Cinegnose

por Wilson Ferreira

11 de julho de 2016, 20h39

Ligações perigosas em comerciais na grande mídia

Que ligações existem entre as ex-jornalistas Fátima Bernardes, Ana Paula Padrão, Friboi, os intervalos comerciais dos telejornais da grande mídia, a holding J&F e o ministro da fazenda Henrique Meirelles? Certamente ligações perigosas que constituem aquela área cinza do chamado “conflito de interesse” no jornalismo. Desde o caso do milionário comercial da Samarco veiculado no horário nobre dos telejornais, em plena crise humana e ambiental de Mariana, as ligações perigosas entre anunciantes e conteúdo jornalístico têm se ampliado. Agora, acompanhamos a massiva campanha publicitária da JBS Friboi, com milionários cachês para artistas da Globo, e comerciais do Banco Original em telejornais da grande mídia. Banco pertencente ao mesmo grupo (J&F) cujo presidente do Conselho Administrativo desde 2012 até recentemente foi o atual ministro da fazenda. A mídia estaria sendo silenciada com grossas verbas publicitárias?

Certa vez, nos meus tempo de faculdade de jornalismo, Carlos Eduardo Lins da Silva (jornalista e pesquisador, ex-correspondente internacional da Folha), na época professor da disciplina Comunicação Comparada, disse para a minha classe: ao fazer a análise de conteúdo de um telejornal, preste atenção nos seus anunciantes. 

Isso porque é comum associar manipulação da informação com Governos e regimes totalitários. Mas em uma democracia, normalmente não são governos que financiam as mídias mas anunciantes como corporações, holdings e grupos empresariais. Muitas vezes os interesses dos anunciantes não se limitam apenas a publicizar seus produtos e serviços em um programa com altos índices de audiência – buscam também comprar o silêncio de telejornais, desestimulando reportagens ou matérias investigativas que possam atingi-los. 

Principalmente quando o anunciante mantém relações promíscuas com o próprio governo. Isso pode estar por trás do atual “case” do Banco Original,  onipresente nos intervalos publicitários em diversos telejornais de várias emissoras, principalmente da TV Globo – nessa emissora seus comerciais se repetem tanto em telejornais locais (SPTV) quanto nacionais como Hoje e Jornal Nacional.

Começamos a coçar a pulga que fica atrás da orelha quando sabemos que o atual Ministro da Fazenda do governo interino de Michel Temer foi, até recentemente, presidente do Conselho  de Administração da J&F, holding dona do Banco Original, JBS Friboi, Swift, Massa Leve, Vigor, Doriana, Havaianas entre outras.

O Original foi criado anos atrás para dar empréstimos aos fornecedores de gado do JBS. Depois de chegar ao J&F, em 2012, Meirelles se envolveu no projeto de mudar o perfil do banco para atrair clientes de alta renda para se tornar com um perfil parecido com BankBoston, do qual foi presidente global nos anos 1990.

No primeiro mandato do Governo Lula, Meirelles foi considerado a principal voz da equipe econômica. Coincidentemente, na gestão petista o BNDES foi bastante generoso com o JBS Friboi  com empréstimos de R$ 2,5 bilhões.

Hoje a credibilidade do grupo está associada diretamente à atuação de Meirelles, primeiro como presidente do Banco Central da Era Lula, agora como Ministro da Fazenda de Temer.

“… mas a carne é Friboi?”

Desde então, o grupo JBS Friboi empreendeu uma massiva campanha publicitária  inserindo anúncios caríssimos no horário nobre da TV pagando cachês milionários a artistas globais como Tony Ramos, Fátima Bernardes e até para o vegetariano Roberto Carlos. Com direito a viralizar o slogan “a carne é Friboi?” criando memes e o temor dos mais paranoicos de abrir a geladeira e dar de cara com o ator global lhe fazendo essa pergunta.

Essa espalhafatosa campanha publicitária evidentemente tem o poder de amansar a grande mídia, desestimulando qualquer ímpeto jornalístico investigativo que possa revelar as perigosas ligações desse sucesso empresarial turbinado com financiamento público.

O que lembra o recente episódio do milionário comercial da Samarco (de triste memória associada à catástrofe ambiental e humana em Mariana/MG) inserido no horário nobre e no programa Fantástico da Globo criando um evidente “conflito de interesse”: Samarco patrocinando telejornais que supostamente deveriam ser imparciais nas reportagens investigativas sobre a responsabilidade da empresa na tragédia mineira.

Agora a vez é do Banco Original, depois de investir R$ 600 milhões em sua plataforma digital para oferecer crédito e investimento em operações totalmente fechadas pela Internet. Essa ação coincidiu com o momento em que o nome de Meirelles passou ostensivamente a circular no meio político como forte candidato a integrar o governo Temer. 

Meirelles estava tão envolvido com o projeto que quase se tornou o garoto-propaganda da campanha publicitária. Ideia abortada depois que se viu confirmado no cargo de ministro da fazenda.

Primeira Ironia: “infotenimento” 

As ligações perigosas entre BNDES, JBS Friboi, J&F, Meirelles e grande mídia revelam curiosas ironias.

Primeiro, a promiscuidade entre telejornalismo e interesses empresariais, que parece ampliar o apagamento das fronteiras midiáticas entre ficção e realidade. Essa massiva investida da J&F nos meios de comunicação coincide com a onda migratória de jornalistas para o mundo dos programas de entretenimento. Fátima Bernardes e Ana Paula Padrão são os exemplos atuais onde jornalistas migram para programas matutinos ou para o reality gastronômico MasterChef da Band.

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