29 de janeiro de 2018, 21h59

✍???: A comunicação na era do emoji

Por mais familiar ou específica, por mais matizada que seja a linguagem escrita, falta a ela ainda algo da presença física, especialmente em conversas íntimas. Os emojis, estranho misto entre o pop arte e a pontuação, reinserem na comunicação as microvariações de sentido que a voz, o gesto e as expressões faciais produzem quando se está presente. O emoji é um atenuador que garante a possibilidade da presença diluída e multiplicada da contemporaneidade

Por Tomaz Amorim Isabel*

No fim dos anos oitenta, quando a comunicação por texto se limitava aos caracteres, havia o emoticon, representações geralmente do rosto humano, feitas apenas através de sinais de texto, como pontuação, letras e números. Isso aqui, por exemplo, seria um vampiro :-[ . A partir do avanço técnico dos aparelhos, os emoticons foram aos poucos sendo substituídos pelos emojis, pequenas imagens originadas nos desenhos com caracteres. Um rosto assustado assim :*O tomou ares mais artísticos a partir de “O grito” de Edvard Munch assim: ?.

Se no início os emojis estavam limitados a certos telefones de empresas japonesas, a partir de 2010 eles se tornaram parte dos alfabetos digitais do mundo após sua inserção no Unicode. O Unicode é um padrão universal que permite que diferentes máquinas troquem e reconheçam entre si os mesmos caracteres.

Com a inclusão dos emojis, praticamente qualquer teclado digital pôde enviar um ? com a mesma facilidade da letra A. O design específico de cada emoji depende da mídia em que ele está escrito, da mesma maneira como o formato da letra A depende da fonte em que ela foi escrita. Assim, sistemas operacionais como Windows, Android, OS e Linux, navegadores como Chrome, Internet Explorer e Firefox, páginas como Facebook e Twitter, além de aplicativos de mensagens de texto usam suas próprias versões a partir do Unicode.

O processo de inclusão de emojis no Unicode é contínuo e a cada nova versão, novos emojis são incorporados a partir da decisão de um seleto grupo, o Unicode Consortium, com pesquisadores e representantes de diversas grandes empresas. Segundo membros mais antigos, a demanda corporativa têm mudado aos poucos o foco tradicional da padronização de caracteres, que era o daqueles usados por minorias linguísticas e fatos históricos. Segundo a Emojipedia, desde a última versão do Unicode de Junho de 2017 há no total 2666 emojis. O impacto político da inclusão de palavras no vocabulário oficial ou de emojis nos teclados do mundo é evidente. Por isso alguns grupos celebram a inclusão de tons de pele variados nos emojis, de bandeiras de nações não reconhecidas como estados, esportes tradicionais, animais em extinção, variedade de gêneros em emojis de profissão e em agrupamentos familiares.

A ascensão do emoji se explica pelo fato de que nunca, desde a invenção da escrita, a comunicação cotidiana dependeu tanto do texto. Se com o telefone algo da conversa presencial, o tom e a intensidade da voz, pôde ser transportado pelas distâncias, a demora natural do transporte físico da carta reservou a ela um tipo de comunicação em geral mais lenta e solene. Com o tempo, e a aceleração constante da vida e das necessidades de comunicação, a própria conversa via voz, que exige um certo rito e uma concentração contínua, foi aos poucos dando espaço à agilidade e fragmentação da comunicação via texto. Do código morse, aos pagers e mensagens de texto nos celulares até, mais recentemente, com a ampliação da internet móvel, os aplicativos de smartphone do tipo Whatsapp e Telegram. Para escândalo de muitos, a Sociedade Americana de Dialeto declarou a beringela ? como “Emoji mais notável” em 2015. No mesmo ano, o Dicionário Oxford escolheu como palavra do ano: ?.

É significativo que um grande estúdio tenha tentando fazer um filme sobre Emojis e, ainda que ele tenha sido um fracasso retumbante, não se sabe de um filme dedicado especificamente às letras ou aos números. Os emojis chegaram como alienígenas nos alfabetos do mundo e causam tanta fascinação, quanto desconfiança. Sua representação no cinema e nas telas já aponta para a transformação que ele produziu ao romper a divisão entre imagem e texto. De volta do significante arbitrário nos alfabetos aos símbolos nos emojis. O emoji é lido ou visto?

Conversar via texto privilegia a multiplicação da presença. Se é possível falar ao telefone e fazer outras coisas ao mesmo tempo, ainda assim, só se fala com uma pessoa. Já as múltiplas conversas e grupos permitem uma simultaneidade com o custo alto da dissolução da atenção. Já se disse que os celulares são verdadeiras armas de distração em massa. Hoje não é mais estranho que se escreva e leia mais com alguém do que se converse pessoalmente ou por telefone. Mas por mais familiar ou específica, por mais matizada que seja a linguagem escrita, falta a ela ainda algo da presença física, especialmente em conversas íntimas. Os emojis, memes e gif animados cumprem justamente este papel. Estranho misto entre o pop arte e a pontuação, eles reinserem na comunicação as microvariações de sentido que a voz, o gesto e as expressões faciais produzem quando se está presente. O emoji é um atenuador que garante a possibilidade da presença diluída e multiplicada da contemporaneidade.

Um filósofo importante como o francês Emmanuel Levinas funda toda uma teoria da ética no rosto humano e menos no que ele comunica linguisticamente do que ele revela, em si, sobre identidade e alteridade. A tradução deste rosto em um círculo amarelo é sintoma ao mesmo tempo do desaparecimento acelerado da presença material (substituída, como já foi dito, pelas múltiplas presenças virtuais diluídas) e da resistência do elemento humano subjacente a toda comunicação – ainda que miniaturizado. Nenhuma outra parte do corpo humano têm potencial para comunicar tanto, inclusive para além da palavra falada.

Embora haja uma relação evidente, o emoji não é como o hieróglifo, o ideograma em certas línguas ou placas de trânsito, metonímia visual que reproduz imageticamente a ideia a ser representada. Primeiro porque o emoji tem um significado muito mais amplo, do que específico, é mais maleável. O ? é mais genérico do que a palavra “riso” em qualquer língua. Sendo mais genérico, ele se encaixa mais facilmente em contextos variados, enquanto palavras específicas – ainda que possam ter duplo ou triplo sentido – normalmente têm uso mais restrito, são mais precisas.

Há quem diga que o emoji tenta cumprir a promessa pré-babélica do Esperanto, uma comunicação finalmente universal, mas a apropriação local dos emojis parece ser tão ou mais rápida que sua massificação linguística. Uma instigante reportagem mostrou como o ? tem na verdade um significado muito menos divertido quando usado por chineses. A explicação é de que, embora o rosto esteja sorrindo, os músculos dos olhos ficam parados, como quem sustenta um sorriso falso em uma situação constrangedora. (Toda uma teoria política sobre as liberdade civis na China seria possível a partir desta informação…) O emoji expressa então um contexto complexo, opressivo, em que o sorriso é obrigatório, como nos policiais que sorriem através de emojis na obra do artista plástico inglês Banksy:

A ambiguidade do emoji é de origem. O primeiro uso comprovado do emoticon contemporâneo foi em 1982 pelo professor de ciência da computação Scott Fahlman que tentava justamente diminuir a ambiguidade das mensagens de texto trocadas eletronicamente. Em piadas ou conteúdos irônicos era incluído o :) enquanto os conteúdos sérios recebiam :(. Contraditoriamente, o genérico do emoji ajuda a especificar a comunicação com elementos discretos demais para se escrever. Não há problema em se misturar emojis de plantas, fogos, sorrisos e pessoas fazendo atividades em uma mesma “frase”. A própria mistura aponta para um significado, transmite um certo contexto sentimental, sem que se precise especificá-la com precisão vocabular. Certos experimentos poéticos de vanguarda, como de Garcia Lorca ou de Roberto Piva, em que imagens sem relação evidente se sobrepõem umas às outras com conectivos duvidosos, são repetidos inofensivamente no Whatsapp de adolescentes que se mandam boa noite assim: ???‍???‍♀?????‍♀??‍♂?????????⭐??????☄??. Há pessoas que, não sendo tão versadas no manejo da palavra escrita, se expressam, por outro lado, com graça e precisão em sequência alucinantes de emoji. (Além da vantagem estratégica de não se poder cometer erros ortográficos com eles… No máximo trocar um ? por um ?).

Embora as velhas sirenes do apocalipse apontem para qualquer mudança nas formas de escrita como sinais do emburrecimento geral e triunfo da barbárie, artistas têm se aproveitado da nova mídia para explorar possibilidades expressivas. Como o emoji impacta então a literatura, arte que usa justamente o texto como mídia? Como não poderia deixar de ser, há uma série de experimentos em andamento. O mais significativo talvez seja o Emoji Dick, um trabalho coletivo que “traduziu” o romance clássico da literatura estadunidense de Herman Melville para emojis. O trabalho, para o escândalo de muitos, foi incluído na prestigiosa Biblioteca do Congresso dos EUA. O Paris Review também criou para seus leitores um concurso de tradução de poemas célebres em emojis e, embora trate-se ainda de um exercício menos artístico do que lúdico (como traduzir aliterações e ritmos e rimas em pequenas imagens fofas?), alguns resultados são instigantes, como os versos clássicos do “Tyger, tyger” de William Blake, que viraram:

Tyger! Tyger! burning bright
Tigre! Tigre! brilhando claro
?❗?❗??
In the forests of the night,
nas florestas da noite,
?????
What immortal hand or eye
que mão ou olho imortal
❓?✋/?❔
Could frame thy fearful symmetry?
pôde criar sua terrível simetria
??◀▶

Rob Packer, poeta inglês radicado no Rio de Janeiro, também fez experimentos com tradução de poesia para emoji. Segue abaixo sua versão de “Primeira leitura do Homero de Chapman” (trad. Alberto Marsicano e John Milton) de John Keats:

O mundo do design e das artes visuais também se debruça sobre os emojis com estudos semióticos, jogos, exposições e zines relevantes. Até o MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, adquiriu em 2016 os emojis “originais” criados entre 1998-1999 pelo japonês Shigetaka Kurita. O Twitter também está cheio de “arte com emoji”. A série “tiny”, por exemplo, contém diversos perfis que postam conteúdos temáticos, imagens montadas a partir de emojis de cidades, jardins, florestas, comida e até mesmo galeria de arte:

Nestes jogos despretensiosos, os símbolos-caracteres do emoji se transformam em blocos de lego linguísticos. Um perfil católico, por exemplo, ilustra passagens e contextos bíblicos com emojis. É surpreendente ver passagens escatológicas ou rituais descritas em formas arredondadas e gritantes como esta instrução ao “Pai nosso”:

O artista chinês Xu Bing escreveu um livro todo em emojis chamado “Book from the Grous”, que trata de um dia na vida de um trabalhador de escritório. A artista Carla Gannis refez o clássico tríptico “O Jardim das Delícias Terrenas” de Hieronymus Bosch substituindo as figuras, em sua profusão colorida e minúscula (já apontando de alguma forma para o surgimento dos emojis séculos depois!), por emojis em movimento através do quadro:

The Garden of Emoji Delights Triptych Animation by Carla Gannis from Carla Gannis on Vimeo.

A tentativa de modular a gravidade das palavras não é nova. O próprio sistema de pontuação, com as pausas das vírgulas, as suspensões dos travessões, a discrição dos parênteses, a ironia das aspas, a força do ponto de exclamação já são interferências imagéticas no sentido dos aglomerados de letras. Em 1899, o poeta Alcanter de Brahm, pseudônimo de Marcel Bernhardt, propôs um novo sistema de pontuação com, por exemplo, um ponto de interrogação ao contrário para explicitar a ironia. O filósofo alemão Theodor Adorno dedicou um ensaio à questão da pontuação em que, além de compará-los com mudanças de compasso e instrumentos da música, tenta interpretá-los para além de sua mera função gramatical:

“O ponto de exclamação não se assemelha a um ameaçador dedo em riste? Os pontos de interrogação não se parecem com luzes de alerta ou com uma piscadela? Os dois-pontos, segundo Karl Kraus, abrem a boca: coitado do escritor que não souber saciá-los. Visualmente, o ponto-e-vírgula lembra um bigode caído; é ainda mais forte, para mim, a sensação de seu sabor rústico. Marotas e satisfeitas, as aspas [“”] lambem os lábios”.

A ideia de que os emojis ameaçam a especificidade das línguas nacionais encontra barreiras na mistura dos dois registros, escrito e emojético, e no uso com significados diferentes por grupos específicos como regionais, étnicos, geracionais, etc. É conhecida a história dos velhinhos que mandam mensagens de luto com ? ao invés de ?. No relatório de 2015 do SwiftKey (um aplicativo de teclado de celular), após análise de milhões de mensagens, descobriram que enquanto os americanos que falam inglês são líderes no uso de emojis femininos, realeza, tecnologia, LGBT e carne; os franceses lideram em corações e casamentos; os espanhóis em emojis de festas; os latino-americanos que falam espanhol em emojis de bebês; os árabes em flores, relógios, masculinos, estrelas e frutas; russos em romance e tempo frio; e os brasileiros, finalmente, com, nesta ordem, gatos, religiosos, música e luas.

Além disso, em todas as línguas, os emojis mais usados são positivos (70%) em oposição aos negativos (15%). O top três mundial é: rosto sorrindo, rosto chorando e corações. (Menos na França, lá o coração está em primeiro ❤️). Os brasileiros, por outro lado, se destacam usando em mais que o dobro da média mundial os emojis religiosos como as mãos juntas ?, igreja ⛪e estrelas no céu ?. São primeiros também no emoji de cerveja ?! A América do Sul e sua tradição de luta se reafirmam na liderança do uso do punho erguido ✊. Em termos de gênero, no mundo 61% dos emojis são escritos por mulheres e 39% por homens. Segundo a análise dos emojis mais positivos e negativos, os países mais positivos são Paraguai, Argentina e Uruguai, e os mais negativos são Equador, Bolívia e Venezuela.

Outro relatório, que analisou por dois anos, entre 2015 e 2017, o uso de seis bilhões de emojis no Twitter também oferece informações interessantes, inclusive com consequências políticas assustadoras: nos últimos dois anos, o uso de emojis negativos cresceu de 23.2% para 25.4% ?. O maior aumento no volume de emojis negativos se deu no mês da eleição estadunidense (8 de novembro de 2016) em que, durante a semana de votos, o uso de emojis negativos crescer 28.9%, a maior em dois anos.

O fato de o emoji falar mais diretamente sobre sentimentos e reações, ainda que de forma mais genérica, torna seu mapeamento uma ferramenta político-econômica de primeiro nível. Uma empresa que tivesse acesso apenas aos emojis em contexto anônimo antes de um referendo ou eleição poderia prever com muito mais facilidade seu resultado. Isso para não falar no “ânimo geral” e no “clima de mercado”, todos estas psicologizações das transações econômicas facilmente expressas e captáveis em emoji. Como toda tecnologia, o emoji abre possibilidades positivas, se postas à serviço da vida humana, e possibilidades repressoras, se cooptadas, como costuma ser o caso, pela lógica exclusiva do mercado.

Um analista político comenta: “Felizmente, as melhores tecnologias nos ajudam a olhar coisas como emojis para entender como a mentalidade e o estado emocional afeta as marcas. Isso significa perspectivas mais ricas, ações mais bem direcionadas e com mais relevância. É possível até pensar neles como a aurora da Inteligência Emocional da Internet”.

Foto de capa: Shift Key, de Maya Ben-Ezer

*Tomaz Amorim Izabel, 29, tem graduação e mestrado em Estudos Literários pela Unicamp e é doutorando na mesma área na USP. É militante da UNEAfro Brasil. Além de crítica cultural, também escreve poesia [tomazizabel.blogspot.com] e coedita o blog Ponto Virgulina de traduções literárias. Publicou traduções para o português de Franz Kafka e Walt Whitman