 Daniel Guimarães |
Ivan, Robson e Edílson eram metalúrgicos; Danilo ia começar a trabalhar na segunda-feira num Habib´s; Fernando era mecânico de automóveis. Todos jovens, todos negros, todos sem antecedentes criminais. Foram executados, segundo testemunhas, para vingar o assassinato do policial militar José de Souza, 48 anos, que perdeu a vida a menos de 600 metros do ponto onde se deu a chacina. Tem gente achando isso bom... e pouco.
Em meio ao lamaçal de análises que vão do ridículo “eles são produtos dessa sociedade capitalista” (referindo-se aos criminosos organizados), passando pelo “agora, cadê a turma dos direitos humanos?”, o atual governador do Estado, Cláudio Lembo, surpreendeu em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.
Para quem não leu (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u121683.shtml) Lembo disse ao jornal de maior circulação do país o que MV Bill não teve coragem de dizer quando foi tirar fotos com Eliane Tranchesi e papear com os riquinhos da Daslu: “O Brasil é um país que só conheceu derrotas. Derrotas sociais... Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa”. E ainda: “O que eu vi foram dondocas de São Paulo dizendo coisinhas lindas. Não podiam dizer tanta tolice. Todos são bonzinhos publicamente. E depois exploram a sociedade, seus serviçais, exploram todos os serviços públicos. (...) A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações”.
Lembo pontuou a questão com pertinência. O economista Marcio Pochmann tem diversos estudos publicados que demonstram que há diminuição da violência em áreas onde o Estado faz investimento social. Onde se garante renda mínima aos cidadãos.
Se por um lado isso é verdade, por outro é preconceito de madame achar que a violência é pobre. E nisso o governador também acerta o alvo: "Se nós não mudarmos a mentalidade brasileira, o cerne da minoria branca brasileira, não iremos a lugar algum”. E a mentalidade dessa minoria é o de fazer o que for preciso para subir de andar sem se preocupar se está empurrando para baixo do solo alguns milhares. Essa violência não conta. Afinal, quem pode mais chora menos, não é verdade?
Essa estúpida elite deve ter batido palminhas aos seus capitães do mato que mataram os três metalúrgicos e seus dois amigos lá em São Matheus. Mas no fundo não se importa com os policiais que caem na guerra da cidade. Querem é mais. Por acaso você já viu um desses ricaços levar ao menos solidariedade à família de um policial morto? Eles preferem o carro blindado. Há comoção, protesto e choro quando um dos seus tem seu esquema atingido. Lembram do episódio Daslu? Quanta indignação.
É certo que o governador Cláudio Lembo não imagina que todo problema se resuma à questão social. Ele não parece ser um babaca. O buraco também é mais embaixo. Há organizações criminosas poderosas em todos os cantos. Eles atuam na polícia, no Judiciário, em diferentes instâncias parlamentares e em chefias de executivos. À frente desse esquema há uma minoria branca que se entope de uísque com mais anos de envelhecimento do que a estimativa de vida de um marcola que se expõe no campo de batalha.
Agora, esses marcolas não são produtos de porcaria nenhuma. São crápulas, assassinos, atuam como capatazes e não podem ser vitimizados ou transformados em heróis por aqueles que se propõem a defender os necessários direitos humanos que precisam ser a cada dia ampliados para garantir dignidade ao maior número de pessoas.
A guerra contra esse esquema precisa ser realizada. Há muitos caminhos para fazê-la, mas é preciso descartar o da barbárie. O governador, felizmente, parece ter convicção disso. Por isso, governador, faça o que for necessário para começar a inverter o jogo e ao mesmo tempo aja para impedir que outros inocentes sejam executados nessa sanha por sangue que, entre tantos, acabou com a vida dos jovens metalúrgicos Ivan, Robson e Edílson. Além de Danilo, Fernando e o policial militar José de Souza. Não permita que transformem a sua passagem pelo Executivo estadual nem no tempo de um governo leniente com o crime organizado nem nos dias quando foi ressuscitado o esquadrão da morte.
O senhor mostrou ter consciência de que sabe que aqueles que pedem essa medida da Justiça são os que transformam o sangue e a miséria alheia no seu deleite e poder. |