Demolições são o legado da Olimpíada

Para Rodrigo Simões, cuja conversa sempre afiada sobre urbanismo e política vai fazer muita falta. A Olimpíada do Rio terminou e agora mais do que nunca os brasileiros vão se perguntar se valeu a pena. Para ajudar no debate proponho a...

Para Rodrigo Simões, cuja conversa sempre afiada sobre urbanismo e política vai fazer muita falta.

A Olimpíada do Rio terminou e agora mais do que nunca os brasileiros vão se perguntar se valeu a pena. Para ajudar no debate proponho a ideia de que o legado do Rio 2016 são três tipos diferentes de demolições.

reintegração de posse

Começamos pela constatação de que demolições raramente são positivas e o Rio de Janeiro já teve seu quinhão de destruições traumáticas. A mais famosa sendo o “bota-abaixo” do prefeito Pereira Passos entre 1905 e 1906 que em nome do saneamento e da circulação demoliu milhares de residências e expulsou os trabalhadores pobres para fora do centro, abrindo terreno para empreendedores construírem apartamentos e salas caras onde antes havia moradia barata. Algumas décadas mais tarde a demolição do Morro do Castelo continuou a mesma triste tradição de remover famílias pobres do centro, mas esta pelo menos nos deu algumas das jóias arquitetônicas do Rio: o edifício do MEC, o aeroporto Santos Dumont e o maravilhoso aterro do Flamengo, construído com a terra do morro demolido.

O frenesi de construção para os Jogos Olímpicos não foi nem um pouco diferente desta triste tradição brasileira e carioca em particular. O Parque Olímpico construído sobre o antigo autódromo não escapou da maldição de se tornar mais um capítulo na longa história de expulsar os mais pobres. Vila Autódromo é (ou era) um assentamento informal que ocupa(va) uma pequena parte do terreno. O concurso para o parque olímpico determinava que Vila Autódromo deveria ter o direito de permanecer, e a proposta vencedora (da empresa britânica AECOM) propunha exatamente isto. Três anos mais tarde, quando os Jogos abriram na sexta-feira 5 de agosto, a Vila Autódromo não existia mais. Os empreendedores da vila dos atletas não queriam uma favela perto dos apartamentos que eles vão vender depois dos jogos e por isso a prefeitura negociou com cada família individualmente,  demolindo suas casas assim que concordavam com a remoção e deixando o entulho no lugar, para expulsar os vizinhos. Vivendo no meio do entulho e sob a ameaça de expulsão a maioria das famílias aceitou a oferta em dinheiro e foi embora da Vila Autódromo. As 25 famílias que resistiram até o final também terão suas casas demolidas mas habitarão (ver para crer) casas novas construídas em seu lugar. Sem favela na vizinhança os empreendedores agora podem vender seus apartamentos sossegados.

No centro do Rio, ao redor da antiga zona portuária, as demolições foram muito mais generalizadas. Ativistas estimam que aqui 22.059 famílias foram removidas de suas casas na região do Porto Maravilha. Um artigo recente da Revista Pública mostra que a grande maioria das terras disponibilizadas para o empreendimento já era propriedade dos governos federal e estadual, as favelas foram erradicadas, mais uma vez, para garantir que o valor dos novos imóveis não seja ameaçada por vizinhos “diferenciados”.

Paradoxalmente a área do porto também sedia um dos poucos resultados urbanísticos positivos do Rio 2016, por coincidência mais uma demolição. O elevado da Perimetral, construído na década de 1970, serpenteava à beira-mar ligando a ponte à parte sul do centro da cidade. A final de contas deveríamos sempre tornar mais fácil a vida do automóvel mesmo que desconectando os edifícios mais importantes do período colonial da Guanabara que foi a sua razão de existir, certo? Errado. Aprendemos a duras penas que aumentar o espaço do automóvel só causa mais demanda e mais congestionamento. Nos últimos anos, uma após a outra, as cidades do chamado primeiro mundo vão restringindo o uso do automóvel e resgatando os espaços para pedestres e bicicletas. No Rio de 2016, vivenciar o Paço Imperial, a Praça 15, e a Praça Mauá desobstruídas pela Perimetral e restaurada sua estreita ligação com a baia de Guanabara é um espetáculo a ser celebrado.

Mas há uma demolição ainda mais trágica que devemos considerar como parte do legado do Rio 2016: a destruição da democracia brasileira. A grande mídia vai insistir que os Jogos Olímpicos não têm nada a ver com a crise política, mas eu acredito que no futuro não teremos dúvida sobre esta ligação. O desvio de dinheiro de grandes projetos de infraestrutura para financiar campanhas políticas era (e ainda é) uma prática generalizada. Até agora apenas a esquerda foi responsabilizada por isso, graças ao ataque coordenadíssimo da grande mídia com parte do Judiciário, mas a evidência aponta para todos.

Tudo isso poderia ser apenas mais um caso de mau-planejamento ou de investimento na infra-estrutura errada, mas é infelizmente muito pior do que isto. O mesmo Rio de Janeiro que nos anos 90 foi a vanguarda do direito a cidade com o Favela-Bairro, implementou agressivamente nos últimos 10 anos um modelo baseado na gentrificação, nas remoções forçadas e em investimentos faraônicos e no mínimo questionáveis que agora está sendo copiado por todo o país. Como escreveu recentemente o The New York Times, o partido que arruinou Rio é o mesmo que articulou o golpe contra Dilma Rousseff e isto não é nenhuma coincidência.

Esta semana, o Senado brasileiro votará pela última vez o processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Onze dos quarenta e nove senadores que votaram contra ela estão sob investigação por todo tipo de corrupção enquanto as acusações das famosas “pedaladas fiscais” de Dilma já foi inocentada pelos técnicos do TCU! Isto tudo já foi dito e repetido mas não interessa para a elite patrimonialista brasileira. Como escrevi antes, o impeachment nunca foi sobre os meios (corrupção sistêmica), e sim sobre os fins (redistribuição de renda). Que a democracia seja demolida no processo é um detalhe menor para os donos do Brasil.

Voltando ao legado da Rio 2016, exceto pelo impacto positivo da demolição da Perimetral, é triste perceber que a olimpíada brasileira será lembrada por aquilo que desapareceu. Milhares de famílias tiveram suas casas demolidas e foram empurrados mais para fora da cidade, longe dos serviços e das oportunidades. Nos anos 60 Carlos Lacerda expulsou número semelhante de famílias de favelas da zona sul para Cidade de Deus. Cinquenta anos depois temos um filme de Fernando Meirelles e uma medalha de ouro de Rafaela Silva para compensar milhares de vidas perdidas pela violência e pelo abandono. A remoção de 22 mil famílias do centro do Rio reinicia todo o ciclo outra vez, a máquina de moer gente que o Brasil insiste ser.

Já a reconstrução da democracia brasileira… esta vai levar provavelmente algumas gerações, um esforço verdadeiramente olímpico.

PS: Uma variação deste post foi publicado no Huffington Post e adaptado aqui para os leitores brasileiros.

Foto de Capa: 26/03/2015 – Policiais militares fazem reintegração de posse de um terreno, na zona portuária do Rio de Janeiro. Tânia Rêgo/ Agência Brasil

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