Tente explicar para os seus netos

Ai mesmo em São Paulo, na Pinacoteca do Estado, está um quadro de Leon Ferrari que se chama: “nosotros no sabíamos”. Vai lá dar uma olhada antes de tentar explicar o Brasil de 2016 para os seus netos. Mas quero ver você explicar que você...

Ai mesmo em São Paulo, na Pinacoteca do Estado, está um quadro de Leon Ferrari que se chama: “nosotros no sabíamos”. Vai lá dar uma olhada antes de tentar explicar o Brasil de 2016 para os seus netos. Mas quero ver você explicar que você votou em candidatos que se colocaram contra a redução da velocidade, contra as ciclovias e contra o fechamento da Paulista aos domingos.  Isso sim é inexplicável!

Meu avô foi prefeito de uma pequena e desimportante cidade do interior de Minas nos anos 30, em pleno Estado Novo. Nomeado pelo governador Benedito Valadares por ser o único médico na região, ele entendia muito pouco de política, se preocupava mesmo era com os partos e epidemias como a gripe espanhola que o deixou órfão de pai em 1918, quando ele tinha 14 anos. Eu, ao contrário, tive a sorte de conviver com este avô durante 20 anos, tempo suficiente para estar na faculdade, participando do movimento estudantil bem no final do governo Sarney / início do governo Collor, e por isso bombardear o meu avô com perguntas sobre a política brasileira dos anos 30 em diante. E me lembro que ele ficava bastante incomodado com algumas perguntas minhas. Mudava de assunto, falava do Atlético, ou inventava que tinha de ir dar comida para as galinhas bem naquela hora.

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Por isso quando alguém bem próximo toma uma decisão ou, mais recentemente, fala alguma bobagem absolutamente insustentável eu imediatamente penso como este sujeito vai explicar isto para os netos. Reforço que a distância de duas gerações aqui é importante. Pais e filhos tem uma relação muito mais complexa. Filhos podem absorver completamente os valores dos pais ou podem se rebelar radicalmente e isto influencia diretamente o contexto em torno das histórias da vida. Netos tem um pouco mais de distância.

Então pergunto aos meus leitores paulistanos como eles vão contar a história de 2016 pros seus netos. Provavelmente os coxinhas de 2016 continuarão a ser coxinhas em 2046 e dirão para os seus netos que o pais estava um caos, que a economia estava em frangalhos e que o golpe foi o remédio amargo para que as coisas voltassem a “normalidade”. Era isso que meu avô me dizia sobre o golpe de 64, acrescentando que ninguém imaginava que a repressão fosse chegar a tanto, ninguém imaginava que demoraríamos 29 anos para ter outra eleição direta para presidente.

Tente explicar para os seus netos que o Brasil ignorou 54 milhões de votos e derrubou um governo com base em “pedaladas fiscais” que deixaram de ser crime 2 dias depois com a aprovação da flexibilização dos créditos orçamentários suplementares.

Tente explicar para os seus netos que depois e bater panelas contra a nomeação de Lula para o ministério porque ele estava sendo investigado a elite se calou em relação à nomeação de dezenas de indiciados para o primeiro escalão do governo Temer.

Tente explicar para os seus netos que procuradores da república convocaram uma coletiva de imprensa para apresentar uma denúncia sem provas e cheia de convicções. Tente explicar que um ex-ministro foi preso no hospital onde sua esposa se submetia a uma cirurgia para tratar um câncer, e solto horas depois (ou seja, não precisava ser preso a não ser para sair no jornal). Tente explicar que o ministro da educação concedeu audiência a um ator pornô mas não conversou com os especialistas da área. Tente explicar como um helicóptero cheio de cocaína não prova nada mas delações premiadas extraídas de prisões justificadas como necessárias para coletar provas (outro absurdo jurídico) são vazadas a toda hora e se tornam imediatamente capa na grande impressa.

Pode ser que você consiga continuar dobrando a realidade com a habilidade de um Donald Trump e consiga explicar com a cara mais limpa do mundo que você achava que isso ia melhorar o Brasil, que você não tinha ideia de tudo que estava acontecendo, etc etc…

Ai mesmo em São Paulo, na Pinacoteca do Estado, está um quadro de Leon Ferrari que se chama: “nosotros no sabíamos”. Vai lá dar uma olhada antes de tentar explicar o Brasil de 2016 para os seus netos.

Mas quero ver você explicar para os seus netos que você votou em candidatos que se colocaram contra a redução da velocidade, contra as ciclovias e contra o fechamento da Paulista aos domingos.  Isso sim é inexplicável!


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