Ataque em Londres: mais um atentado que não aconteceu | Revista Fórum
24 de Março de 2017, 16h11

Ataque em Londres: mais um atentado que não aconteceu

Mais um atentado, desta vez em Londres com atropelamento em série de civis e invasão dos jardins do Parlamento Britânico por um homem armado com duas facas. O local é ao mesmo tempo icônico e sincrônico: escolhido pelos roteiristas para as cenas mais espetaculares do filme “V de Vingança”, cuja famosa máscara foi inspirada em […]

Mais um atentado, desta vez em Londres com atropelamento em série de civis e invasão dos jardins do Parlamento Britânico por um homem armado com duas facas. O local é ao mesmo tempo icônico e sincrônico: escolhido pelos roteiristas para as cenas mais espetaculares do filme “V de Vingança”, cuja famosa máscara foi inspirada em Guy Fawkes, líder da “Conspiração da Pólvora” no século XVII – considerada a primeira “False Flag” da História, que pretendia mandar pelos ares o rei junto com o Parlamento como parte de uma propaganda de guerra. Novamente o ataque revela as mesmas recorrências e anomalias dos atentados desde o ataque ao WTC em 2001: a execução final do vilão, o “lobo solitário”, as conclusões rápidas da mídia e da polícia e a “coincidência” de 72 horas antes do ataque exercícios antiterror foram realizados no rio Tâmisa, com lanchas rápidas, resgatando hipotéticas vítimas civis. Assim como aconteceu no atentado “real”. Mais uma vez, o atentado “não aconteceu”: foi uma forma de meta-terrorismo para irradiação midiática.

“Detenha os suspeitos de sempre!”, ordenava o chefe de polícia capitão Renault aos guardas depois que seu amigo Rick (Humphrey Bogart) baleou mortalmente o nazista Major Strasser, permitindo que o avião com os fugitivos da resistência, Ilsa e Victor Laslo, partisse. Era a cena final do filme Casablanca (1942), famosa pela renuncia do amor de Rick (“… e nós sempre teremos Paris…”) por Ilsa, em troca da vitória da Resistência.

Essa cínica ordem do capitão Renault (tributária da tradicional visão de mundo corrosiva do Filme Noir) é emblemática por representar a crônica cotidiana das histórias policiais na qual a verdade revelada é sempre aquela mais cômoda aos interesses dos protagonistas.

Com o passar das décadas essa busca pelos “suspeitos de sempre” foi muito além da crônica policial – transformou-se em negócio de Estado, nos intrincados jogos geopolíticos que evoluiriam da guerra para a luta contra o terrorismo internacional.

“Casablanca”: “Detenha os suspeitos de sempre”

Mas o princípio continua o mesmo: “detenha os suspeitos de sempre”. O que resultou na concretização de um script com poucas variações, mas de qualquer maneira atraente para a grande mídia pela sua plasticidade, iconismo, timing, senso de oportunidade a criação de um terrorismo autoconsciente das coincidências, lacunas e sincronismos – o que chamamos de meta-terrorismo.

No mundo acadêmico, pesquisadores como Umberto Eco, Jean Baudrillard e Daniel Boorstin pressentiram essa crescente hegemonia da ficção sobre a realidade, de eventos auto-conscientes e trágicos se sobrepondo aos eventos espontâneos e fatais. Respectivamente, conceituaram esses episódios como “eventos-encenação”, “não-acontecimentos” e “pseudo-eventos”. 

Já entre os analistas geopolíticos e conspiracionistas os termos são mais diretos: “Falsa Bandeira” (False Flag) e “Trabalho Interno” (Inside Job).

Mais uma vez, esse script de poucas variações se repete no incidente em Londres: um homem espalhou terror na região de Westminster e arredores do Parlamento Britânico – primeiro atropelando vários pedestres e, depois do carro bater nas grades do Parlamento, atacar com duas facas agentes de segurança da casa parlamentar. Até ser executado a tiros, deixando um rastro de cinco mortos e outras 40 pessoas feridas.

E lá dentro do parlamento estava a Primeira-Ministra Theresa May na sessão semanal de perguntas à chefe de governo. Como não poderia deixar de ser, o tema era o polêmico Brexit. E mais um detalhe: advogados do ex-presidente Lula também estavam no Parlamento, à convite, para expor abusos e violações na Operação Lava Jato.

Porém, o script atual da guerra ao terrorismo tem uma pequena variação em relação a Casablanca: o suspeito de sempre (noticiado de início como um “asiático” para, depois, em closes fotográficos, vermos um icônico rosto muçulmano com a típica barba salafista) agora não é mais preso, mas executado como resposta policial a ações de resistência. 

Mais uma vez, um episódio com anomalias, recorrências e sincronismos:

(a) O vilão morre no final

É a síndrome de “mortos não falam”. Se um evento terrorista fosse real e as autoridades determinadas a eliminar essa ameaça ao Ocidente, policiais fariam todo possível para capturar o terrorista vivo para interrogá-lo e, com possíveis delações, desbaratar a rede terrorista internacional. Mas o que acompanhamos é absurdamente contrário: os supostos terroristas são abatidos como cães raivosos, sem nenhuma tentativa de salvar suas vidas numa clara suspeita de estarmos acompanhando a eliminação de arquivos vivos. 

No caso particular do recente atentado em Londres, não seria difícil treinados agentes de segurança neutralizarem um homem armado apenas com duas facas.

(b) Lobos solitários e conhecidos

Como sempre, os terroristas são apresentados como alguém que agiu isoladamente. No caso do atentado de Londres, alguém já conhecido e investigado pelo MI5 (Serviço Britânico de Informações), mas,  que segundo a premiê britânica, “era uma figura secundária e não fazia parte do atual cenário da inteligência” – ooops! Acho que ocorreu um pequeno deslize do MI5…

E mais: para Theresa May, a ação solitária de alguém supostamente tão pouco importante, pode ter “se inspirado no terrorismo internacional”. Nas entrelinhas, May sugeriu um evento “copycat” – efeito de imitação no qual o psiquismo vulnerável de sociopatas, psicóticos, suicidas etc. são influenciados pelos eventos midiatizados – sobre isso clique aqui.

De fato, o “atentado” ocorreu exatamente no dia em que se fazia um ano dos ataques de homens-bomba em Bruxelas, matando 35 pessoas. Assim como o mês da morte do nascimento de Hitler (abril) costuma inspirar ataques como Massacre de Columbine (1999, EUA) ou à escola em Barcelona (Instituto Joan Fuster) em 2015.

O curioso é a ambiguidade sempre presente na descrição do suposto terrorista: alguma coisa entre um solitário sociopata e desequilibrado ou um ardiloso agente do ISIS que planejou tudo meticulosamente com apoio logístico do terrorismo internacional.

(c) Conclusões rápidas

O que nos conduz ao item (c): apesar dessa descrição ambígua, em questão de minutos a grande mídia e a polícia qualificam o incidente rapidamente como “ataque terrorista”, com todas as conotações dos “suspeitos de sempre” – muçulmanos sujos, feios e malvados; a ameaça ao Parlamento Britânico, um símbolo da democracia Ocidental; o terrorista frio e calculista e assim por diante.

Como sempre, a grande mídia opta rapidamente pela versão que confirma sua pauta interna subliminar. Assim como no acidente aéreo do ministro Teori Zavascki em Paraty: mesmo com as investigações apenas começando, rapidamente uma massa de elegantes infográficos comprovavam uma triste fatalidade meteorológica – aliás, a quantas andam as investigações da Aeronáutica e Polícia Federal, esquecidas por jornalistas e políticos?

(d) Por que treinamentos antiterror antecedem atentados?

Uma curiosa recorrência para incendiar a imaginação conspiratória: como sempre, dias antes (às vezes no mesmo dia, como no atentado à casa de show Bataclan em Paris) registram-se exercícios de treinamento antiterror nos quais são simulados ataques e socorro a vítimas civis.

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