Cinegnose

por Wilson Ferreira

15 de maio de 2016, 11h34

O despertar xamânico no filme “O Abraço da Serpente”

Uma jornada antropológica, científica, histórica, mística e espiritual. E conduzida pelo animal de poder da serpente, simbolismo central na cosmologia xamânica. Ela desceu da Via Láctea, criou o mundo e está presente em cada um de nós, adormecida, à espera de algo que a desperte e nos faça deixar de ser instrumentos de morte. Esse é o tema central do filme “O Abraço da Serpente” (2015) que teve por base os diários de dois cientistas cujas expedições na região amazônica contribuíram para a compreensão dos povos indígenas. O diretor colombiano Ciro Guerra consegue tratar o tema do misticismo xamânico de forma a direta e crua numa selva onde o homem branco em busca da borracha extermina povos indígenas, seja pela arma ou pela catequese religiosa. E a última esperança para Karamateke, o último sobrevivente do seu povo, é fazer aqueles cientistas conhecerem um flor sagrada que os faça “abraçar a serpente” (a gnose através da destruição do Ego) e levem essa sabedoria cósmica para a civilização.

Na lista do Cinegnose dos 13 filmes mais aguardados para 2016 (clique aqui para ver a lista), O Abraço da Serpente aborda o tema do xamanismo, tema cada vez mais recorrente no cinema atual – Dead Man (1995), The Shaman (2015), Blueberry: Desejo de Vingança (2004), Apocalypto (2007), The Awakening Land (2010) entre outros. Sem falar nos filmes que abordam temas xamânicos de iluminação espiritual como argumento implícito em narrativas ambientadas em mundos modernos e urbanos.

Mas o diretor colombiano Ciro Guerra não pretendeu fazer uma narrativa apenas mística repleta de simbolismos e linhas de diálogos cheios de enigmas existenciais como costumam fazer as produções que se aventuram nessa área.

O misticismo xamânico funciona como uma moldura para os conflitos. Seus temas aparecem aqui e ali nos diálogos, está presente no título do filme e na simbólica cena dos créditos iniciais – “abraço da serpente” é uma expressão com forte simbolismo xamânico, assim como a serpente da abertura que vê seus ovos sendo rompidos por dezenas de serpentes filhotes numa suposta alusão à destruição do paraíso indígena pela chegada dos homens brancos.

Ciro Guerra coloca os conhecimentos xamânicos dos povos da selva amazônica no contexto histórico do seu extermínio pelos barões da borracha e pelos jesuítas (sob o pretexto civilizatório de acabar com o “canibalismo” e “selvageria”) no início do século XX nas fronteiras entre Brasil e Colômbia.

Os diálogos entre brancos e indígenas são sempre ríspidos, diretos, com poucas cenas de alívio cômico para o espectador. O protagonista Karamatake (o xamã e último sobrevivente do seu povo) sabe que tudo está perdido: as “cobras” tomaram conta do mundo trazendo doenças e mortes. Mas ele vê em dois homens brancos, dois cientistas (um etnógrafo e um botânico) separados 40 anos no tempo, a última esperança para que os brancos “abracem a serpente”: alcançem a iluminação espiritual por meio de uma rara flor sagrada perdida no meio da Amazônia (chamada de Yakruna) e deixar de transformar todo o conhecimento em morte.

O filme é pretensioso, mas Ciro Guerra conseguiu abordar o tema com um raro didatismo: decompôs o misticismo xamânico em uma série de subtemas que vão se sobrepondo até o desfecho final: a construção do contexto histórico; o tema da memória e da fotografia; o simbolismo da serpente no xamanismo; hermetismo gnóstico e, finalmente, a gnose.

O Filme

O Abraço da Serpente acompanha a trajetória do índio chamado Karamatake, único sobrevivente da sua tribo e de seu envolvimento, num intervalo de quarenta anos, com um etnólogo e um etnobotânico que buscam uma planta medicinal muito rara. Para os brancos, capaz de curar muitas doenças; para Karamatake um planta sagrada cuja flor produziria um chá capaz de induzir à iluminação espiritual por meio de uma viagem da alma ao início da criação do mundo.

O roteiro ficcional foi baseado nos diários dos cientista alemão Theodor Koch-Grungberg (1872-1924, falecido por febre amarela na Amazônia) e do norte-americano Richard Evans Schultes (1915-2001).

Theo (Jan Bijvoet do filme Borgman) faz o cientista alemão já doente que recorre ao jovem Karamatake (Nilbio Torres) em busca de cura.   Evan (Brionne Davis) é o botânico americano que, 40 anos depois, conhece o velho Karamatake (Antonio Bolivar) para refazer o caminho percorrido pelo seu antecessor e encontrar a planta lendária.

Os conhecimentos xamânicos do protagonista farão sempre a mediação entre a guerra provocada pelos brancos (a indústria da borracha, fundamental para as guerras mundiais que se desenrolavam naquele momento) e a paz dos povos da floresta; entre a comunicação entre homens da natureza e da ciência, entre a religião dos brancos e o misticismo dos indígenas.

Memória e Fotografia

Memória (ou a sua perda) é um tema recorrente em filmes que se enveredam por temas gnósticos ou místicos. 

O assassinato do seu povo e a necessidade de manter a memória é a preocupação central de Karamatake: continuar ouvindo a “música da selva” e as respostas que as pedras dão às suas perguntas. Por isso, ao ver uma fotografia sua tirada por Theo, ele acredita que a foto não é dele, mas de um “chullachaqui” – um ser vazio e oco que se parece conosco, sem memória e vagando pelo “tempo sem tempo”. Todos nós teríamos um, e é isso que a fotografia apenas conseguiria capturar.

É o que ele mais teme: terminar a vida como um “chullachaqui”. Para Karamatake aquele artifício tecnológico dos brancos nada mais vê do que “chullachaquis” de cada um de nós. Nossas memórias se reduziriam a essas entidades fantasmagóricas.

Essa visão esotérica da fotografia é abordada em filmes como Skew (2011 – analisado pelo Cinegnose, clique aqui) ou mesmo no clássico Blade Runner (1982) onde as memórias falsas dos replicantes são criadas a partir de fotos de uma infância que nunca tiveram. 

Se a cultura fotográfica ocidental é cada vez menos espontânea e mais posada e artificial, qual será o destino das nossas memórias?

Dependentes de que nos tornamos dessas memórias visuais, estaríamos condenados a lembrar apenas de “chullachaquis”: memórias ocas e fantasmagóricas. Esse é o início da desconstrução que Karamatake fará nas convicções dos cientistas.

O simbolismo da serpente

Fica evidente no filme o papel central da serpente na cosmologia xamânica de Karamatake. Ela desceu da Via Láctea e criou o mundo, e os rios amazônicos são a própria reminiscência da criação. O etnobotânico Evan só consegue apenas ver duas margens no rio, enquanto Karamatake assegura haver milhares – um simbolismo da pluralidade de mundos, presentes tanto nas visões crísticas como nas gósticas.

Para o xamanismo, a serpente é um animal de poder relacionado à regeneração, sabedoria, sensualidade, cura e psiquismo. Ela fertilizou esse mundo e estaria presente em todos nós como a “serpente ígnea” (a “serpente kundalini”) na base da nossa espinha, no chacra básico que deve ser despertada por meio da sexualidade sagrada, percorrer a medula até chegar à cabeça. Se houver pureza o indivíduo sentirá a samadhi (consciência cósmica).

A flor da Yakruna é a última esperança de Karamatake para que um homem branco a experimente e cure-se espiritualmente, levando essa sabedoria para sua civilização.

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