Auge dos biocombustíveis incentiva o desmatamento

É um absurdo, dizem ambientalistas, que a crescente ansiedade para reduzir os feitos da mudança climática usando biocombustíveis e plantando milhões de árvores para conseguir créditos de carbono tenha se transformado em um novo motivo de desmatamento.

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É um absurdo, dizem ambientalistas, que a crescente ansiedade para reduzir os feitos da mudança climática usando biocombustíveis e plantando milhões de árvores para conseguir créditos de carbono tenha se transformado em um novo motivo de desmatamento.

Por Stephen Leahy*

Quase 40 mil hectares de florestas desaparecem por dia em razão da crescente avidez por madeira, celulose e papel. E, paradoxalmente, também por causa dos biocombustíveis e créditos de carbono criados para proteger o meio ambiente. É um absurdo, dizem ambientalistas, que a crescente ansiedade para reduzir os feitos da mudança climática usando biocombustíveis e plantando milhões de árvores para conseguir créditos de carbono tenha se transformado em um novo motivo de desmatamento.

Esta situação piora a mudança climática porque o desmatamento emite na atmosfera muito mais gases causadores do efeito estufa do que toda a frota mundial combinada de automóveis, caminhões, aviões, trens e barcos. “Os biocombustíveis estão se convertendo rapidamente na principal causa de desmatamento em países como Brasil, Indonésia e Malásia”, disse à IPS Simone Lovera, coordenadora administrativa da não-governamental Coalizão Mundial pelas Florestas, com sede em Assunção. “Nós os chamamos de diesel de desmatamento”, acrescentou.

O óleo da palma da África é considerado uma das melhores fontes de biodiesel, e também uma das mais baratas. Empresas de energia investem milhões de dólares para adquirir e desenvolver plantações dessas árvores em países pobres. Vastas florestas na Indonésia, Malásia, Tailândia e muitas outras nações foram cortadas para seu cultivo. A palma produtora de óleo se converteu no principal cultivo frutífero do mundo, muito acima das bananas. O biodiesel oferece muitos benefícios ambientais. Contamina menos o ar do que outros combustíveis. Mas a enorme sede mundial de energia pode converter milhões de hectares em monoculturas dessa espécie

É muito difícil conseguir dados precisos sobre as perdas de florestas que isso implica. O informe Situação das Florestas do Mundo 2007, divulgado há pouco mais de uma semana pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, alertou que a perda de floresta mundial liquida chega a 20 mil hectares por dia, o que equivale ao dobro de superfície de Paris. Porém, essa superfície inclui plantações, que mascara o alcance real do desmatamento tropical, que fica em torno de 40 mil hectares por dia, disse Matti Palo, especialista em economia florestal do Centro Agronômico Tropical de Pesquisa e Ensino da Costa Rica.

“O desmatamento de meio milhão de hectares por ano no México é coberto pelo aumento das florestas nos Estados Unidos, por exemplo”, disse Palo à IPS. Todas as estatísticas procedem dos governos, e países como Canadá não produzem nenhum dado confiável, ressaltou o especialista. Ottawa alegou que por 15 anos não houve nenhuma mudança em suas florestas, apesar de este país ser o maior produtor de celulose e papel do mundo. “O Canadá tem a responsabilidade moral de dizer ao resto do mundo quais mudanças aconteceram em seu território” disse Palo.

Plantações não são como as florestas naturais ou nativas. Mais parecidas com campos de milho, constituem ambientes hostis para quase todos os animais, e inclusive para os insetos. Essas florestas têm um impacto negativo no ciclo da água, porque as árvores não autóctones e de rápido crescimento absorvem grande quantidade do liquido. Os pesticidas, que também são prejudiciais para a qualidade da água, são comumente usados para eliminar outras plantas que competem pelo território e para impedir enfermidades vegetais.

As plantações também oferecem pouquíssimas oportunidades de trabalho. “São um desastre tremendo para a biodiversidade e a população vizinha”, afirmou Lovera. Embora a terra de cultivo ou a savana sejam usadas somente para plantações de palma de óleo ou outros vegetais, os moradores dessas áreas são obrigados, freqüentemente, a abandoná-las e se internarem nas florestas próximas – entre elas, parques nacionais – as quais cortam para iniciar cultivos, pastagens e juntar lenha.

Esse foi o modelo das plantações destinadas a extrair celulose e madeira de boa parte do mundo, afirmou Lovera. O etanol, elaborado a partir do milho e da cana-de-açúcar, é outro biocombustível importante. Com o aumento dos preços do biocombustível, mais terra é desmatada para esses cultivos. Os agricultores dos Estados Unidos abandonaram a soja pelo milho para atender a demanda por etanol. Isso eleva os preços da soja. Assim, a selva amazônica paulatinamente se converte em uma plantação única de soja, ressaltou.

Por outro lado, países ricos começam a plantar árvores para compensar suas emissões de dióxido de carbono, prática chamada de “seqüestro ou neutralização de carbono”. A maior parte dessas mudas é plantada no Sul sob a forma de plantação, que é a ameaça mais recente às florestas naturais. O efeito “do mercado de créditos de carbono da Europa pode ser desastroso”, afirmou Lovera. Esse mercado, multimilionário em euros, não permite o uso de projetos de reflorestamento para conseguir créditos de carbono. Mas grande quantidade de empresas privadas oferece esses créditos para projetos de plantar árvores. Muito pouco deste dinheiro vai para pequenos proprietários de terra, garantiu a ativista.

As plantações também contêm muito menos carbono do que as florestas naturais, lembrou Palo. Este especialista citou um estudo pelo qual o conteúdo de carbono em plantações de alguns países tropicais da Ásia chegava a apenas 45% da mesma superfície de florestas naturais. A comunidade internacional tampouco foi capaz de justificar adequadamente o valor dos enormes volumes de carbono armazenado nas florestas existentes.

Um cálculo recente indica que a floresta boreal proporcionava US$ 250 bilhões ao ano em serviços ao ecossistema, tais como absorver as emissões de carbono da atmosfera e limpara a água. A boa notícia é que o desmatamento, inclusive em áreas remotas, se detém facilmente. Tudo o que se precisa é ter acesso a algumas imagens feitas por satélites de baixo custo e contar com governos que realmente querem diminuí-la ou interrompê-la. A Costa Rica praticamente eliminou o desmatamento, ao tornar ilegal a conversão de florestas naturais em terra de cultivo, destacou Lovera.

O Paraguai aprovou leis semelhantes em 2004, depois controlou regularmente imagens via satélite de suas florestas. Inclusive, enviou funcionários florestais e policiais para fazer cumprir a lei onde fosse violada. “O desmatamento caiu 85% em menos de dois anos na parte oriental do país”, enfatizou a ativista. Outra solução complementar é entregar o controle sobre as florestas à população local. Este conceito comunitário demonstrou ser sustentável em muitas partes do mundo. Há pouco tempo, a Índia aprovou uma lei que devolve a administração da maioria de suas florestas a comunidades locais.

Mas interesses econômicos que pressionam pelo desmatamento em países como Brasil e Indonésia são tão poderosos que pode acabar restando pouca floresta natural. “Os governos começam a se dar conta de que suas florestas naturais têm um enorme valor. Uma moratória ou proibição sobre o desmatamento é a única maneira de parar isto”, disse Lovera.

* Este artigo é parte de uma série sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter Press Service) e a IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais).



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