos civis dos anos 60 até…. ontem. A narrativa quebrou, o sonho da mobilidade social não existe mais e os brancos pobres (chamados pejorativamente de red-necks – pescoços vermelhos por conta do efeito do trabalho braçal sobre a pele branca) ficaram com o ódio. Odeiam os imigrantes, odeiam os intelectuais, odeiam o cosmopolitismo de Nova York e São Francisco, odeiam tecnologia…. e por aí vai. Este discurso de ódio magistralmente capturado por Donald Trump para desespero das elites políticas conservadoras, vai muito provavelmente levar o bilionário a disputar a presidência.

No Brasil todos os olhos estão voltados para o pacto entre PMDB e PSDB para retirar da presidência uma mulher eleita por 54 milhões de brasileiros contra quem não existe nenhum crime de responsabilidade ou sequer uma citação em investigação relativa a financiamento irregular de campanha, aumento patrimonial incompatível com a renda ou dinheiro escondido no exterior. O absurdo do golpe já foi midiático-judicial e foi dissecado por toda a mídia estrangeira, da BBC, The Guardian, El Pais, New York Times, Pagina 12, LATimes …. mas nada interessa a um Congresso atolado até o pescoço nas denúncias da Lava-Jato, Zelotes, HSBC entre tantas outras investigações e evidências de uma sociedade corrupta. Uma sociedade tão corrupta que está disposta a passar pelo vexame de ter Eduardo Cunha presidindo o impeachment de Dilma Rousseff.

A história será implacável com os oportunistas apoiadores do golpe, mas a estes não interessa o julgamento da história. Interessa a oportunidade de tirar a esquerda do poder, a qualquer custo. A vergonha virá no dia seguinte, quando a Lava-Jato sumir do noticiário, as empreiteiras voltarem a financiar as campanhas de todos os partidos, e os batedores de panela voltarem felizes para suas varandas gourmet com a sensação de dever cumprido por terem tirado o PT do governo federal. A vergonha virá porque apesar de todos os erros do PT, a esquerda finalmente saiu da posição de defesa em que se encontrava desde 2005 e voltou a encher as ruas com orgulho. Independente do resultado do impeachment no congresso (e eu sou dos mais pessimistas/realistas) a esquerda voltou às ruas.

Voltando à comparação com os EUA, fica óbvio o oportunismo da oposição que não tem nenhuma proposta de como alcançar um país melhor. Porque não interessa um país melhor. A frase de efeito dos destiladores de ódio nos EUA e no Brasil é a mesma: querem o país de volta. De volta aos tempos de privilégio onde a cor da pele ou o endereço ditavam uma vida de poucas oportunidades e baixos salários. De volta ao tempo em que a justiça era só para os pobres (ainda é) e sempre havia um habeas corpus para quem pode pagar advogados caros. De volta ao tempo em que tudo se resolvia na conversa no clube, em volta da piscina ou no casamento da sobrinha e nem um pedacinho do orçamento era deixado para decisões participativas (que diga-se de passagem o PT errou feio em abandonar).

Resta o ódio. O ódio dos quarentões e cinquentões a quem foi prometido um mundo de privilégios que vão aos poucos, muito devagarinho, sendo desmontados. O privilégio advindo de uma sociedade racista. O privilégio advindo de uma sociedade machista. O privilégio advindo de uma sociedade patrimonialista.  Este Brasil antigo se quebrou como o sonho da mobilidade social norte-americana. Ninguém vai colar os caquinhos deste velho mundo, quebrou não tem mais jeito canta Marina Lima.

Nas palavras de um amigo mais otimista quanto às transformações sociais no Brasil e o perigo de regressão: a pasta saiu do tubo, as conquistas da última década não têm volta. Os movimentos sociais voltaram às ruas. Os universitários do movimento negro não vão voltar quietinhos para a periferia. O movimento feminista não vai se recolher. Os intelectuais não vão se calar. A Rede Globo pode ganhar uma ou duas batalhas mas sabe que a guerra está perdida, nem a televisão nem os jornais têm futuro na competição com este meio que você lê agora.

Os oportunistas podem até se safar. Difícil vai ser lidar com o ódio.

Fotomontagem de capa: Gage Skidmore/Flickr e Lula Marques/ Agência PT

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