Cinegnose

por Wilson Ferreira

19 de julho de 2016, 19h52

Ataque em Nice: entre “False Flag” e o “Efeito Copycat”

Atualmente ataques e atentados parecem se tornar relações públicas de si mesmos: buscam sempre a máxima repercussão e visibilidade. Dos “frames” escolhidos pelos fotógrafos até a própria tragédia, tudo é retoricamente tão saturado que entra no campo das mitologias midiáticas. A narrativa é sempre a mesma: o ataque de um “lobo solitário”; a ação que interrompe festas, prazer e diversão, o timing, o oportunismo e, finalmente,  a morte/suicídio final do terrorista. O ataque em Nice mais uma vez repetiu o plot. Porém dessa vez acrescentou mais um elemento: a ambiguidade – ataque terrorista? Apenas um louco que odeia o mundo? Por isso no ataque em Nice podem ser encontrados elementos tanto de “Operação Bandeira Falsa” (“False Flag”) como do chamado “efeito Copycat” (imitação). E a coincidência da estreia do filme de ação “Bastille Day” (cujo plot é a luta para impedir um atentado em Paris) no dia do ataque reforça essa hipótese.

Se o semiólogo e linguística francês Roland Barthes estivesse vivo, certamente iria delirar com a foto acima que abre essa postagem. Barthes diria que isso não é mais um exemplar de fotojornalismo, mas uma composição tão retoricamente saturada (o “Cinegnose” chama isso de “canastrice”) que passou para o plano das mitologias midiáticas.

Também certamente perceberia o espírito dos tempos atuais, bem diferente das suas análises das mitologias midiáticas dos anos 1950: se lá a retórica fotográfica da imprensa era triunfante e imperialista onde a França ainda pretendia manter a hegemonia sobre suas colônias do norte da África, agora a retórica é da vitimização, sobrevivencialismo e tragédia.

Mas tanto lá no passado como aqui, a saturação retórica é evidente: o “frame” escolhido pelo fotógrafo sobrepõe camadas de simbolismos a um acontecimento: o jovem arrasado, vitimado pela violência em um momento de lazer, a garrafa de espumante, a feliz coincidência da bandeira da França estar ao seu lado como que consolando-o diante de um incrível mar azul da Riviera francesa.

A presença de fotos como essas que ilustram uma tragédia já é um elemento suficiente para despertar aquela pulga atrás da orelha e nos fazer coçar: qual o porquê e o sentido desses acontecimentos que repetem o mesmos plot e canastrice fotográfica? 

O filósofo Theodor Adorno falava que na atualidade objetos e fatos se tornam relações públicas de si mesmos. E em mais um caso de atentados, ataques e massacres, os fatos parecem se encaixar confortavelmente a um script pré-existente na grande mídia como se o próprio acontecimento fosse voltado em primeiro lugar para a repercussão e visibilidade máxima.

Um “lobo solitário”, conhecido pela polícia, protagoniza um massacre (sempre em momentos de lazer/diversão – maratonas, uma revista  de humor politicamente incorreto, casas noturnas como a Pulse e o Bataclan e agora as comemorações do feriado da Queda da Bastilha em Nice) e, no final, a pior ação para investigações futuras que desbaratassem  possíveis células terroristas: o protagonista é sempre executado pelos policiais (ou se mata) como fosse uma sumária queima de arquivo.

Assim como no massacre em Orlando, esse em Nice de cara criou o elemento da ambiguidade que é o principal fator que impulsiona a massificação/viralização de um acontecimento: foi uma premeditada ação terrorista ou um ato desesperado de um louco que odeia o mundo?

Portanto, de um lado temos a hipótese do False Flag que se inicia com as seguintes perguntas: quem ganha? Qual foi o timing? Por que os elementos tão recorrentes? A ambiguidade foi proposital para a repercussão?

E do outro lado o chamado “efeito copycat”: se o protagonista é alguém instável psiquicamente com histórico de agressões e violência doméstica, seria facilmente vulnerável ao efeito de imitação imagens midiáticas de noticiários e filmes – episódios de atropelamentos deliberados por carros e caminhões foram recentemente noticiados e apresentados em obras de ficção. É o que sugere o pesquisador na área Loren Coleman.

(a) Ambiguidade

De imediato, após o caminhão ter sido jogado contra a multidão que terminava de assistir à queima de fogos em Nice matando 84 pessoas e ferindo mais de 200, o presidente François Hollande qualificou como um atentado terrorista: “temos um inimigo que vai continuar a atacar pessoas e países que têm a liberdade como fator fundamental”, declarou na TV.

Enquanto as imagens angustiantes do ataque de caminhão em Nice eram divulgadas, a identidade do motorista era descoberta: um cidadão franco-argelino que residia em Nice. Com histórico de violência doméstica e desequilíbrio psíquico.

Ao mesmo tempo em que o ministro do Interior da França Bernard Cezeneuve declarava que as investigações não encontravam qualquer evidência de jihadismo ou ligações com organizações terrorista como o ISIS, os presidentes Hollande e Obama se apressavam em qualificar o episódio como mais uma ofensiva islâmica. “Esses terroristas estão matando gente inocente de todas as religiões e países”, apressou-se em declarar Obama.

Por que as declarações dos chefes de Estado se apressam em confirmar mais um ato terrorista, enquanto as investigações apontam para outro lado? 

O fator ambiguidade é o principal elemento que auxilia na disseminação a princípio de boatos como descreveram Gordon Allport e Leo Postman em 1947. Hoje, é a estratégia deliberada por trás da disseminação de muitas imagens e memes – sobre esse tema clique aqui.

(b) Timing

Poucas horas antes da tragédia, o presidente Hollande disse na sua entrevista tradicional no Dia da Bastilha que não faria sentido o Estado de Emergência ser estendido indefinidamente. Uma declaração feita sob pressão de críticos e ativistas dos direitos civis. Principalmente depois de Hollande afirmar que a Constituição francesa deveria ser alterada a fim de se lidar melhor com a ameaça do terrorismo internacional.

Desde novembro do ano passado após o estado de emergência ter sido declarado, o presidente vem buscando abertamente formas de expandir seus próprios poderes e os poderes do Estado – políticas potencialmente draconianas e a expulsão de estrangeiros que supostamente fossem ameças.

Poucas horas depois da declaração de Hollande… Oh, não! Outro terrível ataque. Algo deve ser feito contra esses terríveis muçulmanos! 

(c) Quem ganha?

O atentado contra o jornal Charlie Hebdo no ano passado aconteceu em um momento politicamente crucial para François Hollande: pesquisas apontavam que 85% dos franceses declaravam que ele não deveria se candidatar à reeleição. Até antes daquele atentado, Hollande falava em “união” e “França Forte”. 

Hoje, Hollande enfrenta greves e protestos contra a reforma trabalhista e a indefinição da sua candidatura à reeleição em 2017. Como provou o 11 de setembro nos EUA, medo e infelicidade são ingredientes importantes para a unificação diante de um inimigo externo. 

A conveniência da tragédia em Nice é perfeita para François Hollande.

(d) Peças soltas

Assim como em séries de TV como Lost que terminam com diversas peças da narrativa soltas sem dar explicações (o que no final só alimentam polêmicas benéficas para a mística da série), mais uma vez um suposto ataque terrorista termina com peças soltas pelo caminho: o motorista do caminhão teria gritado “Allahu Akbar” (Deus é Grande)? O motorista foi assassinado dentro ou fora da cabine do caminhão? – há diferentes testemunhos. Ele guiava e, ao mesmo tempo, disparava tiros contra a multidão? Como foi possível um caminhão de 19 toneladas furar as barreiras policiais? Dispositivo policial insuficiente em um país com estado de emergência declarado e em um evento de feriado nacional? Caminhões pesados são normalmente proibido nas estradas durante feriados nacionais e domingos. 

Diante dessas peças soltas, o Ministro Cezeneuve se apressou em afirmar: “nesses momentos de luto devemos manter a dignidade e não cair em polêmicas que só alimentam falsidades”. 

Tudo é tão conveniente…

Filme “Guerra Mundial Z”

Efeito Copycat?

A partir do seu livro The Copycat Effect, o pesquisador norte-americano Loren Coleman vem estudando o comportamento de suicidas e homicidas a partir do contagio através do sensacionalismo noticioso das mídias. Personagens, palavras ou narrativas podem adquirir força ao transformarem-se em verdadeiros arquétipos que, quando repercutidos pela mídia, adquirem poder de rápido contagio.

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